sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O universo e a estupidez

O que venho falar aqui, dessa vez, é um episódio verídico que me aconteceu no final de semana passado, durante o feriado. Acho que esse é um tema novo no meu blog. Por incrível que pareça, acho que nunca falei de mim para além de questões superficiais, como objeto de estudo, objetivos, cursos, etc. Mas passemos ao caso. Antes contudo, é necessária uma pequena explicação. Eu tenho um amigo que é cego. O nome dele não importa, o que importa é que ele tem um doença degenerativa da retina, que atingiu um estágio atual que o deixou com menos de 10% da visão; estima-se que ele tenha algo em torno de 5% da visão, mas abaixo dos 10% fica muito difícil de precisar. Fato é que ele não tem a visão fóvica (vulga central), apenas a visão periférica. Somos amigos há algo em torno de 15 ou 16 anos, mas ele não tem como me reconhecer na rua a menos que eu chame a atenção dele, por exemplo. Vocês devem imaginar a dificuldade que é para atravessar ruas, pegar ônibus, etc. Naturalmente, ele usa óculos escuros e bengala. Ah, claro. Apesar da cultura geral ser de que só é cego quem não enxerga nada, existem vários níveis de cegueira. Ele sofre de baixa visão, que é um tipo de cegueira, por exemplo. Bom, adiante:
Fomos a uma festa, eu e ele. Apesar de sua condião poder indicar uma pessoa passiva, aflita e indefesa, ele é perfeitamente capaz de se virar, já me levou para um monte de festas, tem trabalho, estuda como todo mundo; enfim, exceto por sua visão, vive normalmente. Portanto, fomos à festa. Lá, como ele gosta de dançar, ele tirou várias gurias para dançarem com ele. Como ele tem noiva e é um sujeito sério, ele dança porque gosta, não porque tenha segundas intenções. Ele só pede a minha ajuda para dizer quem é guria ao redor.
Bom, algumas pessoas viram e devem ter ficado desconfiadas. Afinal, um cego dançando? Como pode isso? E tal ficou que começaram a passar a mão na frente do rosto dele para ver se ele enxergava. Eu comentei isso com ele, mas ele disse que não se importava, que não dava bola. Ele é um cara tranquilo. Outro dia, quando comentei da preferência dele em filas, em assentos de ônibus, etc: ele só me responde: "é, mas isso me custou os olhos da cara". Tranquilo e bem humorado. Até eu faço piada com ele. E além disso ele é judeu. Faço piada com isso também :P
Bom, elas passaram a mão na frente do rosto dele (sem tocá-lo, logicamente) e achei que fosse parar por aí. Contudo, no momento seguinte, uma das gurias tirou o óculos dele e começou a usar. Eu, bom amigo que sou, pedi educadamente para que ela devolvesse os óculos: "Ele é cego, sua ignorante!". A moça me olhou surpresa, meio aflita, e a amiga dela também. Me perguntaram se era sério, e eu disse que sim. Devolveram os óculos prontamente e começaram a pedir desculpas. Eu confesso que fiquei incomodado com elas e não queria muito papo, mas ele não pareceu se importar muito. Queriam que nos juntássemos a elas e nos deram uma cerveja. Eu, como disse, não estava com vontade de ficar, mas ele achou que seria até uma boa oportunidade de falar sobre o problema dele e esclarecer alguns preconceitos. Aceitei. Mas que podia eu fazer, largar ele ali? Ficamos mais um pouco.
Depois, ele começou a explicar tudo o que eu disse no topo: que ele sofria de baixa visão, tem menos de 5%, só tem a visão periférica, etc. Então, uma das gurias ficou braba com ele por ele não ser cego "de verdade". Que ele era um fingido porque ele enxergava, que ele (e eu, por acompanhá-lo) deveria sentir vergonha de fazer isso, e daí pra baixo. Ele, coerente e um tanto acostumado a discriminação, só disse: "vai estudar". E ela começou a espalhar que ele não era cego. Felizmente ainda tinha gente ali de bom senso que resolveu ignorá-la, gente que veio nos dar apoio ou pedir desculpas por ela. Mas também teve gente que nos mandou embora. Agora que nada mais nos prendia ali (muito antes pelo contrário), saímos. Um tanto escandlizados pelo evento, mas já presenciei outros assim. Certa vez, quando atravessava a rua com ele, na faixa de segurança, teve arro que começou a buzinar (para um cego!), abriu a janela e mandou o cego sair da rua, já que ele não conseguia atravessar.
É por essas e outras que sabemos que Einstein tinha razão quando disse: "Apenas duas coisas são infinitas, o universo a estupidez humana, e eu não tenho certeza quanto ao primeiro".

11 comentários:

Thiago César disse...

vixe, fikei impressionado!
realmente nao achava q episodios assim aconteciam na vida real...
preconceito sei q tem muito, mas estupidez, ainda nao sabia q era desse jeito nos dias de hj...

adri disse...

Bah Marcelo, que absuuurdo isso! Realmente é de ficar chocado como coisas assim, pessoas assim, podem acontecer..... Absurdo mesmo. Vi ele esses dias indo pra faced de manhã cedo, e fiquei olhando ele e admirando como ele é super alto astral, animado, trabalhador, etc, apesar do problema dele.

Bem, espero que nos vejamos mais seguido no vale, neh?? O problema é que andamos os dois super ocupados.... Mas nos falamos. Nem que seja com hora marcada e um café =)

bjs

CA Ribeiro Neto disse...

Cara, já era de se esperar ele, como membro da minoria, sofrer algum tipo de preconceito. Mas, sem querer defender a mocinha, pois o que ela fez foi errado mesmo, também considero que ela fez isso naquele momento, porque estava alterada pelo alcool. Acho que se ela estivesse sóbria, entenderia que 5% eh muito pouco.

Enfim, o bom eh que todos os cegos, surdos ou mudos que eu conheci, eram todos muito simpáticos! E seu amigo, como vc disse, não é diferente!

Vermeliasu disse...

Que foda... Por isso que meu programa favorito é ir num bar simples que não seja um 'point' e ficar na mesa com meus amigos ou ir na casa de algum deles. Daí não tenho que aturar essas criaturas que a gente encontra por aí.. Eu também já tive minha cota de imbecis... XD
Espero que ele não tenha ficado mal depois disso.

Respondendo: Eu não queria largar o japones mas foi impossível com a quantidade de coisas que tive pra fazer nas últimas semanas.. pede desculpas pra sensei por mim? Por simplesmente pararde ir assim de repente. Uma sexta eu passo lá no final da aula pra me explicar pra ela e falar com vocês XD
SP tava otimo, minha cidade favorita XD

Thiago César disse...

talvez isso ajude a entender meu ultimo poema...

http://www.youtube.com/watch?v=8wwulYlpKLY&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=_mQHr8bAojU&feature=related

A moça da flor disse...

Bom... o que posso perceber diante da maioria das coisas que leio no seu blog e que já lhe falei inclusive. É que tens uma narrativa muito boa! Dá gosto e vontade de ler o que vc escreve. Essa crônica não foi diferente! ^^
É... o preconceito é mais recorrente do que o que a gente pensa. Desse tipo mais gritante pode ser um pouco mais raro de se ver, porque hoje em dia todo mundo é "politicamente correto", mas sempre deixa escapar um comportamento que denuncia seu real sentimento. Isso reflete a pura e idiota ignorância.
Enfim...
Só uma coisinha...Acho que teria sido mais sábio de sua parte deixar que seu amigo resolvesse sozinho. afinal, creio que ele tinha autonomia suficiente pra isso. :p

Sobre a poesia...
"arriado" é algo como derrubado. Na poesia o que quis dizer é que o amor nos deixa numa situação de vulnerabilidade. Que até aqueles que se dizem inabaláveis, que não se apegam a ninguém, que não ficaram apaixonados por ninguém, quando o amor se abate sobre eles eles são obrigados a se curvar a eles.
Foi inteligível?

Abraço ^^
Ah sim em breve vou comentar nos outros posts...
desculpe a negligência. Comentarei mais assiduamente --'

A moça da flor disse...

perdoe o comentário quilométrico
;P

Um poeta cronista cantador de contos disse...

Depois de um certo tempo, passei a não duvidar de nada.

Se alguém me conta que viu uma vaca voando, quem sou eu para duvidar?

Acho tremendamente absurdo alguém chegar a esse ponto de preconceito, mas quem sou pra duvidar da infinidade da estupidez humana?


Em algum ponto, todos somos preconceituosos, mas deveríamos ter certos limites...


E diga pro seu amigo que ele tem um fã! E que se ele quiser curtir Fortaleza, ele já tem onde ficar!

Aquele abraço!

Hermes disse...

Essa garota parecia meio alterada mesmo, mas acho que o alcool nao pode justificar a estupidez, que não fosse ficar tão alterada...Compartilho com a sua irritação, e o nosso colega Einsten realmente estava certo. Acho que o mais foda ainda foi o cara buzinando para ele sair da rua...é dose.

E foi mal pela ausencia aqui!

Gi disse...

Essa garota parecia meio alterada mesmo, mas acho que o alcool nao pode justificar a estupidez, que não fosse ficar tão alterada...

concordo!!

todo nós sabemos de casos de preconceitos, mas quando isso acontece nesta itensidade e perto da gente, pensamos "não acredito"...

Gerusa Leal disse...

Sempre que passo muito tempo sem visitar seu blog sou eu quem perco. Acabo de ler mais uma crônica de qualidade, e expondo uma questão muito pouco abordada, a dos deficientes sensoriais. Os fatos que você coloca, só evidenciam como é difícil para a maioria parar de olhar apenas para o próprio umbigo, tentar se colocar no lugar do outro, principalmente quando o outro não tem exatamente os mesmos recursos físicos. Interessante que um totalmente cego, um totalmente surdo, já conseguem um certo respeito, mesmo que misturado a uma compaixão condescendente. Mas as deficiências sensoriais existem em diversos graus, e quem não as tem sente uma dificuldade enorme em compreender as limitações implicadas. Acho que sua crônica tem o condão de alertar as pessoas para a existência de quadros assim. Me resta te agradecer pois me senti incluída, já que sou surda de um ouvido e o outro não percebe adequadamente alguns timbres, algumas frequências, algumas alturas. Resultado: como não sou totalmente surda, é muito frequente, principalmente para quem ainda não está acostumado a conviver comigo, não acreditar, se impacientar, me tratar como, se de alguma forma, eu tivesse culpa de não escutar como todo mundo, ou achar que me aproveito da situação, já que minha audição é, sensorialmente mesmo, seletiva. Como escuta umas coisas e outras não? Como escuta umas pessoas e outras não? Por aí, vê?
Parabéns e continue nos brindando com textos tão bem escritos e com temas tão relevantes.
Abraço