quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Os kanas!

Como vocês devem bem lembrar, semana passada comecei a falar sobre a escrita japonesa e me comprometi a continuar a explicação nesta semana. Pois bem, como sei que nem todos podem ver os ideogramas no seu computador (por algum motivo, não vem instalado em todos os computadores; alguns necessitam instalar ou procurar plug-ins na internet), resolvi mudar um pouco o estilo visual deste post, utilizando fotos para as explicações. Ao final do post, escrevo o nome e o site do programa que uso para escrever em japonês para quem quiser. Vai que dá curiosidade...
Antes de mais nada, não pretendo fazer uma recapitulação do que foi dito. Se for necessário, ela será feita no corpo do texto com o intuito de esclarecer pontualmente aquilo que foi escrito. Quem quiser explicações mais detalhadas pode encontrá-las no meu outro post, na wikipedia, ou me perguntando mesmo, que respondo sem problemas, ok?
Agora, prosseguindo:

Apesar de ser um sistema muito didático e, de certa forma, até mesmo esclarecer do ponto de vista da cultura e do pensamento oriental, muitas vezes a escrita em kanji não é muito (para não dizer que não é nada) prática. Já ouvi como explicação o fato de que, sendo o japonês uma lingua silábica, há muitas palavras iguais e/ou repetidas (como hana, que pode significar tanto flor quanto nariz, shiritsu, que pode ser tanto público quanto privado - pretendo escrever mais sobre este exemplo mais adiante - etc). No caso, apesar da confusão previsível e da real habilidade que os kanjis têm de desambiguizar tais dúvidas, acho o argumento um tanto frágil; pelo simples fato de que ninguém fala em kanji. E se eles não precisam de ideogramas para esclarecer a própria fala (cheia dessas semelhanças e de palavras repetidas), então duvido que seja este o real motivo.
De qualquer modo, independentemente da razão pela qual são usados (seja por tradição, preguiça de mudar, cabeça-dura, valorização dos costumes, etc), eles são empregados e devemos conviver com sua existência. Contudo, como faz alguém que não sabe ler o kanji? Como pode ele olhar e "decorar" o significado? Isso sem falar que nem toda a lingua japonesa é expressa em kanjis. Como fazem, então?
Pois bem, é aí que entram os kana. Os kana são divididos em dois grandes grupos: hiragana e katakana, e é por eles que qualquer estudante de japonês começa. No caso, são duas formas fonéticas e silábicas de escrita, muito semelhantes ao alfabeto ocidental. Só que, ao invés de 27 letras e alguns acentos, são 46 letras mais algumas combinações.
Abaixo segue uma tabela com os 46 hiraganas básicos com a pronúncia em escrita romana (chamda roma-ji, em japonês - ji de escrita, e roma de Roma; a Escrita de Roma, portanto):



E, agora, a tabela com os katakanas básicos:



Como eu disse, esses são os básicos, ainda tem as combinações e as sonorizações (o ta vira da, o sa vira za, o shi vira ji, o ka vira ga, e o ha vira ba ou pa), mas já é um bom começo. Aí vocês podem perguntar: pra que isso? Pra que tanta escrita? E, realmente, o hiragana já estaria e bom tamanho, mas eles são japoneses, são 150 milhões de pessoas se apertando num arquipelagozinho do tamanho do Rio Grande do Sul, que vive a base de peixe e arroz; dá um desconto!
Agora, explicando direitinho: como foi dito anteriormente, os kanjis foram trazidos diretamente da China por volta do Século V para que os japoneses também pudessem se expressar, escrever e ler. Contudo, como é previsível, para se ter domínio dessa escrita, era necessário saber também chinês, algo que a maioria da população não tinha possibilidade (nem necessidade, diga-se de passagem) de aprender. Como fazer, então, para adaptar essa escrita à língua japonesa? No caso, após muito tempo, foram sendo criados esses dois sistemas de escrita, os hiragana e os katakana. Tanto o hiragana e o katakana foram desenvolvidos a partir dos kanjis como formas simplificadas de escrevê-los. No caso, como a forma cursiva da escrita era mais corrente entre as mulheres, o hiragana ganhou muita popularidade entre elas, ao passo que o katakana, por ser uma forma mais retilínea, foi favorecida entre os homens (basta olhar os dois quadros acima para ver a diferença na "suavidade" e "cursividade" das duas escritas). Tanto que as primeiras obras escritas por mulheres (como o Genji Monogatari - literalmente, História de Genji; também conhecido por muitos como o primeiro romance escrito da história da humanidade, o que ainda é motivo de debate, contudo, envolvendo autores gregos e latinos... mas deixemos essa discussão para os professores de literatura) eram escritas (quase) totalmente em hiragana.
Hoje, contudo, o debate cessou, e cada escrita tem limites de uso mais ou menos bem definidos. Explicando: os kanjis são para escrever a maioria das palavras, já que têm o "conceito" embutido; os hiraganas são para escrever partículas, conectores, preposições, terminações verbais ou de adjetivos; e os katakans são usados para escrever interjeições, estrangeirismos ou para destacar algum termo (como o nosso itálico).
Mas chega de diletantismo. Passemos a um exemplo mais prático.
Para ilustrar o exemplo dos três "alfabetos" de uma vez, nada melhor do que algumas frases simples:
1. Meu nome é Marcelo.
2. Vou ao Japão de Avião.
3. Hoje está quente.
4. Hoje foi quente.
(as últimas duas frases são para ilustrar o uso do hiragana nos adjetivos e a forma aglutinante da lingua japonesa; ao contrário da portuguesa, que vai "distribuindo" características ao longo da frase, a japonesa deixa tudo aglutinar no final, nos verbos e nos adjetivos). Vamos aos exemplos:



Vocês verão que o que está em azul são kanjis, e o que está em preto é ou hiragana ou katakana. No caso, na primeira frase, temos o primeiro kanji (watashi) que quer dizer eu. Entre este e o próximo kanji, há uma letra em hiragana. Para quem olhar no quadro, verá que aquilo é um "no". Neste caso, é uma partícula que indica posse. "Watahi no", portanto, quer dizer "meu". Os próximos dois kanjis se lêem "namae". Parece com a palavra "nome", em português, e é isso mesmo. Pura coincidência. Após estes kanjis, temos mais uma letra em hiragana. Para quem viu os quadros, saberá que se pronuncia "ha" (como em carro). Contudo, por ser uma partícula (muito importante), se pronuncia wa. Ela serve para indicar o tópico de que se fala. O sujeito, se assim quiserem chamar. Depois vem as letras em katakana. É o meu nome! Sim, Marcelo, em japonês, se fala Marusero. Eles não se dão muito bem com encontros consonantais, e transformam tudo o que podem em vogais. Como eu disse, é uma lingua silábica. E por último, temos o "desu". Em geral, costumam explicar que o desu é um verbo, mas ele é bem mais do que isso. No japonês, é muito comum comerem final de frase, partículas, eliminarem-se conexões, etc, de forma que as frases, muitas vezes, parecem um amontoado de palavras desconexas. No caso do japonês, o desu é um "liga tudo". Se você não souber o que fazer, coloca um desu no final da frase que periga dar certo. Bendito "verbo"!

A segunda frase eu "escolhi" para mostrar, uma vez mais, a diversidade existente de pronúncia e uso de kanjis. A primeira palavra em kanji nós já vimos da outra vez: hikouki, que quer dizer avião. A letra em hiragana, ao lado, é a partícula "de", que indica a ferramenta com que se faz alguma coisa (no caso, usa-se o avião para viajar, por exemplo). Se eu vou escrever com o lápis (enpitsu), digo: "enpitsu de kakimasu", sendo "kakimasu" o verbo : escrever. Como vocês devem ter notado, em japonês o verbo vai lá no final. Se não me engano, alemão é assim também. Aí vem a palavra Nihon. Que significa Japão. O primeiro kanji vocês já conhecem: sol (embora essa seja ainda outra pronúncia do mesmo kanji). O segundo é hon, que pode ser livro ou origem. Daí vem que o Japão é a Terra do Sol Nascente. Está no nome deles. É a Origem do Sol! Legal, né? A partícula he (mais um hiragana) se pronuncia "e", e indica direção. É para lá que vamos, afinal. E o ikimasu é o verbo, que quer dizer ir (vocês notaram que o kanji desse verbo, que se lê i, é o mesmo que se lê kou em avião?).

E enfim, as últimas duas frases, que pretendo analisar conjuntamente:
Na frase 3, a primeira palavra, kiyou, quer dizer hoje (o primeiro kanji significa agora, e o segundo, dia; viram que legal? O dia de agora é hoje! - mas essa é ainda outra forma de se ler o kanji de sol - quantas leituras nós já vimos até agora? Querem contar?). Temos então a partícula wa e o kanji de quente, atsui. Notaram como a última "letra" da palavra atsui se escreve com hiragana? É porque isso vai mudar depois. E depois temos o bom e velho "desu".
Na frase 4, temos kiyou, hoje, e a partícula wa, e a palavra atsukatta. Por que é que mudou, de atsui para astukatta? Porque, aqui, é o adjetivo que muda, não necessariamente o verbo. Katta é um sufixo que indica passado (nós tiramos o último "i" da palavra atsui e trocamos por "katta"). A frase, que antes era "hoje está quente", virou "hoje foi quente", mudando apenas o adjetivo (notem que o desu, o verbo, não mudou nada). Se quiséssemos dizer: "hoje não está quente", tiraríamos o i final de atsui e colocaríamos "kunai"; no caso, seria "atsukunai". E se eu quisesse dizer que hoje não foi quente? Fácil: tiramos o i final de atsukunai e colocamos o katta: atsukunakatta.
Aglutinou tudo, né? Antes que vocês me perguntem: sim, os verbos se modificam sim, muito semelhante a como os adjetivos se modificam. Só achei que seria ais interessante falar dos adjetivos por ser uma coisa tão diferente do usual para nós.

Foi uma lição longa, e acho que por hoje chega. Já cobrimos um básico dos kanjis, um básico de gramática, e um básico de kana. O que mais falta? Algumas pequenas - e divertidas - curiosidades de ideogramas.
Próxima quinta? Quem sabe. Talvez, se já não enchi o saco do pessoal com esse texto enorme...

ps: só não postei ontem por motivos de saúde. Estava indisposto, sofrendo em casa, mas fui no médico e já iniciei tratamento. Quem me conhece sabe que minha saúde não é lá um brastemp...

8 comentários:

adri disse...

Neste momento me encontro com um pequeno nó em minha cabeça. Nossa, são TANTOS detalhes! Mas o texto ficou ótimo, interessante, divertido e leve, apesar do assunto hiper complexo. Adorei o: "são 150 milhões de pessoas se apertando num arquipelagozinho do tamanho do Rio Grande do Sul, que vive a base de peixe e arroz". huahuahuaa. Teu toque pessoal nos textos.

O que houve com a tua saúde? Nossa, "sofrendo em casa".... fiquei preocupada, mande notícias.

bjs!

CA Ribeiro Neto disse...

Marcelão, não li tudo ainda, mas é porque eu tinha que vir logo comentar esse trecho "shiritsu, que pode ser tanto público quanto privado"

Como assim????? Os opostos tem a mesma palavra???? Como seria a tradução de Parceria Público-Privada? hehehehe
Depois da piadinha besta, volto a ler e jaja comento de novo!

CA Ribeiro Neto disse...

Marcelo, todos esses textos só fazem eu apaixonar-me mais pela minha língua portuguesa! hehehehe

Mas é muito interessante conhecer um sistema bem diferente do nosso.

Rapaz, por mim, pode continuar a falar sobre isso.

desu.

Thiago César disse...

cara, eu consegui ler ateh o final, mas eh uma lingua muito complicada de se aprender, realmente... tem muitas sutilezas q sao essencias e talz...
quanto à minha poesia, agradeço muito o elogio, e kero dizer q eu tb nao entendo muito de poesia, eu soh escrevo por hobbie. entao sendo o seu comentario baseado em estudo ou simples gosto, eu valorizo de qualquer forma!
valew!

Marina disse...

Gente, que complexo! Se, um dia, eu for começar a aprender outra língua, acho que vou optar por italiano ou francês. =S Sim, ficou bem mais acessível desse jeito, com imagens. ;)

Quanto ao seu comentário, no meu último texto, fiz a modificação que você sugeriu. Obrigada!

Gi disse...

depois eu leio seu post e comento, mas..

que tradução que te doeu?

Gi disse...

ah! já sei... o pires!

hueheuheuheuehe

Hermes disse...

Cara, eu sempre tive certeza que nunca aprenderia isso aí, agora sei mais ainda heauheauheuaheua. È muito louco...Mas valeu o esforço, quem se interessa é um prato cheio!