quarta-feira, 20 de maio de 2009

De haikais

Como eu havia dito anteriormente, estava preparando um post sobre haikais. A ideia é fazer do blog algo mais do que um simples mural de histórias. Essa - e a discussão constante acerca do fazer tradutório - é uma das tentativas nessa direção.
Sei que o texto está longo e um tanto pesado, mas condensei como pude um tema dessa grandeza e magnitude.
Aproveitem a leitura!

Haikai
A poesia tradicional japonesa pode ser metricamente reduzida a seqüências de cinco e de sete sílabas, e mesmo a prosa cadenciada das narrativas poéticas mantém, como base rítmica, a alternância desses metros fundamentais.
Na poesia das antologias imperiais dos séculos X e XII, há fundamentalmente duas espécies de poemas: os naga-uta ou chôka (poemas longos), que alternam os versos de cinco e sete sílabas sem limite fixo, terminando por um dístico 7-7; e os tanka (poemas curtos), compostos no seguinte esquema: 5-7-5-7-7. A divisão que se tornou clássica (no que concerne o tanka), temos um terceto de versos imparissilábicos e um dístico parissilábico: 5-7-5/7-7. Essa observação é importante porque essa primeira estrofe é que vai, mais tarde, constituir o que usualmente designamos por haikai.
No exemplo a seguir pode-se observar a tal segmentação:

Minha velha aldeia
Sob as folhas vermelhas caídas
Aos poucos vai desaparecendo:
Nas samambaias do beiral
Como sopra o vento do outono!

Minamoto no Toshiyori (1055-1129)

No tanka, é raro que a relação entre as estrofes apresente um claro nexo lógico, sendo preferido o uso de justaposição direta de imagens (de alguma forma complementar) ou um breve comentário ou exemplificação do clima geral estabelecido na estrofe de cima. Dado que os poemas eram desenvolvidos quase que exclusivamente no ambiente da corte, esse esquema tópico/comentário permitiu e mesmo incentivou que duas pessoas desenvolvessem o tanka: uma encarregada pelo terceto 5-7-5; e outra pelo dístico 7-7.
A composição dialogada de um mesmo tanka, por sua vez, acentuou a independência das duas secções do texto, e os mestres do novo gênero – chamado renga (canto interligado) – enfatizarão que a beleza desse tipo de poesia reside principalmente no encadeamento das partes e na relação que pode ser estabelecida por elas.
A composição de tanka por pessoas diferentes tornou-se, na Era Kamakura (1186-1339), uma das principais atividades de salão da aristocracia medieval japonesa e o veículo por excelência do namoro cortesão.
Como poesia palaciana, a partir do século XIV foram estabelecidas inúmeras regras para a elaboração dos poemas, das quais as mais importantes para nós são as que se referem à primeira estrofe – o hokku –, pois elas continuam vigendo no que hoje conhecemos como haikai. O hokku deveria basicamente: ser uma estrofe longa, composta de dezessete sílabas; conter sempre uma referência à estação do ano e ao lugar onde se realizou a sessão; e ser sintaticamente completo, independente da estrofe seguinte. As outras estrofes, é claro, também conhecem diretrizes rígidas, como: aparecimento da lua em determinada estrofe, à primavera não se consagram menos de três estrofes consecutivas, certas palavras não se deveriam repetir a não ser após determinado intervalo, etc.
À medida que se esterilizava como mera atividade cortesã, o renga clássico começou a ser substituído nos meios externos à corte por um tipo de poema coletivo que, embora utilizando a mesma forma, elimina a maior parte das regras complicadas, admite o uso de palavras de origem chinesa, e se compraz no trocadilho, no dito espirituoso, no humor. Esse gênero, denominado haikai-renga (versos ligados “cômicos”, divertidos, informais) ganharia popularidade principalmente entre a ascendente classe dos comerciantes, mas seria também praticado entre soldados, monges e, até, entre nobres, em momentos em que a etiqueta da corte não imperasse.
Daí surgiu o haikai, difundindo-se pelos principais centros urbanos do país, em breve ganhando mestres e desenvolvendo tendências divergentes, que seriam mais tarde aglutinadas em “escolas” ou “maneiras”.

4 comentários:

Marina disse...

Gostei da "aula". Interessante; gosto muito dos contos também, mas é legal dar uma quebrada na sequência de textos. Acho que dá um ar de novidade, de inesperado; fora que diz algo sobre a pessoa que está escrevendo.

Não é à toa que você é um dos meus favoritos, Marcelo. =P

Siane disse...

Heheh.. a teoria sobre haikai difere muito dos próprios (falo do comprimento. Mais uma das minhas piadas ótimas, mas que necessitam explicação ¬¬).
Bom, não sou muito dessas coisas, mas gostei do que li. Interessante isso de ter lua e primavera em todos os hokku??? :S

Thiago B. disse...

Haikai é a arte da concisão poética-dizer o máximo possível com o mínimo de elementos-,creio eu.

O post terá continuação?

(Fale um pouco de alguns dos poetas e algumas de suas obras,se sim;ex: Bashô)

Ps:Você faz haikais?

Diane disse...

que porcaria meu isso não é haicai porque tem mais de 17 silabas burrrroooooooooo