domingo, 27 de dezembro de 2009

Canção de um marinheiro

Faz tempo, mas só agora eu percebi que, apesar de prometer, eu não falei sobre minha prova de japonês, o Nouryoku shiken. Como eu já disse em outras oportunidades, é a prova de proficiência feita pela Japan Foundation (a Fundação Japão; e sim, esse é o nome deles mesmo, em inglês. Como é um órgão internacional, decidiram usar o nome em inglês, e não em japonês). Se deu domingo dia 06 de Dezembro. Pois bem, a prova se divide em em três. A primeira prova é de kanjis e vocabulário. A segunda é a prova de audição (o famoso listening :P), e por último, gramática. Pois bem, posso garantir que fui bem na primeira e na terceira. O que me tira o sono, atualmente, foi meu desempenho no teste de audição. Não tenho certeza se fui tão bem assim. Acho que fui mais ou menos. Contudo, para passar no teste, é necessário acertar 60% em cada um das provas separadamente. Se meu mais ou menos foi mais de 60%, passei. Se foi menos, fica para o ano que vem... Saberei disso em Março, apenas. O motivo? Simples, os japoneses querem corrigir a prova (de múltipla escolha, com folha óptica igual a vestibular) em solo japonês. Não bastasse isso, a prova tem de ir, pasmem, de navio! Vai entender...

Bom, mudando de assunto. Para aqueles que leram o meu texto "Luz de velas", deve ter percebido a influência que sofri do poema "Ismália", de Alphonsus Guimarães. É um dos meus poemas favoritos (brasileiro ou estrangeiro). Um dos mais bonitos que conheço. Recomendo a todos que leiam. Minha colega blogueira Gi postou o poema em seu blog (link: http://profetadopassado.blogspot.com/2009/12/ismalia.html). Leiam que vale. Contudo, ainda há mais uma influência que, como se diz, passou batido. Também não os culpo. É uma música e uma banda não muito conhecida do grande público. A música se chama "A Sailorman's Hymn", da banda Kamelot, e conta (ou canta?) a história de uma jovem que acende uma vela à noite para guiar seu marido que está no mar. Para aqueles que têm curiosidade, vale a pena conferir (por favor, tenham curiosidade. Gosto muito desta música (e de outras da banda) e gostaria de compartilhar com vocês). Portanto, aí vai o vídeo. Aproveitem!



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quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Feliz natal

Nessa época de final do ano, muito pouco nos resta a dizer, exceto: Boas festas! E para quem gosta de uma musiquinha de natal:

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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Luz de velas

Hoje é meu aniversário, mas quem ganha o presente são vocês! Pois é, hoje, dia 09/12, estou fazendo 23 aninhos! Velhice tá chegando. Chega pra todo mundo, aliás. Não me recordo se já postei esse texto antes, mas como hoje é dia de festa e de soprar velinhas, lembrei do título desse texto.
Queria também aproveitar para agradecer aos que passaram por aqui me desejar um ganbarê na prova de japonês e aos que me ligaram ou vieram falar comigo também. A vocês, domo arigatô gozaimasu ('muito obrigado'). Foi uma semana cansativa, final de semestre ainda com prova e últimos trabalhos para entregar, o que quer dizer que não tive o tempo que gostaria para ver e comentar no blog dos outros (ou até para ler os livros que quero e os filmes que tenho vontade, mas essa é outra história). Sumimasen (isso aí é 'me desculpe').
Então, sem mais delongas:

Luz de velas

Ela subia as escadas para a torre apressadamente. Dos seus passos, ecoava o som da urgência. Em seus olhos, jazia o peso de uma vida guiada por escolhas tortas. Escolhas tristes. Em seu peito, ela carregava o peso de decisões tomadas por outros. Nenhuma acertada.
Agora, só lhe restava rezar. E acreditar.
O homem que ela amava havia partido numa jornada em alto-mar, e como manda a tradição, toda noite ela acendia uma vela à varanda, esperando que ele se guiasse pela luz incerta e retornasse ao lar.
E hoje, depois de tantas horas na madrugada, quando não se sabe mais ao certo quando termina a noite e quando começa o dia – nesse intervalo em que o momento é tudo o que existe e não há nada além dele – ela o ouviu. No alto da torre, trancada a sete chaves, o som do caminhar errante daqueles que preferem o mar à terra, a liberdade providencial dos oceanos à prisão reconfortante do solo.
Tomando a chave por entre seus seios, ela abriu a porta da torre. Lá, próximo da janela, a água encharcava o chão, como se alguém tivesse acabado de entrar.
Ela investigou a pequena sala vagarosamente, mas não encontrou o seu homem. Parecia ver alguém ao canto de seus olhos tristes, mas quando se voltava em sua direção, fugia-lhe a imagem – um vulto a escapar-lhe à vista.
Foi então que ouviu, como se num sussurro, a voz que há tanto esperava; vinha ela carregada no suave embalo do vento, na brisa leve que lhe soprava delicadamente sua mensagem inaudível.
A jovem aproximou-se da janela para escutá-la melhor, e foi aí que viu. A noite esvaía-se em raios de sol, e a única prova de sua existência resumia-se a uma estrela solitária, que resistia bravamente à violência do dia.
O astro solitário mais parecia uma vela, lançando sua luz incerta para guiá-la de volta ao lar. Diante de seus olhos, ela tinha uma estrela-guia, e de seus ouvidos, a voz cada vez mais abafada de seu amado a chamá-la.
Vendo o reflexo da vela ao mar, muitos metros abaixo, ela enfim compreendeu. E tomou sua decisão; a primeira em tanto, tanto tempo. Desfazendo-se da tristeza que trajava, revelou enfim a beleza de um sorriso decidido sobre um rosto apaixonado.
Jogou-se contra o reflexo da estrela no mar para unir-se ao seu amor no céu.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Nihongo nouryoku shiken

Eis o motivo de minha ausência. Essa palavra complicada do título significa "Prova de proficiência em japonês", que ocorrerá amanhã (domingo, dia 06/12) às 08h30min da manhã. Nada mal para começar um domingo, não é? Então, tudo o que peço de vocês é que me desejem sorte (ganbarê, em japonês). Depois conto como foi!

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Minha vida

Bom, gente. Dessa vez me superei. Além de ter demorado duas semanas para postar alguma coisa, ainda demorei para comentar os dos outros (isso se comentei) e não escrevi nada de novo. Contudo, quando pensava sobre o que fazer hoje, cheguei à seguinte conclusão: um aluno de letras aplicado como eu certamente teria algum texto velho e surrado que os meus leitores não conheceriam. E nas minhas pesquisas na memória do meu pc, cá achei essa crônica, que escrevi ainda no primeiro semestre. Olhando agora, vejo várias coisas que gostaria de mudar, mas ainda assim, creio eu, ficou divertida. Espero que vocês gostem de ler tanto quanto eu gostei de escrever. Depois, quem sabe, reescrevo e gosto mais, não é? Se tudo der certo, isso é. Afinal, como já escrevi em post anteriores, minha internet me odeia, e está cada vez mais difícil de me conectar (estou postando isso do pc da minha mãe, por exemplo). Mas deixemos essa história para outra ocasião. Por ora, deixo-vos com:

Minha vida, meu pc

Ah! Tecnologia. Ciência. Computadores. As maravilhas do Mundo Moderno. O que seria de nós sem todas essas coisas e ainda mais? Com o avançar das eras, nos sentimos cada vez mais dependentes dessas ferramentas que facilitam nosso dia-a-dia e se tornaram partes integrais de nossas vidas.
Afinal, como poderíamos viver sem um pc conectado 24 horas por dia à Internet nos bombardeando com filmes pornôs, vírus e Chuck Norris? Porém, eles não se restringem a apenas isso. Ah, não! Há também os utilíssimos e informativos e-mails com formas de obtermos pênis maiores e ereções cada vez mais vigorosas.
Somos postos contra a parede, tal o volume de informações (normalmente inúteis, claro) que veiculam diante de nós. Com velocidade tal, digna de um Schumacher em seus bons tempos (aqueles, quando o Rubinho ainda era segundo piloto...). E, para acompanhar tudo isso, nada melhor que gastar constantemente em upgrades e peças novas para potencializar o pc. Afinal, só assim pra jogar o novo Fifa Soccer ou o RPG Online do momento. Felizmente, pra quem não tem uma máquina desse tipo (ou seja, toda a gurizada que não consegue extorquir os pais da maneira apropriada) ainda consegue ir numa LAN House saciar suas necessidades básicas. Ah! As maravilhas do Mundo Moderno.
No fundo, ter um pc é uma relação de amor e ódio. Ora ele é a ferramenta mais útil na face da terra, nos permitindo pagar contas e administrar nossa casa, ora ele estraga e leva todos os arquivos de todos os usuários junto. Isso se ainda não arrastar o proprietário pra uma clínica psiquiátrica como conseqüência de ter perdido aquele trabalho que demorou dias e mais dias de pesquisa só pra começar. E pra piorar, ainda fazem filmes como ‘O Exterminador do Futuro’ e ‘Matrix’, em que essas mesmas máquinas se voltam contra a humanidade, fazendo as piores coisas: nos privando de nossa liberdade, nos escravizando, assassinando nossa espécie, escondendo o controle da tv... esse tipo de coisa. E ainda assim não conseguimos viver sem eles.
Bom, pelo menos o meu funcionou o bastante pra terminar essa crônica.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O universo e a estupidez

O que venho falar aqui, dessa vez, é um episódio verídico que me aconteceu no final de semana passado, durante o feriado. Acho que esse é um tema novo no meu blog. Por incrível que pareça, acho que nunca falei de mim para além de questões superficiais, como objeto de estudo, objetivos, cursos, etc. Mas passemos ao caso. Antes contudo, é necessária uma pequena explicação. Eu tenho um amigo que é cego. O nome dele não importa, o que importa é que ele tem um doença degenerativa da retina, que atingiu um estágio atual que o deixou com menos de 10% da visão; estima-se que ele tenha algo em torno de 5% da visão, mas abaixo dos 10% fica muito difícil de precisar. Fato é que ele não tem a visão fóvica (vulga central), apenas a visão periférica. Somos amigos há algo em torno de 15 ou 16 anos, mas ele não tem como me reconhecer na rua a menos que eu chame a atenção dele, por exemplo. Vocês devem imaginar a dificuldade que é para atravessar ruas, pegar ônibus, etc. Naturalmente, ele usa óculos escuros e bengala. Ah, claro. Apesar da cultura geral ser de que só é cego quem não enxerga nada, existem vários níveis de cegueira. Ele sofre de baixa visão, que é um tipo de cegueira, por exemplo. Bom, adiante:
Fomos a uma festa, eu e ele. Apesar de sua condião poder indicar uma pessoa passiva, aflita e indefesa, ele é perfeitamente capaz de se virar, já me levou para um monte de festas, tem trabalho, estuda como todo mundo; enfim, exceto por sua visão, vive normalmente. Portanto, fomos à festa. Lá, como ele gosta de dançar, ele tirou várias gurias para dançarem com ele. Como ele tem noiva e é um sujeito sério, ele dança porque gosta, não porque tenha segundas intenções. Ele só pede a minha ajuda para dizer quem é guria ao redor.
Bom, algumas pessoas viram e devem ter ficado desconfiadas. Afinal, um cego dançando? Como pode isso? E tal ficou que começaram a passar a mão na frente do rosto dele para ver se ele enxergava. Eu comentei isso com ele, mas ele disse que não se importava, que não dava bola. Ele é um cara tranquilo. Outro dia, quando comentei da preferência dele em filas, em assentos de ônibus, etc: ele só me responde: "é, mas isso me custou os olhos da cara". Tranquilo e bem humorado. Até eu faço piada com ele. E além disso ele é judeu. Faço piada com isso também :P
Bom, elas passaram a mão na frente do rosto dele (sem tocá-lo, logicamente) e achei que fosse parar por aí. Contudo, no momento seguinte, uma das gurias tirou o óculos dele e começou a usar. Eu, bom amigo que sou, pedi educadamente para que ela devolvesse os óculos: "Ele é cego, sua ignorante!". A moça me olhou surpresa, meio aflita, e a amiga dela também. Me perguntaram se era sério, e eu disse que sim. Devolveram os óculos prontamente e começaram a pedir desculpas. Eu confesso que fiquei incomodado com elas e não queria muito papo, mas ele não pareceu se importar muito. Queriam que nos juntássemos a elas e nos deram uma cerveja. Eu, como disse, não estava com vontade de ficar, mas ele achou que seria até uma boa oportunidade de falar sobre o problema dele e esclarecer alguns preconceitos. Aceitei. Mas que podia eu fazer, largar ele ali? Ficamos mais um pouco.
Depois, ele começou a explicar tudo o que eu disse no topo: que ele sofria de baixa visão, tem menos de 5%, só tem a visão periférica, etc. Então, uma das gurias ficou braba com ele por ele não ser cego "de verdade". Que ele era um fingido porque ele enxergava, que ele (e eu, por acompanhá-lo) deveria sentir vergonha de fazer isso, e daí pra baixo. Ele, coerente e um tanto acostumado a discriminação, só disse: "vai estudar". E ela começou a espalhar que ele não era cego. Felizmente ainda tinha gente ali de bom senso que resolveu ignorá-la, gente que veio nos dar apoio ou pedir desculpas por ela. Mas também teve gente que nos mandou embora. Agora que nada mais nos prendia ali (muito antes pelo contrário), saímos. Um tanto escandlizados pelo evento, mas já presenciei outros assim. Certa vez, quando atravessava a rua com ele, na faixa de segurança, teve arro que começou a buzinar (para um cego!), abriu a janela e mandou o cego sair da rua, já que ele não conseguia atravessar.
É por essas e outras que sabemos que Einstein tinha razão quando disse: "Apenas duas coisas são infinitas, o universo a estupidez humana, e eu não tenho certeza quanto ao primeiro".

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Uma vez mais, pulei uma semana. Não quero que isso se torne hábito, mas a verdade é que estou cada vez mais focado no Noryoku Shiken (aquele teste de proficiência em japonês do qual falei no post passado). As boas novas é que fiz um simulado (na verdade, a prova de 2006) e o resultado foi positivo: passei! Resta ver se na edição de 2009 também passo. Mas como ainda tem mais de um mês pela frente, estou cada vez mais confiante na vitória. hehehe
Contudo, isso provavelmente significa que os posts vão ficar meio atravessados. Além dos comentários que costumo fazer. Gosto de ler bem e de pensar a respeito de cada um dos posts, tentando ser o mais "ajudante" possível, o que fica complicado diante do volume de estudos que estou tendo. Juro que vou tentar compensar e me organizar para dar tempo para tudo, mas é difícil. E, muitas vezes, cansativo. Mesmo.
Só para não perder o barco: gostei do comentário da Gi sobre o tópico do outro post. Só para relembrar, falei de autoria e da intenção do autor, argumentando que o que interessa, na verdade, é a interpretação que o leitor faz da obra, e não o que o autor talvez tivesse vontade de dizer. Aí ela argumentou: pena que o vestibular não pensa assim. É verdade. Pena. Estão perdendo uma ótima chance de dar mais autonomia aos estudantes e de fazê-los raciocinar sobre o que lêem, ao invés de apenas decorar mais "fórmulas" para passar. Sei que o vestibular necessita de um critério objetivo para definir quem passa e quem roda, mas não penso que jogar uma interpretação específica sobre o que é o certo sobre tal autor e o que é errado seja o melhor. Mas quem sou eu para falar. Só um blogueiro. Ainda, pelo menos.

E, para não deixar ninguém (muito) na mão, resolvi postar um video de uma banda japonesa que faz muito sucesso: B'z. Sim, é esse o nome mesmo. Gosto do som deles, especialmente da guitarra (os mais observadores verão que o guitarrista é feio pra caramba, mas toca muito :P), e é um rock um pouco diferente do que costumamos ouvir. Bom, quem sabe eu não deixo eles mesmos se apresentarem?



Para quem quiser ver a letras, está nesse site (http://bz.9fishdesign.com/bzlyrics/lovedead.htm) com a traduçao (em inglês). Se vocês se interessarem, posso postar a tradução em português mais tarde, durante a semana. Bom, aproveitem video

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

De liberdades e afins

Pois é, dessa vez consegui atualizar na quinta; contudo, seguindo a linha das últimas semanas, também estou um pouco sem tempo. Sei que essa desculpa já não deve estar mais colando, mas eu tenho uma boa explicação para estar assim. E ela se chama Nihongo no ryoku shiken. Para quem não conhece, é uma prova de proficiência em japonês. Vai acontecer dia 06/12, e estou me preparando ardentemente para ela. Por que?, vocês perguntam? Porque, eu respondo, se conseguir uma boa nota, poderei pleitear uma bolsa de estudos no consulado japonês (tem um aqui em Porto Alegre) para estudar lá por dois semestres (e, quem sabe, até um mestrado ou doutorado. Um colega meu foi no início de Outubro, há duas semanas). Eis a razão de tanta demora (e de por que eu ter estado tão focado em japonês em certo momento. Era mais fácil me concentar nessa matéria devido ao volume de estudo recente. Quem sabe o que o futuro me aguarda, não?
Contudo, eu gostaria de me focar em outra questão neste momento. Eu tinha vontade de comentar isso faz mais tempo, mas acabei me passando. Num dos posts recentes, um dos leitores me pediu a "real interpretação" do meu texto; ou seja, o que eu queria dizer com ele.
De fato, o autor pode ter muito a dizer com um texto, pode ter planos e expectativas bem palpáveis com ele, mas acho que nem por isso essa seja a única/real interpretação. Muito pelo contrário, é só mais uma. Um dos motivos por que digo isso é que, em muitas ocasiões, o que o autor quer dizer não é necessariamente o que está escrito; são duas coisas diferentes. Muitas vezes eu me surpreendi com interpretações que leitores fizeram com os meus textos; leituras que eu jamais havia pensado. E sabem de uma coisa? Eu gostei. Muitas vezes concordei: "acho que é isso mesmo", pensava. E por que não? Só porque a minha opinião é diferente ela é a certa? Uma coisa é uma interpretação ruim, algo mal entendido, algum evento que escapou à atenção que mudariam a visão da narrativa. Algo completamente diferente de entendimento. Além do que, eu gosto muito quando vários leitores têm interpretações diferentes sobre um mesmo texto. Odiava (e ainda odeio, para ser bem sincero) aulas de literatura em que o professor tenta nos enfiar a "leitura certa" goela abaixo. Me lembro até hoje de uma aula que tive na faculdade, em que a professora estava dando a interpretação de um poema. Eu, sinceramente, achei aquela interpretação muito "longa", muito complexa. Duvidava que, ao escrever, o narrador tivesse pensado naquilo tudo. Para mim a leitura era muito mais simples. Vejam bem, não me lembro mais do poema nem das interpretações, mas disso mej lembro: levantei o braço e compartilhei minha opinião, dizendo o que pensava (que o autor não era esse gênio todo, tinha uma visão muito mais simples do que a professora achava). Aí foi uma das piores coisas que já vi: ela nem respondeu, só baixou os olhos, fez um sinal de negativo com a cabeça e continuou dando aula. Só faltou dizer algo como: tolinho. Aí eu estava acabado mesmo...
Até porque, eu creio que o texto, ao deixar a mesa do autor para ganhar a internet, os livros, ou só um guardanapo mesmo, ele ganha vida própria, autonomia, independência do autor. Num caso mais extremo: um dia o autor vai morrer, e o texto vai continuar. Como aconteceu com "Dom Casmurro", "Dom Quixote", "Crime e Castigo", "O Senhor dos Anéis", etc. Ninguém se preocupa em perguntar para o autor o que ele quis dizer com isso ou aquilo. Ou alguém conhece alguma sessão espírita que incorpore Homero, Virgílio, Fernando Pessoa e afins?
E sabem de uma coisa? Ninguém se importa com o que eles pensavam. Mesmo. Querem ver? Retomando o exemplo: Dom Quixote. O livro era um ataque à corte e a inimigos pessoais de Cervantes (com o nome deles e tudo). Ridicularizava todos eles e sua cavalaria. De acordo com um professor meu: veneno puro. Hoje virou um romance heróico sobre amor e esperança, com pitadas de humor e sarcasmo. Um clássico. E sabem por quê? Porque tinha nesse livro algo que escapava ao mero domínio do autor/narrador. Algo muito maior do que ele, e ganhou vida própria. Outro exemplo: ALice no País das Maravilhas. Esse livro pode ser lido como uma crítica à corte inglesa com apologia às drogas inclusive. A Disney transformou em desenho infantil. E a intenção do autor, cadê? Em qualquer outro lugar. Porque, sinceramente, não interessa. O que interessa é o texto e aquilo que ele nos diz, porque somos livres para ler e pensarmos no que quisermos. Nós, leitores, ajudamos a dar sentido às palavras. Eu, sinceramente, odeio quando sinto que o narrador tenta me levar pela mão e me guiar por todo o texto. Me sinto menosprezado, tratado como idiota. Gosto quando ele me deixa livre para imaginar e voar conforme meus próprios desejos. Muitas vezes, quando vou ler um texto meu, sinto justamente que falta alguma conexão, que só eu como autor consigo enxergar, e lá vou eu trabalhar o texto para garantir que meus leitores vão conseguir extrair alguma coisa dali. Sem, contudo, me meter na leitura deles. Creio que é um balanço delicado, que nem sempre dá certo. Mas eu tento. E quando dá, dá um gosto de ver. Ou ler, no caso.
Alguém aí está de acordo? Não? Que bom que estamos na internet, então. Venha concordar, bater em mim ou ficar em cima do muro :P

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Perdão... Sorry... Gomen... Pardon....

Bom, primeiramente, eu gostaria de pedir desculpas por não ter postado semana passada. Quem me conhece sabe que minha internet me odeia (assim como várias outras tecnologias) e ela resolveu que não funcionaria adequadamente no final de semana. Então, quando dei por mim, achei melhor esperar até quinta-feira para fazer um super post super legal. Contudo, como sempre, fui deixando para a última hora, e agora me encontro tendo de estudar para duas provas de Japonês que terei amanhã; ou seja, também não vou poder me esmerar como gostaria sobre esse post.
Contudo, não poderia deixá-los sem updates, claro. Onde estariam meus modos? Por isso, aqui vos trago a sequência do último conto, e a promessa de que, ainda essa semana, publico algo um tanto mais elaborado por aqui. E bom feriado!

O chão de Luciane (2)

Hoje, o chão aceitou Luciane de volta. Seu funeral será amanhã pela manhã.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O chão de Luciane

Pprimeiramente, gostaria de agradecer a todos os comentários no meu último conto. Achei legal que muita gente tenha interpretado o final como a morte do irmão, apesar de eu achar que o conto pudesse ser algo mais do que isso (algo como a transissão de uma etapa da vida para a outra; ou mesmo de crescimento e mudanças, tanto próprias quanto no ambiente que nos rodeia. Como uma parte que se perde e nunca mais retorna). Mas enfim, creio ser uma história de perda e, até, quem sabe, de evolução. Mas o conto era em si muito curto, acho até que "sonegou" algumas informações que pudessem levar a essas conclusões. Digo isso não como um: "vocês deveriamter interpretado assim" (até porque não acredito em uma interpretação unívoca e inequívoca), e sim como uma observação frente às minhas expectativas. Falando nisso, alguém já experimentou ler o meu conto "Fumaça e espelhos" como um conto de suicídio? Está um pouco mais para baixo, ou aqui para quem tem preguiça (http://visoesnaareia.blogspot.com/2009/08/fumaca-e-espelhos-redux.html). Gostaria até de saber se ele permite esse tipo de leitura.
E, claro, antes de passar mais adiante, queria esclarecer que leio tudo e "filtro" o que me foi dito. Muitas vezes não é bom ouvir de outras pessoas que o que nós escrevemos não está toda essa maravilha, mas saber as causas disso ajuda muito para o auto aprimoramento. E concordo com algumas coisas que foram ditas, aliás. Não sou chato com críticas, não. Sabendo ter respeito, acho que todos ganham.

Aliás, demorei para postar aqui hoje porque faz pouco tempo que meus pais retornaram de uma viagem ao exterior, e trouxeram a minha encomenda, que é um videogame novo! Yeah! Pode ser que eu comente menos no blog dos outros daqui para frente, mas será por uma boa causa ;-)

Ahem: agora, antes tarde do que nunca:

O chão de Luciane

Essa é a história de Luciane, a mulher que ficou sem chão. Pois veja bem, um dia, sem mais nem menos, o chão resolveu que não seria mais dela. Renegou-a. Pelo que se conta, ela descobriu isso de manhã. Ela acordou pronta para levantar da cama. Quando ia pôr os pés no chão... Nada. Não conseguia sentir o assoalho. Chegou a pensar que aquele seria um sonho estranho ou algo do tipo. Voltou a dormir, mas quando tentou de novo… Nada.
Ela simplesmente ficou ali, suspensa no ar. E quando se mexia, quase caía. Mas por sorte – ou azar – não batia no chão. Ao menos não se machucava. Respirou fundo e tentou andar, mas também não deu muita sorte. Afinal, sem lugar onde se apoiar, não conseguia sair do lugar.
Levou algumas horas até finalmente pegar o jeito. O que ela tinha de fazer era tão somente voar, que logo saía de onde estava. Primeiro, treinou pela casa, flutuando de cômodo em cômodo. Depois, saiu a praticar pelas ruas, perambulando pelo ar.
Ao fim daquela semana, Luciane já estava bem proficiente na arte de voar, e ia aonde quisesse sem grande esforço: ao shopping com as amigas, à casa de seus pais, visitar o irmão. Até tentou ensinar o seu sobrinho a voar, mas ele já estava muito velho para entender. Se ainda fosse novo o bastante, talvez conseguisse…
Pois bem: o tempo ia passando, e ela continuava ali, flutuando. Começou a sentir uma falta sem tamanho de botar os pés na terra… Podia subir nos móveis e no segundo andar dos prédios, mas no chão, aquele com quem ela realmente se importava… Nada. Sentia-se desolada, mas o que podia fazer se ele não a aceitava de volta?
Hoje, algumas pessoas dizem que é possível ver Luciane voando para o trabalho enquanto leva a filha para a escola. Ela está ensinando seu marido a voar, enquanto a filhinha já flutua um pouco. Em breve, quem sabe, veremos os três passeando juntos pelos ares.




Vamos ver que tipo de comentários esse pequeno texto incita. Muahahaha (insira aqui uma risada maligna)!

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Na chuva

Bom, semana passada eu fiquei doente e me sentindo mal, o que me levou a postergar a atualização do meu blog em um dia. Por isso, agora que fui ao médico, fiz exames e estou tomando remédio, creio eu que nada seria mais justo do que atualizar um dia antes, também, e manter uma média legal.
Para início de conversa, resolvi dar uma pequena pausa na conversa japonesa, não só devido ao tamanho dos posts, como também pela complexidade do tema e do "saco" de quem acompanha. Hoje o conteúdo é mais leve (ou não... vocês vao entender). Contudo, antes de prosseguir, preciso tomar conta de algumas pendências da última sexta-feira. O nome dos programas que eu uso, que prometi postar, acabaram faltando. Então ficou para o começo deste post aqui.
O programa que eu uso para escrever no computador é o JWPce. É muito útil para quem quer aprender kanjis. Você escreve a palavra e, se quiser, pode pedir para o programa mostrar os kanjis relacionados a ela, ainda com dicionário interno, para saber seus possíveis significados. O inverso também se aplica. Tem um texto em kanji? Ele pode transformar em hiragana e usar o dicionário para esclarecer os significados.
Pode ser encontrado aqui:
http://www.physics.ucla.edu/~grosenth/jwpce.html

Basta clicar em download e ele vem com tudo pronto. Muito fácil de instalar, inclusive.

Outro programa que eu uso é o rikaichan. Neste caso, é bom para internet. Você pode entrar em várias páginas em japonês, e ele tem um dicionário interno (que deve ser baixado com o programa) que funciona assim que se marca uma palavra. Aí ele vai dando possíveis significados e tipos de leitura.
Pode ser encontrado aqui:
http://www.polarcloud.com/rikaichan/

Notem, também, que português não é uma língua contemplada dentre as opções. Infelizmente, não há uma base de estudos muito forte no Brasil (ou em Portugal) sobre a língua, o que é uma pena.

Ok, agora que já escrevi muito mais do que deveria, aqui vem um conto novo, que escrevi no final de semana, revisei rapidamente, e aqui vos trago.
Boa leitura ;-)

Na chuva

O rapaz abriu a porta de casa apressadamente para fugir da chuva que rugia sobre ele. Brigando com as chaves, ele deu uma volta na fechadura e conseguiu arredar a entrada de seu ferrolho e criar espaço para sua passagem. Assim que entrou, pareceu-lhe que a chuva, magicamente – como muito acontece, conforme Murphy nos admoesta – cessou, e o céu abriu e estrelas surgiram.
Praguejando contra a sorte com todo o tipo de impropérios que lhe vinham à mente, ele fechou a porta e adentrou a sala, vendo seu irmão mais novo – um adolescente na típica idade estudantil – deitado no sofá, enrolado numa coberta xadrez, onde um azul claro e um amarelo suave se revezavam ininterruptamente. Ao lado, no chão, seu cachorro se divertia com um osso e os restos do tênis de alguém – que ele devia ter apanhado durante o sono de seu dono. O animal sempre ficava agitado quando não saía para passear.
Praguejando ainda mais contra o cachorro do que praguejara contra a chuva, ele fez menção de acordar seu irmão para fazê-lo ir dar uma volta com seu bicho de estimação. Contudo, vendo-o dormir tão serenamente, decidiu que sairia ele mesmo.
Pegou, então, a guia e colocou-a no cachorro. Antes de sair, ainda deu uma última olhada em seu irmão e notou como ele estava crescido. ‘Já está quase do meu tamanho’, pensou.
Puxou o cão e foram ambos juntos dar uma volta. Na saída de sua casa, ele voltou a sentir algumas gotas escorrendo das poucas nuvens que se amontoavam atabalhoadamente no céu. Ele suspirou, quase sem acreditar em sua (pouca) sorte, mas decidiu que daria uma volta mesmo assim.
Caminharam alguns metros e viram, dobrando a esquina em sua direção, um rapaz encapuzado para quem seu cachorro latia animadamente, balançando o rabo de um lado para o outro. Quando se aproximaram, o rapaz viu que quem vinha era ninguém menos que seu irmão mais novo.
- Mas – disse ele – eu pensei que você estivesse em casa, dormindo.
Seu irmão apenas sorriu, e disse:
- Eu estou.
E nunca mais voltaram a se encontrar.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Os kanas!

Como vocês devem bem lembrar, semana passada comecei a falar sobre a escrita japonesa e me comprometi a continuar a explicação nesta semana. Pois bem, como sei que nem todos podem ver os ideogramas no seu computador (por algum motivo, não vem instalado em todos os computadores; alguns necessitam instalar ou procurar plug-ins na internet), resolvi mudar um pouco o estilo visual deste post, utilizando fotos para as explicações. Ao final do post, escrevo o nome e o site do programa que uso para escrever em japonês para quem quiser. Vai que dá curiosidade...
Antes de mais nada, não pretendo fazer uma recapitulação do que foi dito. Se for necessário, ela será feita no corpo do texto com o intuito de esclarecer pontualmente aquilo que foi escrito. Quem quiser explicações mais detalhadas pode encontrá-las no meu outro post, na wikipedia, ou me perguntando mesmo, que respondo sem problemas, ok?
Agora, prosseguindo:

Apesar de ser um sistema muito didático e, de certa forma, até mesmo esclarecer do ponto de vista da cultura e do pensamento oriental, muitas vezes a escrita em kanji não é muito (para não dizer que não é nada) prática. Já ouvi como explicação o fato de que, sendo o japonês uma lingua silábica, há muitas palavras iguais e/ou repetidas (como hana, que pode significar tanto flor quanto nariz, shiritsu, que pode ser tanto público quanto privado - pretendo escrever mais sobre este exemplo mais adiante - etc). No caso, apesar da confusão previsível e da real habilidade que os kanjis têm de desambiguizar tais dúvidas, acho o argumento um tanto frágil; pelo simples fato de que ninguém fala em kanji. E se eles não precisam de ideogramas para esclarecer a própria fala (cheia dessas semelhanças e de palavras repetidas), então duvido que seja este o real motivo.
De qualquer modo, independentemente da razão pela qual são usados (seja por tradição, preguiça de mudar, cabeça-dura, valorização dos costumes, etc), eles são empregados e devemos conviver com sua existência. Contudo, como faz alguém que não sabe ler o kanji? Como pode ele olhar e "decorar" o significado? Isso sem falar que nem toda a lingua japonesa é expressa em kanjis. Como fazem, então?
Pois bem, é aí que entram os kana. Os kana são divididos em dois grandes grupos: hiragana e katakana, e é por eles que qualquer estudante de japonês começa. No caso, são duas formas fonéticas e silábicas de escrita, muito semelhantes ao alfabeto ocidental. Só que, ao invés de 27 letras e alguns acentos, são 46 letras mais algumas combinações.
Abaixo segue uma tabela com os 46 hiraganas básicos com a pronúncia em escrita romana (chamda roma-ji, em japonês - ji de escrita, e roma de Roma; a Escrita de Roma, portanto):



E, agora, a tabela com os katakanas básicos:



Como eu disse, esses são os básicos, ainda tem as combinações e as sonorizações (o ta vira da, o sa vira za, o shi vira ji, o ka vira ga, e o ha vira ba ou pa), mas já é um bom começo. Aí vocês podem perguntar: pra que isso? Pra que tanta escrita? E, realmente, o hiragana já estaria e bom tamanho, mas eles são japoneses, são 150 milhões de pessoas se apertando num arquipelagozinho do tamanho do Rio Grande do Sul, que vive a base de peixe e arroz; dá um desconto!
Agora, explicando direitinho: como foi dito anteriormente, os kanjis foram trazidos diretamente da China por volta do Século V para que os japoneses também pudessem se expressar, escrever e ler. Contudo, como é previsível, para se ter domínio dessa escrita, era necessário saber também chinês, algo que a maioria da população não tinha possibilidade (nem necessidade, diga-se de passagem) de aprender. Como fazer, então, para adaptar essa escrita à língua japonesa? No caso, após muito tempo, foram sendo criados esses dois sistemas de escrita, os hiragana e os katakana. Tanto o hiragana e o katakana foram desenvolvidos a partir dos kanjis como formas simplificadas de escrevê-los. No caso, como a forma cursiva da escrita era mais corrente entre as mulheres, o hiragana ganhou muita popularidade entre elas, ao passo que o katakana, por ser uma forma mais retilínea, foi favorecida entre os homens (basta olhar os dois quadros acima para ver a diferença na "suavidade" e "cursividade" das duas escritas). Tanto que as primeiras obras escritas por mulheres (como o Genji Monogatari - literalmente, História de Genji; também conhecido por muitos como o primeiro romance escrito da história da humanidade, o que ainda é motivo de debate, contudo, envolvendo autores gregos e latinos... mas deixemos essa discussão para os professores de literatura) eram escritas (quase) totalmente em hiragana.
Hoje, contudo, o debate cessou, e cada escrita tem limites de uso mais ou menos bem definidos. Explicando: os kanjis são para escrever a maioria das palavras, já que têm o "conceito" embutido; os hiraganas são para escrever partículas, conectores, preposições, terminações verbais ou de adjetivos; e os katakans são usados para escrever interjeições, estrangeirismos ou para destacar algum termo (como o nosso itálico).
Mas chega de diletantismo. Passemos a um exemplo mais prático.
Para ilustrar o exemplo dos três "alfabetos" de uma vez, nada melhor do que algumas frases simples:
1. Meu nome é Marcelo.
2. Vou ao Japão de Avião.
3. Hoje está quente.
4. Hoje foi quente.
(as últimas duas frases são para ilustrar o uso do hiragana nos adjetivos e a forma aglutinante da lingua japonesa; ao contrário da portuguesa, que vai "distribuindo" características ao longo da frase, a japonesa deixa tudo aglutinar no final, nos verbos e nos adjetivos). Vamos aos exemplos:



Vocês verão que o que está em azul são kanjis, e o que está em preto é ou hiragana ou katakana. No caso, na primeira frase, temos o primeiro kanji (watashi) que quer dizer eu. Entre este e o próximo kanji, há uma letra em hiragana. Para quem olhar no quadro, verá que aquilo é um "no". Neste caso, é uma partícula que indica posse. "Watahi no", portanto, quer dizer "meu". Os próximos dois kanjis se lêem "namae". Parece com a palavra "nome", em português, e é isso mesmo. Pura coincidência. Após estes kanjis, temos mais uma letra em hiragana. Para quem viu os quadros, saberá que se pronuncia "ha" (como em carro). Contudo, por ser uma partícula (muito importante), se pronuncia wa. Ela serve para indicar o tópico de que se fala. O sujeito, se assim quiserem chamar. Depois vem as letras em katakana. É o meu nome! Sim, Marcelo, em japonês, se fala Marusero. Eles não se dão muito bem com encontros consonantais, e transformam tudo o que podem em vogais. Como eu disse, é uma lingua silábica. E por último, temos o "desu". Em geral, costumam explicar que o desu é um verbo, mas ele é bem mais do que isso. No japonês, é muito comum comerem final de frase, partículas, eliminarem-se conexões, etc, de forma que as frases, muitas vezes, parecem um amontoado de palavras desconexas. No caso do japonês, o desu é um "liga tudo". Se você não souber o que fazer, coloca um desu no final da frase que periga dar certo. Bendito "verbo"!

A segunda frase eu "escolhi" para mostrar, uma vez mais, a diversidade existente de pronúncia e uso de kanjis. A primeira palavra em kanji nós já vimos da outra vez: hikouki, que quer dizer avião. A letra em hiragana, ao lado, é a partícula "de", que indica a ferramenta com que se faz alguma coisa (no caso, usa-se o avião para viajar, por exemplo). Se eu vou escrever com o lápis (enpitsu), digo: "enpitsu de kakimasu", sendo "kakimasu" o verbo : escrever. Como vocês devem ter notado, em japonês o verbo vai lá no final. Se não me engano, alemão é assim também. Aí vem a palavra Nihon. Que significa Japão. O primeiro kanji vocês já conhecem: sol (embora essa seja ainda outra pronúncia do mesmo kanji). O segundo é hon, que pode ser livro ou origem. Daí vem que o Japão é a Terra do Sol Nascente. Está no nome deles. É a Origem do Sol! Legal, né? A partícula he (mais um hiragana) se pronuncia "e", e indica direção. É para lá que vamos, afinal. E o ikimasu é o verbo, que quer dizer ir (vocês notaram que o kanji desse verbo, que se lê i, é o mesmo que se lê kou em avião?).

E enfim, as últimas duas frases, que pretendo analisar conjuntamente:
Na frase 3, a primeira palavra, kiyou, quer dizer hoje (o primeiro kanji significa agora, e o segundo, dia; viram que legal? O dia de agora é hoje! - mas essa é ainda outra forma de se ler o kanji de sol - quantas leituras nós já vimos até agora? Querem contar?). Temos então a partícula wa e o kanji de quente, atsui. Notaram como a última "letra" da palavra atsui se escreve com hiragana? É porque isso vai mudar depois. E depois temos o bom e velho "desu".
Na frase 4, temos kiyou, hoje, e a partícula wa, e a palavra atsukatta. Por que é que mudou, de atsui para astukatta? Porque, aqui, é o adjetivo que muda, não necessariamente o verbo. Katta é um sufixo que indica passado (nós tiramos o último "i" da palavra atsui e trocamos por "katta"). A frase, que antes era "hoje está quente", virou "hoje foi quente", mudando apenas o adjetivo (notem que o desu, o verbo, não mudou nada). Se quiséssemos dizer: "hoje não está quente", tiraríamos o i final de atsui e colocaríamos "kunai"; no caso, seria "atsukunai". E se eu quisesse dizer que hoje não foi quente? Fácil: tiramos o i final de atsukunai e colocamos o katta: atsukunakatta.
Aglutinou tudo, né? Antes que vocês me perguntem: sim, os verbos se modificam sim, muito semelhante a como os adjetivos se modificam. Só achei que seria ais interessante falar dos adjetivos por ser uma coisa tão diferente do usual para nós.

Foi uma lição longa, e acho que por hoje chega. Já cobrimos um básico dos kanjis, um básico de gramática, e um básico de kana. O que mais falta? Algumas pequenas - e divertidas - curiosidades de ideogramas.
Próxima quinta? Quem sabe. Talvez, se já não enchi o saco do pessoal com esse texto enorme...

ps: só não postei ontem por motivos de saúde. Estava indisposto, sofrendo em casa, mas fui no médico e já iniciei tratamento. Quem me conhece sabe que minha saúde não é lá um brastemp...

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

De kanjis

Pois bem, devido ao ritmo dos meus estudos recentemente, decidi enfim sentar e escrever, mesmo que brevemente, sobre a escrita japonesa (perdão pela repetição indevida de palavras). Sei que pode não ser o tópico favorito de muitas pessoas, mas achei que seria interessante ao menos apresentar esse conteúdo tão desconhecido e, até mesmo, vítima de certas mistificações por quem o desconhece. Confesso que, no início, eu também fiquei um pouco assustado com o volume de material e de exigência que o estudo do japonês exige; contudo, com a prática e o ritmo, tudo vai se assentando. Claro, eventualmente eu também me encontro à beira do desespero e da vontade de largar tudo e fazer algo mais fácil, como inglês ou francês, mas não teria metade da graça.
Comecemos do começo:

A escrita japonesa é originária da China com os ideogramas. Ao contrário de nossos amigos comunistas, contudo, o volume de caracteres no Japão é muito menor. Ao passo que, na China, o número de Kanjis usados chega a ser incalculável (e isso é verdade, não se tem ideia de quantas existam, apenas estimativas), o número de kanjis (o nome dos ideogramas) exigidos no Japão beira os 2.000. Pode parecer muito, mas, na realidade, é mais. Mesmo. O número de ideogramas oficiais é esse, mas, para se ler um jornal ou até alguns livros, seria necessário conhecer em torno de quatro a cinco mil caracteres.
O que poderia fazer alguém se sentir atraído por esse volume intenso de estudo? Loucura, provavelmente. Ou muitos episódio de Cavaleiros do Zodíaco quando criança. No meu caso, é a segunda alternativa :P
Prosseguindo: historicamente, não se tem noção clara de quando os caracteres chineses foram levados ao Japão, apesar de haver documentos datando do século V D.C. (provavelmente escritos pelos próprios chineses). Apenas no século VI D.C. é que se vê documentos escritos em caracteres chineses com interferência do japonês (um chinês misturado com japonês), indicando uso corrente da escrita.
Explicando brevemente, os ideogramas que compõem a palavra kanji (漢字) significam "escrita de Han"; esse Han seria o imperador chinês em cujo governo teria sido desenvolvida esta escrita. O porquê dos japoneses chamarem Han de Kan (daí "KANJI") não está claro, mas a teoria corrente é de que, na época, o japonês não tinha o som "han" (pronuncia-se ran) incorporado ao seu sistema fonético.
No caso da escrita na China, a cada ideograma corresponde um som com seu(s) respectivo(s) significado(s). No caso do Japão, como foi uma escrita adaptada, o furo é um pouco mais embaixo. No caso, a cada ideograma costuma corresponder um conceito, variando o som.
Podemos dar como exemplo inicial os números. Qualquer um que já tenha feito aula de judô ou karatê ou outra arte marcial japonesa deve ter aprendido a contar até, pelo menos, dez. Contemos, então:
ichi, ni, san, shi, go, roku, shichi, hachi, kyu, ju
A cada um destes números corresponde um kanji, certo? Aqui estão eles, em ordem:
一, 二, 三, 四, 五, 六, 七, 八, 九, 十

Pronto, agora vocês já podem escrever os números. São alguns dos kanis mais fáceis (do 1 ao 3, pelo menos).
Agora, para não ficar apenas na parte fácil, vamos complicar um pouco. O próximo kanji que vou mostrar se chama tsuki, que quer dizer lua. É um kanji bastante fácil, aprendido nos níveis iniciais, e é com ele que se escrevem os meses do ano. Podem adivinhar como se escreve? Fácil, fácil:
一月, 二月, 三月, 四月, 五月, 六月, 七月, 八月, 九月, 十月, 十一月, 十二月

Como se vê, o primeiro mês se escreve exatamente assim: como o kanji do número 1 junto do kanji do mês, e assim sucessivamente. Até os meses onze e doze são fáceis. Pega-se o kanji de 10 mais o kanji de 1 e voilá, 11. Como se pronuncia, então? Seguindo a lógica apresentada, o certo seria dizer ichi, que é um, e tsuki, que é lua, formando ichitsuki, correto?
Errado. Tsuki é apenas uma das leituras daquele kanji. Quando ele quer dizer lua, fala-se tsuki. Quando ele quer dizer mês, fala-se gatsu. Assim, janeiro é ichigatsu, fevereiro é nigatsu e assim por diante.

Passemos, agora, a outro kanji que pode causar ainda mais dores de cabeça: o de dia, ou sol. Um kanji tão simples, mas tão complexo. Sol e dia se escrevem da mesma forma em kanji (日), mas se pronunciam diferentemente. Sol é hi, e dia é nichi
Agora, passemos à verdadeira loucura.
O lógico, pelo que estou dizendo, seria fazermos o seguinte: quero dizer um dia. Portanto, pego o kanji de um e o kanji de dia, junto os dois e tenho ichinichi (一日). E está correto. Contudo, se quero dizer dia primeiro, eu uso os mesmos kanjis (一日), só que a pronúncia é levemente diferente. Fala-se tsuitachi (quando eu disse "levemente", estava sendo sarcástico), que é uma leitura especial. O mesmo acontece com dois dias. Pego o kanji de dois, junto com o de dia e obtenho ninichi (二日). Contudo, se me refiro ao segundo dia do mês, escrevo da mesa forma (二日), mas a leitura é futsuka.
Isso que estou dizendo pode parecer confuso, complicado e sem sentido (e no começo é mesmo), mas segue uma lógica de contagem em japonês. Em japonês, temos os contadores. Se quero duas maçãs (ringo), não posso dizer ni ringo, pois estaria errado. Devo usar o contador, que é futatsu. No caso, o contador de dias também começa com fu (futsuka), e esse padrão se repete. Por exemplo, o contador de três é mittsu (dia três se fala mikka); o contado de quatro é yottsu (dia quatro se fala yokka).
No caso, apenas para não deixar o exemplo pendente, para dizer: "quero duas maçãs", em japonês é: ringo o futatsu kudasai.

Aí vocês podem perguntar: e para que aprender um sistema tão complicado? No caso, até concordo que o sistem ocidental de escrita é muito mais simples. Contudo, o sistema de kanjis tem um poder de síntese e de ideias dentro da própria escrita que o sistem ocidental jamais vai ter. Por exemplo: avião (hikouki) se escreve 飛行機. Vocês podem não saber ler, mas alguém que não conheça a palavra, mas conheça os kanjis, poderá inferir o significado, pois se lê "máquina que vai voando".
Podem não gostar e torcer o nariz, mas temos que admitir que isso é, no mínimo, interessante.

Eu gostaria de escrever mais a respeito, mas não agora. O texto já está bem grande, e me permite escrever mais numa próxiam ocasião (quando eu falar da construção, dos componenetes e dos tipos de kanji). Além, é claro, dos kanas.
Ficou curioso? Então não perca! Na próxima quinta, nessa mesma bat-hora, nesse mesmo bat-blog!

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Fumaça e espelhos (redux)

Pois é, eu não tenho tido tanto tempo quanto gostaria para me dedicar a produções novas; no caso, eu tenho tido relativo sucesso reescrevendo ou reformulando algumas histórias mais antigas. Um destes casos é essa, que apareceu aqui algum tempo atrás, chamada Fumaça e Espelhos. Segui alguns conselhos, ouvi algumas críticas, e cheguei ao que, creio ser uma versão quase final do conto (acho que nunca chegamos ao final; nunca está perfeito, sempre tem o que melhorar).
Bom, àqueles que já leram, espero que achem melhor (e digam se melhorou ou não), e aos que não leram, espero que gostem (e digam o que acharam).

Fumaça e espelhos

Ele levantou cedo da cama, desligando o despertador que insistia em tocar ruidosamente ao seu lado. Roçou a cabeça de leve, desarrumando sua cabeleira negra. Passou a mão pelo rosto e sentiu a barba rala que se aventurava vertiginosamente até o meio do pescoço.
Tirou o lençol abarrotado de cima da cama e levantou-se, abrindo os braços finos e compridos para espreguiçar-se; sua sombra parecia esticar-se como um animal antigo e esquelético, à espreita nos cantos e paredes mal-iluminadas. Esfregando os olhos, olhou-se duramente no espelho, encarando seu reflexo esguio e sombrio. Um brilho rubro iluminava sua íris castanha, cintilando por um momento, efêmero como uma estrela cadente que mergulha silenciosamente na escuridão do universo.
Ele caminhou até a cozinha, onde pôs a água para ferver no fogão, ouvindo o assovio solitário da chaleira contra os infinitos ladrilhos que cobriam o cômodo de ponta a ponta. A água se esvaía em baforadas contínuas de fumaça e solidão.
Ele derramou o líquido numa xícara e completou a mistura com café e açúcar, bebendo sonoramente na casa vazia.
Findado o seu desjejum, ele caminhou a passos lentos e arrastados até o banheiro, onde tirou o pijama e ligou a água do chuveiro. Antes de entrar, mirou-se em um espelho que havia sobre a pia, admirando sua nudez pálida e magra. Seus olhos, ele notava, exibiam pequenas olheiras escuras e circulares, envolvendo sua visão como pequenos buracos negros que sugavam toda a luz ao redor. Cansado, ele entrou no chuveiro e lavou-se vagarosamente com a água morna, despertando de gota em gota.
Saiu do chuveiro e puxou uma toalha, que todas as noites deixava pendurada no box para não ter que passar trabalho pela manhã. Ainda pingando sobre o chão gelado de mármore, lambuzou o rosto com creme de barbear e puxou sua gilete.
Começou passando a lâmina pela face esquerda, prestando atenção em sua imagem para não errar. Cortou-se para cima e para baixo, buscando eliminar aquele redemoinho conjunto e rebelde de pelos que teimava em nascer e crescer e grudar-se ao seu rosto. Em movimentos rápidos e imprecisos, eliminou-os uma vez mais.
Quando terminou aquele lado, lavou a gilete na pia para tirar o excesso de espuma.
Nem teve tempo de perceber sua imagem refletida estendendo a mão para fora do espelho e, num movimento rápido, rasgar-lhe a garganta. Com um brilho escarlate vibrando venenosamente em sua íris enegrecida, seu reflexo brandiu a lâmina torta e gasta da esquerda para a direita, abrindo um talho em seu pescoço tal qual um sorriso fora do lugar, desesperadoramente satisfeito com seu resultado terminal e irrecorrível.
Sem emitir um ruído sequer, encostou-se à parede branca e gélida e deixou que seu corpo deslizasse suavemente até o chão, sentindo um arrepio frio em seu pescoço.
Sua imagem permaneceu imóvel, observando-o com um sorriso malicioso. Apenas mais tarde, apercebendo-se de sua própria natureza, é que enfim sentiu um corte profundo na garganta e caiu, sangrando até a morte.



Post-scriptum:
Àqueles que se interessam, eis o link para o post antigo
http://visoesnaareia.blogspot.com/2008/10/fumaa-e-espelhos.html

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Promesse é dívida

Se eu seguisse o ditado 'promessa é dívida', todos nós sabemos que eu estaria devendo até as calças (ou a cueca, ou... deixa pra lá), já que não costumo seguir muito o cronograma que eu mesmo traço e me disponho a cumprir no blog. Hoje, contudo, é um dia diferente. Hoje é o dia em que eu cumpri a minha promessa. A Adri fez bem em me lembrar nos comments do último post. Mas eu ia postar de qualquer forma. É que eu estava tentando escrever um conto especialmente pra hoje. Infelizmente, não consegui. Ao que parece, as ideias pra esse último me fugiram. Eu, que estava tão empolgado e cheio de expectativas, de repente me vi diante de uma folha de caderno em branco e não soube o que fazer. Alguns anos atrás eu largaria tudo e desenharia (eu costumava desenhar bastante, e até que levava jeito, sabe? Não que nem a Lali, claro - vulgo Vermeliasu). Bom, mas isso não quer dizer que não temos conteúdo. Não senhor. Primeiro, como nosso amigo Hermes disse no comentário dele (e como sei que também tem gente que tem essa vontade ou, no mínimo, curiosidade), é difícil de achar cursos sobre roteiro por aí. Portanto, eu achei melhor compartilhar algumas de minhas fontes com vocês. Todas na internet, gratuitas. Obrigado, mas não precisam aplaudir.

Bom, se você não tiver interessa nessa área, pode pular essa parte. Tem mais coisa lá embaixo.

O primeiro site é de Hugo Moss, que escreveu um manuel sobre formatação de roteiros, chamado 'Como formatar o seu roteiro'. Ele pode não ser muito criativo pra nomes, mas ele sabe do que fala. Deem uma lida e me digam que não é verdade.
O linke é:
http://www.films.com.br/intro.htm

O segundo é de Emilio Carlos. Um autor que, embora eu não conheça, bolou um "tutorial" muito interessante. Sei que é tudo meio básico e sem tanto desenvolvimento assim, mas é um curso pela internet gratuito. Já é muito mais do que NÃO ter um curso. Corrijam-me se eu estiver errado.
O link é:
http://www.mailxmail.com/curso-roteiro

E o último endereço é da Usina do Roteirista, um site também meio básico mas bastante interessante. Ao invés de tratar os temas da história do roteiro e do formato do roteiro em separado (como os dois últimos sites o fazem), trata os dois juntos, o que acabou me esclarecendo algumas dúvidas.
O link é:
http://screenwriter.sites.uol.com.br/formate.htm

Agora, para você que leu até aqui, ou que simplesmente pulou tudo, minha promessa cumprida. É um conto (não sei se se encaixa na especificidade do 'mini-conto', mas é bem pequeno) erótico; portanto, tirem as crianças da sala. Eu escrevi faz um tempo, mas não tinha postado ele aqui ainda. Ah, e por favor, tentem não entregar o final na seção de comentários. Sei que dá vontade de falar a respeito (até porque já msotrei o conto pra várias pessoas), mas minizem o que puderem, para não revelar o final pra quem não leu. Bom, era isso. Agora, como vocês:

Um caso de Amor

Chegaram ambos da festa e, sem perder tempo, dirigiram-se para o quarto. Sua consciência já pouco discernia o que faziam, influenciada por seu louco desejo um pelo outro. O vinho que tomaram fazia efeito, causando as risadas alegres e ansiosas que surgiam por entre as carícias.
Ela beijou-lhe o pescoço e começou a desabotoar-lhe a camisa, arrancando sua gravata com fúria. Desceu sua língua pelo peito descoberto dele, saboreando cada curva. Logo, ela chegou à calça e começou a esfregar o rosto contra o volume que se formava. Olhando para os olhos do seu par, ela lentamente abriu o zíper enquanto lambia os beiços, trazendo aquele membro grande e rígido para fora.
A mulher começou a brincar com ele, balançando-o em suas mãos e em seus lábios, até que o homem, não mais se contendo, puxou a boca dela contra o seu órgão, e ela começou a chupá-lo. Movendo sua cabeça para frente e para trás, ela extraiu dele gemidos de lascívia e de prazer, completados por diversos: ‘eu te amo’, ‘me chupa’, engole tudo’…
Quando ela terminou o serviço, um fio branco escorria pelo seu queixo, que ela puxou e engoliu sonoramente.
- Minha vez. – disse o homem, levantando a saia dela e ali mergulhando seu rosto, lambendo e chupando com veemência, sentindo a mão dela em seus cabelos, controlando-o com carícias gentis. Ele sentia um suco doce escorrer-lhe pelos lábios, derramando-se como um bom vinho que é degustado.
Quando ela estava satisfeita, puxou-o para dentro de si, num movimento cuidadosamente violento, sentindo-o pulsar como um coração. ‘Me come’, sussurrou ela para o seu amante, fazendo-o mover-se com ela, para frente e para trás, para frente e para trás. Sem piedade. Sem carinho. Um ritmo selvagem e incontrolável.
Uma volúpia voraz adonou-se de seus corpos, trazendo-os para junto de si tanto quanto podiam, ardendo como fogo um pelo outro, indo contra as leis da física, provando que dois corpos podem, sim, ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo, e mais, e estender-se e comprimir-se, e não eram dois, eram um só, e gemiam e gritavam e urravam e moviam-se, para frente e para trás, para trás e para frente, um contra o outro, agredindo-se com um apetite gentil e insaciável.
Beijaram-se loucamente, num momento selvagemente apaixonado e apaixonante. Então ele saiu de dentro dela e jogou-a ao chão, prostrando-a de quatro à sua frente. Ela o fitou como uma fera esperando seu macho, e levantou a saia, abrindo as pernas para ele.
Sem pestanejar, sem controle, ele atirou-se sobre ela e reiniciou o movimento.
- Goza! – dizia ela. – Goza em mim! Goza pra mim! Goza!
E ele, uma besta incontrolável, servo daquelas pernas, daquele corpo, daqueles olhos, uivava como um animal acuado, preso que estava dentro dela. Para frente e para trás, para frente e para trás, enfim entregou-se, jorrando quente dentro dela. Sentindo o seu amante, ela urrou de repente, jorrando então ela sobre ele, unidos em seu gozo mútuo e infalível.
E caíram ambos na cama, extasiados, acabados. Apaixonados.
- Gostou, meu querido? – perguntou ela, admirando-o.
- Adorei, mãe. – respondeu ele, aninhando-se entre os seus seios.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Ocupado (mas nem tanto)

Sei que estive ausente, e eu provavelmente estaria mais se não fosse pelo comentário da Marina. Por mais que seja só uma pessoa, é legal ver que os outros se importam. Talvez eu devesse fazer mais propaganda, invadir blogs alheios, incendiar sites e foruns, me promover na internet, etc. Pretendo fazer isso, mas eu em geral tenho uma grande dificuldade: por que fazer hoje o que você pode deixar para amanhã? Pois é, preguiça é brabo. Mas também não é só isso. Não!
Ultimamente, estive envolvido em projetos pessoais. Okay, mas o que é isso? Tem um nome legal, mas é meio vago, né?
É o seguinte, escrevi dois contos novos, dei uma revisada (e continuo dando) em vários contos antigos (a maioria deles não veio parar aqui, até por uma questão de tamanho) e fechei (mais ou menos (ok, agora vou parar de abrir parênteses (esse é o último, juro))) um livro. Um livro de contos. Até porque, escrever um romance é muito mais complexo e trabalhoso. Não que não seja possível, mas tenho me sentido muito mais à vontade com essa forma de escrita recentemente.
E, se o livro sair, vocês que aqui leem terão sido privilegiados; afinal, viram muito do material antes de sequer ser publicado. Estou agora em busca de emrpesas que aceitem publicar. Há a possibilidade em outros estados, mas como moro em Porto Alegre, acho melhor dar preferência a alguma daqui. O contato fica mais fácil e rápido, gente que mora no mesmo lugar, enfim. Dá para entender, né?

Além disso, não lembro se comentei aqui ou não, mas tive aulas de roteiro (para cinema e televisão) e entrei em contato com gente na área, o que possiblitaria um filme no futuro (um futuro próximo, imagino). Tenho lido a respeito e pretendo ler ainda mais, até para ter mais embasamento antes de começar. É provável também que eu faça um curso mais pra frente para me aperfeiçoar. Enfim, planos e projetos (esses sim estão em andamento).
Eu, em geral, não gosto de falar muito de mim. Pelo contrário, sempre busco outros temas sobre os quais dissertar e tentar partir daí, mas agora resolvi me abrir um pouco. Sabe até que é legal às vezes?

ps: antes do fim do post, eu pretendia colocar mais um mini conto aqui, mas resolvi deixar pra depois. Quarta-feira eu publico aqui com novidade. Sem falta!

sábado, 25 de julho de 2009

Aviso aos transeuntes

Olá a todos, e, uma vez mais, desculpem-me. Passei por alguns problemas de ordem pessoal que me indispuseram com a vida (mais ou menos), e me tiraram a vontade de mexer aqui. Além disso, como eu já disse, minha internet me odeia. Muito. Acho que por isso mesmo que o adaptador wireless (minha rede é sem fio) caiu no chão e quebrou, me deixando inconectável exceto por meio de computadores alheios.
Para variar, minha internet resolveu que eu não deveria me envolver com vocês, e convenceu meu pc a participar da maracutaia. Sim, só para digitar essa tripinha de texto, precisei mais de meia hora (tive reiniciar o pc, instalar a internet de novo, entre outras coisas).
Mais tarde ponho mais conteúdo aqui, mas tá difícil...

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Desculpas...

Sinto muito pela falta de updates recentemente, mas tenho passado por uma série de dificuldades técnicas. A primeira é uma questão salutar. Eu tenho sinuzite, e o clima do Rio Grande do Sul é absolutamente inclemente, e pune severamente os mais fracos (no caso, eu). Só agora, com acesso a muitos remédios, é que estou voltando a ficar melhor. Mas nada demais, tb... Outro problema é tecnológico. Estou trocando de pc, e aparentemente, é muito difícil passar tudo o que eu tinha no antigo para o novo de forma funcional. Deve ser algo contra mim, não vejo outra explicação pras minhas máquinas viverem dando pau (vide post: Minha internet me odeia!).
Portanto, não tenho ainda o post que eu gostaria de ter escrito sobre a maravilhosamente complicada caligrafia japonesa. Mas, antes do choro da maioria, trouxe um conto que escreve há algum tempo, levemente acrescido (bem de leve), aqui exposto. Espero que gostem, e que eu melhore.

Frank

Jonas, vestindo seu tradicional jaleco branco, aproximou-se lentamente do homem na maca, admirando seu corpo nu e pálido. De pé, ele caminhou até os equipamentos ao lado da cama e começou a afiá-los.
- Sabe, Frank, eu sinto saudades suas. – Jonas começou a falar enquanto batia uma lâmina contra a outra. – Fazia tempo que não ficávamos assim, não é? De frente um pro outro, só nós dois. Bons tempos aqueles. Lembra quando você conheceu aquela mexicana, a Conchita? Não? Eu lembro. Gostosinha ela. Mas você também não era nada mal. Pena que envelhecemos, hein? – e bateu de leve no ombro do homem deitado.
- Você está frio, sabia? Frio. Se bem que eu gosto de frio. Lembra daquela nossa viagem pra Québec? Estava o que, menos trinta? E o pintinho também, menos que cinco. – e deu uma risadinha leve diante do corpo. – Que foi, não achou graça? Pois é, você sempre foi o mais comportado. – Jonas sentou-se num banquinho ao lado da maca e começou a apalpar o corpo. – Eu sempre fui o cara da sacanagem. Dá pra acreditar que eu casei? – logo, começou a cortar os dedos das mãos de Frank. – Que coisa estranha, não? Eu sempre achei que você fosse casar, construir uma família e… esse está difícil… ah… consegui. Seu dedo duro. – dessa vez, ele riu forte, admirando o dedo médio que acabara de decepar. – Viu só, é por isso que você está aqui. Tem dedos difíceis de cortar. – então, entre risos, Jonas apalpou a mão do corpo até chegar ao pulso, onde voltou a serrar.
- Eu conheci ela faz o que… uns dois, três anos? Sabe aquilo que você sempre dizia? Aquela coisa do amor, como é que era? Seus olhos são o caminho do seu coração? O caminho para o coração é através da visão? – ele terminou de cortar as mãos e foi para o bíceps. – Bom, era algo sobre amor à primeira vista. A gente sabe quando encontra a pessoa certa, não é? E foi isso mesmo o que aconteceu. Assim que nós nos olhamos, eu sabia. Ela era… nossa, não lembrava que você era tão forte. Belos músculos. Espero que meu filho seja assim. – ele terminou os braços e dirigiu-se para os ombros. – Aliás, eu te falei que vou ter um filho? Eu e a Adriana, é esse o nome da minha mulher, Adriana. Eu tinha esquecido de contar, não tinha? Hum… esse osso é difícil. Mas calma que já acabo… pronto. Dito e feito. Posso começar as pernas? Você não se importa, não é? Imaginei que não. Posso fazer os pés? Começo pelo direito, é claro. – e explodiu numa gargalhada enquanto tocava os pés.
- Bom, como eu ia dizendo, eu e ela nos apaixonamos e casamos. E agora vamos ter um filho. Eu estava pensando em dar o teu nome pra ele. Gostou da homenagem? Quer dizer, se for menino. Não dá pra ver na ecografia ainda. – Jonas serrou-lhe os dois pés e colocou-os num balde. Logo, começou a estudar os joelhos. – Faz pouco que ela está grávida. Nem dá pra notar direito. Você não faz idéia de como eu estou contente. É só nisso que eu consigo pensar. Eu vou ser pai! Não se preocupe, eu sei que você se você ainda tivesse os braços estaria me abraçando agora. – e começou a rir alto, sem conseguir se controlar. Após terminar os joelhos, foi para a virilha. – Piada maldosa, eu sei. A gente não deve chutar quem está por baixo, mas você me conhece, eu não consigo resistir. E… o que é isso que eu estou vendo… você está com frio de novo? – e voltou a rir diante do corpo. – Brincadeirinha. Eu sei o quanto você usou isso aqui. Quanta mulher. E cá entre nós, teve alguns homens também, não teve? – ele terminou de cortar as pernas e o pênis e abriu-lhe o tórax.
- Mas sabe de uma coisa, eu quero que o corpo do meu filho seja que nem o seu. Você sempre foi muito atlético. E veja aqui o seu coração. – rindo alto, Jonas guardou o órgão num saco plástico. – Eu gostaria que meu filho fosse um homem justo. De estômago forte também, não que nem o seu, que saiu com um cortezinho de nada. – e riu como antes, batendo um dos pés no chão. Suas bochechas já estavam doendo. – Admite que essa foi boa. Não? Senso de humor nunca foi uma de suas características marcantes. Isso eu espero que ele puxe de mim. Todo mundo iria gostar dele.
- Bom, agora que eu terminei por aqui, vamos para a cabeça. Eu vou rachar o seu crânio e extrair o seu cérebro. Pode doer um pouco… Bom, lá vai. – batendo forte, Jonas conseguiu quebrar-lhe o crânio e tirar o cérebro, intacto.
- Frank, seu cabeça oca. – e riu baixinho do seu comentário. – Agora, se você me dá licença, tenho que limpar tudo.
Jonas levantou-se e organizou todas as partes do corpo numa mesa ao fundo. Lavou o chão e foi trocar de avental. Demorou-se um pouco tomando banho, até que enfim voltou para a sala, vestindo um smoking. Sentou-se à mesa e, puxando um garfo e uma faca, disse:
- Então, por onde eu começo?

domingo, 28 de junho de 2009

O país de Karin

Demorei, mas estou postando um update. Eu queria fazer algo melhor e um pouco diferente (estava pensando em falar sobre kanjis - os ideogramas japoneses), mas preferi colocar esse post aqui como "tapa-buraco" enquanto não escrevo o outro.
Esse é um dos contos mais estranhos que já escrevi (do qual, inclusive, muita gente não gosta). Para ser sincero, eu ainda tenho dúvidas sobre como escrevê-lo, o que fazer para melhorá-lo, etc. Talvez por isso mesmo seja uma boa ideia colocar aqui. Assim o pessoal pode ver e me dar algumas sugestões. Né?
Bom, divirtam-se. Espero semana que vem falar sobre a temida escrita japonesa...

O país de Karin

O país de Karin foi preso naquela manhã, sem mas nem choro. Ele tinha mal e mal uns seis meses; sete quando muito. Foi levado por uns homens vestidos todos de preto. Eles vieram escondidos, sorrateiros e, na calada da noite, levaram-no.
Alguns dizem que virou escravo. Outros, que foi morto. Mas do que não se tem dúvida, é de que sofreu.
Aqueles homens vestidos de preto eram conhecidos por sua crueldade. Ninguém sabia por que levaram aquele país tão jovem, mas deixaram centenas de idosos e crianças desabrigados. Sem pátria, tiveram que se mudar para algum outro país, o que se provou muito difícil. Afinal, país que se preze não deixaria seus filhos com essa gentalha. Se o país já fora preso, imagine o que aquela marginalia seria capaz de fazer.
Mas para algum lugar eles tinham que ir, e um que outro país, que acreditavam na inocência do que fora levado, aceitaram uns aqui, outros ali... E só uns poucos, que não tiveram sorte, ficaram no não-país.
Dez anos depois, ninguém sabe como nem de onde, o país voltou, e foram aquelas crianças, agora mais velhas, que o receberam. Mas ele estava tão desfigurado, tão diferente, que sequer o reconheceram. Alguns por pena, outros por educação, ofereceram-lhe aquela terra, que ele aceitou de muito bom grado. Estava felicíssimo por ter retornado para casa, e mais ainda por não terem perguntado quem era nem de onde vinha; ele não queria nem lembrar o que lhe acontecera naqueles anos todos. O único problema agora eram os antigos moradores, que não estavam gostando nem um pouco de ver aquele país estranho na sua terra. Então, reuniram-se e o mandaram embora.
Alguns dizem que ele foi pra outro lugar. Outros, que morreu. Mas do que não se tem dúvida, é de que sofreu.
Só Karin sabe que hoje, triste e solitário, ele vaga por aí, esperando pelo dia em que poderá voltar para casa. Enquanto isso, ela prepara a água morna do banho e o fogo da lareira, para poderem conversar como faziam na sua juventude.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Minha internet me odeia!

Caros leitores:
Minha internet odeia a mim, à minha alma, e tudo o que há entre elas. Aparentemente, qualquer coisa remotamente relacionada com conexão a cabo é tomado por um ódio incontido e continuado ao meu ser, então expresso na forma de ineficácia, descontinuidade, interrupção, bugs, problemas gerais. Atualmente, só o fato de eu conseguir entrar no site já é uma proeza, que dirá atualizá-lo.
Espero deixar claro que minha ausência holística (internet, e-mail, msn, blog, etc) fique esclarecida com o nome do post.
Boa noite...

terça-feira, 2 de junho de 2009

Rabiscos no caderno

O próximo texto que eu vou postar aqui foi um achado no caderno. Escrevi no início do ano passado durante uma aula muito chata para um conto que eu planejava escrever. Era para ser um exercício de descrição - um esboço, digamos - para o texto subsequente. Pois bem, um ano depois, não é que olhando aquele caderno eu encontro esse excerto? Meio sem esperar, completamente de surpresa, olhei e me lembrei dele na hora. Até aquela hora, eu o havia varrido da memória. Até que foi bom reencontrar. Me deu uma visão mais "distante" da minha escrita. E sabem que achei o resultado positivo?
Bom, como gostei, decidi que iria postar esse excerto aqui (depois de tê-lo lido para minha namorada e ter recebido sua aprovação, claro):

Rabiscos no caderno

Percorrendo os metros finais da mina, Christian era cegado pela luz reconfortante do mundo externo. Quando enfim deixou a escuridão para trás, viu-se diante de uma extensa baía que terminava ao mar. A areia branca refletia o pôr-do-sol tal qual um grande diamante exposto à luz.
Ele caminhou adiante até o limite da terra, em que mar e céu se confundiam de tal forma que ele poderia nadar ou voar sem jamais saber a diferença; até o oxigênio que corria era o mesmo, e ele poderia morrer respirando no mar ou afogar-se nos ventos ao seu redor.
O sol desaparecia no horizonte, morrendo sem nunca morrer, ou surgia, nascendo sem nascer. Habitava um espaço entre o crepúsculo sombrio e a manhã enevoada.
O último lugar da Terra, antes que a realidade subisse numa balsa e se perdesse no oceano eternamente rubro, era habitado por fantasmas de sonhos e de esperanças, que o assombravam com os uivos vazios de um choro seco.
Um rumor de asas enchia o ambiente, e pássaros azuis cruzavam o céu rapidamente, aproveitando os últimos momentos que lhes restavam. Pois Finisterra não é apenas um lugar, é também um quando.

domingo, 24 de maio de 2009

Faerie (parte 2 de 2)

Sei que faz tempo, mas prometi que traria a segunda e última parte de Faerie (que, para ser sincero, tenho dúvidas quanto ao título. Pensava em nomear esse conto "Isabela e o Cavaleiro". O que vocês acham?). É uma história bem menos séria e mais divertida (creio eu) do que o habitual. Acho que é por isso mesmo que gosto tanto dela. Foge um pouco do meu tradicional, apesar de ainda manter a identidade.
Bom, espero muitos comments (sem pressão, hem?). hehehe

Faerie... 2


De volta ao palácio com o menino e a menina, já despertos, os servos não perderam tempo em levá-los diretamente à presença de Oberon e Titânia. Ao longo dos corredores percorridos, passaram por paredes decoradas por uma coleção infindável de cabeças penduradas, uma visão normalmente terrível e apavorante; mas estavam tão bem distribuídas, dispostas de forma tão clara e agradável que dava até vontade de ficar olhando… Mas não podiam. O rei e a rainha tinham pressa: exigiam música já – e degola em breve.
Os dois irmãos, então, viram-se em frente às figuras mais importantes do outro lado da neblina, Rei Oberon e Rainha Titânia, altos e belos, igualmente cruéis. Há centenas de anos um ser humano não punha os pés naquele palácio, e lá estavam eles, prestes a cantar por suas cabeças. Ambos governantes sentados, esperando pela apresentação, e os irmãos entreolharam-se. "Está pronto?", um perguntou ao outro.
"Cantaremos a história de Isabela e o Cavaleiro."
Silêncio.
"Ahem…”

Isabela mirava da janela as flores
que refletiam em si do sol os raios,
e o cavaleiro tocava em sua harpa as dores.
Era a primeira manhã de maio.

‘Ah, Cavaleiro, se eu pudesse ao menos tê-lo,
no meu doce colo a tocar’, disse a bela donzela,
admirando o mar.

‘Só de ouvir esse desejo,
que posso eu se não fazê-lo
com cada ar que respirar?
Tu, que és tamanha beldade,
atende-me nesta vontade:
Vem comigo a cavalgar’.

E ao som daquela melodia
Isabela notou que não podia
àquele desejo resistir.

Subiu então no seu cavalo,
com o cavaleiro ao lado,
para, com ele, partir.

Chegando à margem da floresta,
entraram por uma clareira deserta
E o cavaleiro rosnou o seu bramido:

‘Isabela, Isabela,
Chegamos ao lugar de teu último suspiro.
A próxima vítima serás da minha clava.
Pois as minhas últimas sete esposas,
Matei-as todas. E tu serás a oitava. ’

‘Piedade, piedade, tenha o senhor de mim.
Minha família ainda pretendo ver,
se possível antes do fim.
Deve estar cansado, por isso eu lhe imploro
Deite a espada no chão, e a cabeça no meu colo. ’

Ela acariciou o seu cabelo, fazendo o sono surgir.
E com um pequeno feitiço, botou-o logo a dormir.

E o cavaleiro caiu num sono profundo,
sem reparar por um segundo no plano de Isabela.
Ela pegou sua espada torta,
que de tantas princesas mortas,
já brilhava com sangue azul.
E num movimento certeiro, decapitou o cavaleiro
que morava na floresta ao Sul.

Levantando-se da poça ensangüentada,
nossa donzela aprisionada, mirou o morto e falou:

‘Se sete princesas você aqui matou,
Seja delas o marido, já que sua não sou. ’



Quando terminaram de cantar a balada, os dois irmãos olharam ansiosos para o rei e a rainha, esperando o veredicto. Os soberanos, no entanto, sequer esboçaram reação; voltaram-se um para o outro e passaram a conversar em cochichos. Foi uma troca breve de palavras, mas o tempo parecia distender-se e desprender-se, transformando minutos em horas e momentos em eterna agonia de espera.
Enfim, depois de conjeturar, Lady Titânia levantou-se e começou a aplaudir.
“Parabéns”, ela disse, deixando as crianças em estado de euforia, “meus fiéis hobgoblins. Fizeram exatamente o que eu lhes ordenara. Trouxeram-nos dois menestréis belos como o orvalho e que, claramente, pouco entendem de música.”
“Nada”, completou Oberon.
Os murmúrios de comemoração dos servos já se pronunciavam no salão, extasiando os súditos de Faerie com mais um espetáculo de decapitação a se seguir, até que a rainha voltou a se pronunciar:
“Contudo, existe algo na canção proferida que me tocou profundamente.”
“Seria a decapitação do cavaleiro, minha rainha?”, perguntou-lhe Oberon.
“Certamente. Portanto, poupar-lhes-ei a vida para que possam apresentar-se dignamente aos outros membros da corte”, e os olhos dos dois jovens encheram-se de alegria. “Agora”, prosseguiu a rainha, “terei de tomar uma decisão que muito me aflige. Chegamos ao fim desta semana e ainda não tenho as duas cabeças que me faltam. Não me resta outra alternativa senão sacrificar meus fiéis hobgoblins em nome da estética”, e ela apontou o pequeno grupo – não mais que doze – que havia lhe trazido os humanos. “Alguém há de oferecer a estes pobres servos uma arma.”
Da multidão que assistia à cena, uma espada foi lançada.
“Ótimo”, continuou Titânia. “Aquele dentre vós que me trouxer a cabeça de outros dois será devidamente recompensado. Os restantes serão enforcados”, e foi dada a sentença.

Durante as próximas duas semanas, os irmãos apresentaram-se diariamente para toda a corte de Faerie, recitando sua famosa balada: Isabela e o Cavaleiro. Tocaram diante de uma miríade de espíritos da terra, do céu, da água, do ar, e de outros tantos elementos que só existem além da neblina.
Ao fim daquele período, a senhora Titânia, um tanto contrariada, concedeu-lhes a liberdade, desfazendo o feitiço que os prendia ao seu reino. Depois de sua última apresentação, receberam do rei algumas frutas e um “boa sorte” e puseram-se a caminhar. Sem muita demora, chegaram aos Ermos e atravessaram a névoa.
Do outro lado, a noite avançava às pressas, e algumas estrelas já brilhavam no céu. Guiando-se por velas acesas na escuridão, os irmãos trilharam o caminho noite adentro até chegaram à sua vila.
Qual não foi sua surpresa ao perceberem como ela havia mudado depois das duas semanas que haviam passado em Faerie. Algumas casas foram construídas, outras derrubadas, a grama cresceu, e as estradas se multiplicaram.
Perdidos devido às recentes modificações no relevo de sua vila, os irmãos moveram-se ansiosamente por entre as construções, até que enfim encontraram o caminho de casa. Como as crianças que eram, correram esperançosos gritando por sua mãe, chorando pelo fim de sua jornada.
Contudo, quando estavam mais próximos de seu lar, notaram que sua casa estava em ruínas. Duas árvores de Ipê haviam crescido do lado de dentro e destruído o telhado e as janelas. Perguntando pelos arredores, os irmãos descobriram que os antigos moradores daquela casa já haviam se mudado fazia muitos anos.
Chocado com a descoberta, o irmão só conseguiu pensar em uma coisa para salvar a si e a sua irmã. Pôs o seu chapéu no chão e começou:
‘Isabela mirava da janela as flores…

quarta-feira, 20 de maio de 2009

De haikais

Como eu havia dito anteriormente, estava preparando um post sobre haikais. A ideia é fazer do blog algo mais do que um simples mural de histórias. Essa - e a discussão constante acerca do fazer tradutório - é uma das tentativas nessa direção.
Sei que o texto está longo e um tanto pesado, mas condensei como pude um tema dessa grandeza e magnitude.
Aproveitem a leitura!

Haikai
A poesia tradicional japonesa pode ser metricamente reduzida a seqüências de cinco e de sete sílabas, e mesmo a prosa cadenciada das narrativas poéticas mantém, como base rítmica, a alternância desses metros fundamentais.
Na poesia das antologias imperiais dos séculos X e XII, há fundamentalmente duas espécies de poemas: os naga-uta ou chôka (poemas longos), que alternam os versos de cinco e sete sílabas sem limite fixo, terminando por um dístico 7-7; e os tanka (poemas curtos), compostos no seguinte esquema: 5-7-5-7-7. A divisão que se tornou clássica (no que concerne o tanka), temos um terceto de versos imparissilábicos e um dístico parissilábico: 5-7-5/7-7. Essa observação é importante porque essa primeira estrofe é que vai, mais tarde, constituir o que usualmente designamos por haikai.
No exemplo a seguir pode-se observar a tal segmentação:

Minha velha aldeia
Sob as folhas vermelhas caídas
Aos poucos vai desaparecendo:
Nas samambaias do beiral
Como sopra o vento do outono!

Minamoto no Toshiyori (1055-1129)

No tanka, é raro que a relação entre as estrofes apresente um claro nexo lógico, sendo preferido o uso de justaposição direta de imagens (de alguma forma complementar) ou um breve comentário ou exemplificação do clima geral estabelecido na estrofe de cima. Dado que os poemas eram desenvolvidos quase que exclusivamente no ambiente da corte, esse esquema tópico/comentário permitiu e mesmo incentivou que duas pessoas desenvolvessem o tanka: uma encarregada pelo terceto 5-7-5; e outra pelo dístico 7-7.
A composição dialogada de um mesmo tanka, por sua vez, acentuou a independência das duas secções do texto, e os mestres do novo gênero – chamado renga (canto interligado) – enfatizarão que a beleza desse tipo de poesia reside principalmente no encadeamento das partes e na relação que pode ser estabelecida por elas.
A composição de tanka por pessoas diferentes tornou-se, na Era Kamakura (1186-1339), uma das principais atividades de salão da aristocracia medieval japonesa e o veículo por excelência do namoro cortesão.
Como poesia palaciana, a partir do século XIV foram estabelecidas inúmeras regras para a elaboração dos poemas, das quais as mais importantes para nós são as que se referem à primeira estrofe – o hokku –, pois elas continuam vigendo no que hoje conhecemos como haikai. O hokku deveria basicamente: ser uma estrofe longa, composta de dezessete sílabas; conter sempre uma referência à estação do ano e ao lugar onde se realizou a sessão; e ser sintaticamente completo, independente da estrofe seguinte. As outras estrofes, é claro, também conhecem diretrizes rígidas, como: aparecimento da lua em determinada estrofe, à primavera não se consagram menos de três estrofes consecutivas, certas palavras não se deveriam repetir a não ser após determinado intervalo, etc.
À medida que se esterilizava como mera atividade cortesã, o renga clássico começou a ser substituído nos meios externos à corte por um tipo de poema coletivo que, embora utilizando a mesma forma, elimina a maior parte das regras complicadas, admite o uso de palavras de origem chinesa, e se compraz no trocadilho, no dito espirituoso, no humor. Esse gênero, denominado haikai-renga (versos ligados “cômicos”, divertidos, informais) ganharia popularidade principalmente entre a ascendente classe dos comerciantes, mas seria também praticado entre soldados, monges e, até, entre nobres, em momentos em que a etiqueta da corte não imperasse.
Daí surgiu o haikai, difundindo-se pelos principais centros urbanos do país, em breve ganhando mestres e desenvolvendo tendências divergentes, que seriam mais tarde aglutinadas em “escolas” ou “maneiras”.

terça-feira, 12 de maio de 2009

De volta...

Olá a todos, e perdão pela demora. Acho que já está na hora de voltar.
Eu estive muito atarefado recentemente (quem me acompanha no twitter sabe que, além de trabalhos, tenho acompanhado o Grêmio e jogado Chrono Trigger, o que consome tempo...)
Eu havia prometido à Adri um update até, no máximo, ontem. Evidentemente, as coisas não sairam como planejado. Pelo menos deu tempo de o pessoal ver o meu design novo e comentar. hehehe
Bom, eu sempre tenho planos de dar grandes e demorados discursos acerca de tradução ou de outro tópico, a cultura japonesa (para quem não sabe, sou um estudante de Tradução- ênfase em Português-Japonês! Fez sentido agora, né?).
Estou preparando um pequeno post sobre haikais, aliás (inspirado no site http://www.flor-de-gelo.blogspot.com/, da minha amiga e companheira blogeira, Gerusa Leal!).
Contudo, neste momento, eu decidi fazer apenas um comentário sobre algo que, já faz algum tempo, vem me incomodando. Por que, em traduções, as pessoas dizem que o tradutor não pode interpretar errado o original? Afinal, interpretar já implica uma leitura própria, única, que tem a ver com a pessoa que está lendo/vendo/ouvindo. Não é assim que fazem nas músicas? A nona sinfonia, interpretada pela orquestra sinfônica de Porto Alegre, por exemplo (perdoem-me, músicos...). A interpretação já implica outra leitura, como algo parecido, porém diferente. Uma releitura, por assim dizer, do que foi feito.
Pois, na tradução, se dá o mesmo. É uma leitura que o tradutor faz da obra original. Por que, então, desse “auê” todo para cima do tradutor?
Bom, podemos já começar desmentindo o meu exemplo sobre música. Por mais que você possa ouvir uma música antiga interpretada por um artista novo, você ainda tem acesso à música antiga. No caso da tradução, o público em geral só tem acesso à obra traduzida, à nova interpretação. Mas eu cheguei também a conclusões próprias. Uma delas vem da própria educação que nós recebemos no colégio.
Lá, aprendemos o modo “certo” de interpretar Machado de Assis, José de Alencar, Guimarães Rosa, etc. Aprendemos que a obra se interpreta assim, e ponto final. Portanto, se só há uma interpretação, só deve haver, também, uma tradução. Só há um jeito de se interpretar, todo o resto não passa de um desvio.
Porém, o que devemos lembrar é o seguinte: o texto original é hermético, fechado, difícil e inacessível para os leitores daqui. É trabalho do tradutor, por outro lado, torná-lo aberto, fácil e acessível. O dever dele é, justamente, mudar o texto original para que seja bem compreendido em sua língua. Se ele não mudar o texto, ele continuará hermético, difícil etc. Além do que, em 100% dos casos, uma tradução ruim é melhor do que não haver tradução.
Pensem nisso...

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Pequena Mudança

Faz algum tempo que eu tinha vontade de mudar o design do blog, e devido a sucessivas intimações e pressões de pessoas próximas a mim (Siane, estou olhando pra você!), resolvi que era hora de fazer algo a respeito.
Ainda não sei se é esse o modelo, acho que ainda vou trabalhar com as cores, mas acho que o design ficou melhor, mesmo. Algo mais limpo, menos sombrio, mais claro e alegre (e o que é a vida sem uma pitada de cor, não é verdade?).
Espero que aproveitem o feirado.
Ah, antes que eu esqueça, criei uma conta no twitter. Eu estou logado como ma_almeida.
Quem quiser me encontrar, é só procurar (e me ensinar a usar esse troço. hehehe)
Bom feriadão a todos.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Faerie (parte 1 de 2)

Esse conto eu comecei a escrever faz muito tempo (pela metade do ano passado). Curiosamente, o que eu queria fazer não era um conto, era uma tradução. Nas minhas leituras pela internet me deparei uma música que gostei bastante (uma balada) que era bem curtinha, e fiquei com vontade de traduzí-la para o português. Só que eu acho traduzir esse tipo de coisa muito difícil, ainda mais sem contexto. Daí eu escrevi um conto, do qual essa balada faz parte, para contextualizar e facilitar o trabalho.
No fim das contas, tenho a parte em prosa já terminada, mas a tradução ainda está meio pendenga. Contudo, como achei que era hora de dar um jeito daquilo, resolvi postar aqui por dois motivos: 1) achei a prosa divertida, e já tinha vontade de mostrar pra alguém; 2) se eu não me forçar, não termino nunca de traduzir a balada.
Eis, então, o que se passa. Não se preocupem, esse conto é bem menor que o último (são só 2 partes).
Eis:

Faerie

Na corte do rei Oberon, muitas baladas são tocadas. E ele, um senhor justo e terrível, pune os trovadores que não o aprazem com a morte. Infelizmente, até hoje não houve canção que agradasse aos seus ouvidos, e ele requer menestréis semanalmente.
As mortes são fartas e previsíveis, e as paredes de seu palácio são decoradas com as cabeças dos músicos fracassados de seu reino.
Sua esposa, a senhora Titânia, é linda e cruel. Ela é a responsável pelas apresentações semanais. Sua parte favorita é a decapitação. Felizmente, seu senso estético lhe permite dispor as cabeças de forma limpa e agradável. Ela faz questão que apenas os jovens e belos sejam chamados para tocar para o seu senhor. E que, de preferência, não entendam muito de música.
Semana passada, ela descabeçou uma pobre ninfa, que não sabia cantar nem dançar, e que, para salvar a própria vida, tentou agradar lorde Oberon usando sua língua para outras coisas que não envolvessem música. Lady Titânia ficou tão enfurecida pela audácia da ninfa (e pelo fato de seu marido ter aprovado seus dotes), que ordenou que ela agradasse da mesma forma todos os servos do palácio e que, depois, ajudasse a esquentar a água do banho de seu soberano mergulhando sua língua nas brasas reais. Não satisfeita, a senhora de Faerie determinou que seus olhos fossem arrancados e usados como carvão antes de ordenar sua execução. Sua cabeça é a única que não foi posta na parede para ser usada como decoração. Ao invés disso, ela é guardada como exemplo àqueles que tiverem idéias similares.
Exatamente por isso, está faltando uma cabeça na parede, e a senhora Titânia exigiu que houvesse, essa semana excepcionalmente, a apresentação de dois menestréis. E enviou os seus arautos para que encontrassem trovadores de talento inversamente proporcional a sua beleza. E que fossem bonitos. Muito bonitos.
Então, seus hobgoblins saíram por toda Faerie em busca de alguém para convocar em nome do rei Oberon e sua corte. E passaram por elfos, trolls, pixies, dixies, selpies, kelpies, sprites, brownies, boggarts, kobolds, gnomos, ninfas, anões, e outros tantos habitantes do reino das fadas, mas nenhum deles fazia jus ao que a rainha queria. Ou não eram belos o bastante, ou tocavam bem demais.
E quase ao fim da semana (que, para sua sorte, tem dez dias em Faerie), viram vagando pelos Ermos dois jovens humanos, um menino e uma menina, que buscavam frutas encantadas para levar para casa.
Poucas maçãs são tão vermelhas, morangos são tão doces, e pêssegos são tão suculentos quanto aqueles permeados pela influência mágica da corte de Oberon e Titânia. Mais do que elas, apenas as frutas criadas no coração de Faerie, no jardim real, servidas pessoalmente aos lordes do reino. Muitas são as histórias de mortais que adentraram os domínios ancestrais das fadas buscando o sabor sobrenatural de suas amoras. Poucas são as que narram do seu retorno.
Impressionados com a beleza daqueles dois jovens – que eram os primeiros humanos em séculos a colocar os pés naquela terra –, os servos de Titânia trataram logo de elaborar um plano para levá-los a sua rainha sem despertar suspeitas entre os homens. Procuraram rapidamente duas árvores de Ipê e serraram seus troncos. Então, começou o seu ritual.
Juntos, os hobgoblins glamourizaram os troncos serrados, vendo-os crescer lentamente. Primeiro, nasceram as pernas: formaram-se os joelhos, cresceram os pés e os dedos, um a um. Depois, brotaram os braços: ombros, cotovelos, mãos e dedos. A cabeça foi a última, e quando estava completamente formada, abriram-se os olhos. Ao seu redor, os hobgoblins apontavam os jovens que os Ipês deveriam substituir.
Os dois troncos, então, com suas mãos, agarraram o próprio corpo e abriram-no como a uma casca. Tal qual borboletas que abandonam o casulo, saíram as crianças de dentro dos troncos: seus cachos dourados, pele branca e sensível, os seios ainda pequenos e a genitália loura. Estavam prontos para assumir o seu papel, e os hobgoblins providenciaram os últimos arranjos. Glamourizaram algumas frutas e jogaram-nas para os jovens que, ingenuamente, comeram-nas. O encantamento conjurado atiçou-lhes o sono, e caíram desacordados, derrubando sua cesta de frutas. E, finalmente, para os Ipês, agora transformados, eles conjuraram roupas como as dos dois humanos, para que tomassem seu lugar na Terra sem levantar suspeitas.
Os Ipês pegaram a cesta do chão para levá-la consigo enquanto os hobgoblins enfeitiçavam as duas crianças para que não pudessem mais retornar ao seu lar. Faeria seria sua nova casa, mas não por muito tempo. Teriam a duração exata de uma balada.