quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Luz de velas

Hoje é meu aniversário, mas quem ganha o presente são vocês! Pois é, hoje, dia 09/12, estou fazendo 23 aninhos! Velhice tá chegando. Chega pra todo mundo, aliás. Não me recordo se já postei esse texto antes, mas como hoje é dia de festa e de soprar velinhas, lembrei do título desse texto.
Queria também aproveitar para agradecer aos que passaram por aqui me desejar um ganbarê na prova de japonês e aos que me ligaram ou vieram falar comigo também. A vocês, domo arigatô gozaimasu ('muito obrigado'). Foi uma semana cansativa, final de semestre ainda com prova e últimos trabalhos para entregar, o que quer dizer que não tive o tempo que gostaria para ver e comentar no blog dos outros (ou até para ler os livros que quero e os filmes que tenho vontade, mas essa é outra história). Sumimasen (isso aí é 'me desculpe').
Então, sem mais delongas:

Luz de velas

Ela subia as escadas para a torre apressadamente. Dos seus passos, ecoava o som da urgência. Em seus olhos, jazia o peso de uma vida guiada por escolhas tortas. Escolhas tristes. Em seu peito, ela carregava o peso de decisões tomadas por outros. Nenhuma acertada.
Agora, só lhe restava rezar. E acreditar.
O homem que ela amava havia partido numa jornada em alto-mar, e como manda a tradição, toda noite ela acendia uma vela à varanda, esperando que ele se guiasse pela luz incerta e retornasse ao lar.
E hoje, depois de tantas horas na madrugada, quando não se sabe mais ao certo quando termina a noite e quando começa o dia – nesse intervalo em que o momento é tudo o que existe e não há nada além dele – ela o ouviu. No alto da torre, trancada a sete chaves, o som do caminhar errante daqueles que preferem o mar à terra, a liberdade providencial dos oceanos à prisão reconfortante do solo.
Tomando a chave por entre seus seios, ela abriu a porta da torre. Lá, próximo da janela, a água encharcava o chão, como se alguém tivesse acabado de entrar.
Ela investigou a pequena sala vagarosamente, mas não encontrou o seu homem. Parecia ver alguém ao canto de seus olhos tristes, mas quando se voltava em sua direção, fugia-lhe a imagem – um vulto a escapar-lhe à vista.
Foi então que ouviu, como se num sussurro, a voz que há tanto esperava; vinha ela carregada no suave embalo do vento, na brisa leve que lhe soprava delicadamente sua mensagem inaudível.
A jovem aproximou-se da janela para escutá-la melhor, e foi aí que viu. A noite esvaía-se em raios de sol, e a única prova de sua existência resumia-se a uma estrela solitária, que resistia bravamente à violência do dia.
O astro solitário mais parecia uma vela, lançando sua luz incerta para guiá-la de volta ao lar. Diante de seus olhos, ela tinha uma estrela-guia, e de seus ouvidos, a voz cada vez mais abafada de seu amado a chamá-la.
Vendo o reflexo da vela ao mar, muitos metros abaixo, ela enfim compreendeu. E tomou sua decisão; a primeira em tanto, tanto tempo. Desfazendo-se da tristeza que trajava, revelou enfim a beleza de um sorriso decidido sobre um rosto apaixonado.
Jogou-se contra o reflexo da estrela no mar para unir-se ao seu amor no céu.

5 comentários:

Thiago César disse...

primeiramente, meus parabens!
nao sei pq, mas pensei q vc fosse mais velho q eu... hehe!
tb tenho 23, mas fiz em novembro.

quanto ao conto, esse final me fez lembrar outro conto de nao sei kem, q eu ouvi faz eh tempo narrado no extinto programa (acredito) da tv cultura: contos da meia-noite.

no final desse conto, uma jovem tb se jogava pra morte e "voava até o céu".

muito bom!

Paulo Henrique Passos disse...

Parabéns!
A primeira e última decisão, mas feliz, sãbia, acho, pois vi que ela sofria.

Abraço.

CA Ribeiro Neto disse...

Parabéns! Desculpe-me, mas eu também achava-o mais velho... enfim, estou também no grupo seleto dos que têm 23 anos. E próximo ano é que eu quero ver...

Quanto ao texto, parece ironia do destino, você me indicar uma revisão textual - coisa que sempre faço, porém, a dessa semana foi mesmo descuidada - pois seu texto também merece uma... enfim, coisas que passam de vez em quando!

Quanto ao texto em si, achei que faltou um borogodó, mas não está ruim, pois quando o texto é bem escrito, sempre é bom de ler; senão, o que seria dos parnasianos? hehehehe

Abraço

Gi disse...

esse texto me lembrou o poema "Ismália" de Alphonsus Guimaraens... um dos meus preferidos..

Hermes disse...

Me lembra Ismália também! E muito. O texto ficou bem escrito, no todo,e a temática é interessante. E parabéns, pelo seu aniversário feliz, ehhee, e não tá velho não.