quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Aviso aos navegantes (Mito da criação, final)

Enfim, chegamos ao derradeiro capítulo. Eu havia prometido essa parte para ontem, mais tardar hoje, e como sempre, tardei. Nada que seja surpresa, hehehe.
Bom, para esclarecer, essa parte ficou bem maior que as outras, escrevi ela na terça de madrugada (lembro de olhar para o relógio e ver que eram 3h30 e que eu ainda não tinha terminado), até pq tinha outros trabalhos que me ocupavam.
Com essa última parte, creio que encerro um ciclo no blog; acho que o site entrará em recesso talvez por umas duas semanas (ou mais), enquanto eu traduzo mais coisas (peguei um romance para fazer a tradução. Vamos ver como esse fica...), e preparo o próximo projeto. Já tenho uma boa ideia do que temos pela frente, então espero que possam me perdoar por deixar o site largado tanto tempo às traças. Contudo, creio que terei mais tempo para ler o blog dos outros e fazer comentários construtivos (coisa que, desde que me juntei à rede, tenho tentado fazer. Infelizmente, mts projetos acabam me cansando e fica difícil ler com a atenção desejada). Serei mais atencioso.
Bem, não vou me alongar mt, até pq o conto está grande.
Vejo vcs em breve, no site de vcs. hehehe
Um abraço a todos!

Mito da criação... 7 (final)

Durante os meses que se seguiram, Christian e Célia foram se conhecendo de tal forma e tão intimamente, que seu relacionamento evoluiu a uma paixão e, portanto, ganhou um entorno romântico, sujeito a uma série de convenções de gênero – mas nem por isso menos verdadeiro. Quantas vezes Christian não teve de atravessar oceanos, montanhas e céus, todos feitos com papel da mais alta qualidade, munido que estava apenas de sua bravura e da cumplicidade de seu autor? Sempre em busca de sua amada, que havia se perdido, ou sido sequestrada; ou então à procura de um antídoto ou item que pudesse salvá-la. Eis a tarefa de um herói romântico, é claro.
Contudo, naqueles momentos de solidão em que se encontrava longe dela, é que se lhe revelava a raiva que Célia tão habilmente controlava, pulsando agora forte em seu peito, abastecendo seu corpo de uma energia nova e potente. Por motivos nobres, belos e puros, páginas e páginas eram escritas narrando as incríveis jornadas de Christian, todas descrevendo atos de crueldade e devassidão como ele jamais fora capaz. Não antes de Adahn.
Espectador da barbárie, foi com essa lição que Jonathan compreendeu a importância do vilão. No fundo, é ele quem define o herói e, por conseguinte, a história. Heróis, ele percebeu, são uma força reativa, presos que estão a seus arqui-inimigos; um herói será tão forte e importante quanto for seu vilão, contanto que esteja à altura. E nisso, Jonathan temia por seu personagem.
Um tanto preocupado, o autor observou – e narrou, ao melhor de suas habilidades – seu protagonista subir num barco e zarpar numa empreitada incerta rumo ao coração do mundo, uma vez mais em busca de sua amada.

Eram duas da manhã quando o celular de Jonathan tocou, despertando-o de seu transe. Ultimamente, ele já não sabia definir o que era mais comum em sua vida: perder-se em sua criação, ou ser arrancado dela.
Com voz fatigada, ele atendeu ao telefone e escutou, um tanto incrédulo, que Julia estava no hospital e que havia entrado em trabalho de parto. Jonathan levantou-se rapidamente da cadeira, derrubando seu material de forma desordenada. Às pressas, abaixou-se, recolheu tudo, pôs no lugar e saiu.
Menos de um minuto depois, retornou para pegar um casaco e um guarda-chuva. Deu uma última olhada no apartamento, apagou as luzes e fechou a porta, sentindo um silêncio pesado cair a suas costas, tal qual um lençol que cobre, gentil e suave, móveis antigos, protegendo-os do pó.
À rua, voltava seu olhar de um lado a outro à procura de um táxi que pudesse transportá-lo. Cada segundo à espera parecia uma ampulheta que virava e revirava – suas areias escorrendo num ritmo calmo e previsível, ignorantes do tempo ao seu redor.
A água que caía sobre ele e a cidade era a mesma que lavava o convés da embarcação de Christian e seus comandados. Fortes temporais bufavam contra eles, jogando-os para longe, impedindo-os de cumprir sua missão. Mas Christian não se deixaria abater. Seu objetivo estava próximo; a misteriosa ilha de Arcádia podia ser vista ao longe, cercada por um exército de furacões implacáveis.
O mastro retorcia-se como um velho deixado ao relento, cobrindo-se do frio e da dor com sua pele frágil, sua pele flácida. Exposto aos elementos, o barco mais parecia um brinquedo de papel, cruelmente esmagado quando sua utilidade chega ao fim.
Então, Christian, num ímpeto de fúria e ousadia, esquecendo-se de sua própria segurança – e ignorando a de seus companheiros – jogou a embarcação contra um dos muitos tornados, esperando – loucamente – que seu navio fosse tão forte quanto sua determinação, e atravessasse o paredão de ares incólume.
Apenas quando tudo ao seu redor se desfez como areia lançada ao vento é que ele se apercebeu de seu erro.

Enfim, Jonathan conseguiu um táxi. Entrou rapidamente e, meio atrapalhado, meio esbaforido, disse para onde desejava ser levado. E qual não foi sua irritação ao ter que repetir diversas vezes o nome do hospital até que o motorista entendesse? Depois de mais um (longuíssimo) minuto, ele conseguiu fazer-se compreender, ao que o carro acelerou bruscamente e arrancou em disparada até seu destino.
Durante o trajeto, Jonathan olhava pelo vidro as poucas luzes que restavam acesas em alguns apartamentos, questionando o que aquelas pessoas fariam acordadas àquela hora. Quais seriam suas histórias? Então, sua atenção ficou presa em outra fonte de luz. A noite era iluminada por uma lua cheia, resplandecente como ela só. Nem as nuvens que transitavam eram capazes de ofuscar seu brilho.
As gotas que caíam na janela e no para-brisa movimentavam-se conforme o ritmo do carro e sopro suave do vento, que respirava como um recém-nascido sobre a cidade adormecida. Um ronco jovial parecia acompanhar o táxi em cada curva, cada reta de seu trajeto.
Quando chegaram ao hospital, Jonathan pagou o homem e saiu – meio aos tropeços – atirando-se para fora em busca de Julia. Não tão diferente assim de Christian, que, ao despertar, encontrou-se, para sua própria surpresa, na praia de Arcádia. Ao seu redor, o barco jazia em forma de escombros, mas ele parecia ser o único que havia conseguido atravessar.
Sozinho, respirando o ar sagrado, tragando o cheiro de sangue, o cavaleiro levantou-se e partiu em busca de sua amada. Por quanto tempo procuraria? Horas? Dias? Semanas? Meses? Não morreria ele de fome ou sede? Não seria capaz de enlouquecer e perder-se no labirinto da própria mente?
Não.
Depois de muito vagar, Christian deparou-se com seu temível adversário, Adahn. Que prendia Célia em seu poder.

Jonathan pegou o elevador e subiu até o andar indicado pela recepcionista. Lá, iniciou uma pequena peregrinação por corredores e curvas e portas e becos e salas. Sem muita ideia de onde estava (ou aonde precisava ir), foi se metendo a conversar com médicos e enfermeiros até que lhe mostraram o local em que o parto estava sendo feito. Entrou na sala, devidamente trajado com avental, máscara, toca e pantufas e, olhando Julia bem nos olhos, agarrou sua mão.
Não eram necessárias palavras, gestos, juras, nada. A presença dele ali já era o bastante para apaziguar-lhe o espírito e dar-lhe forças em sua luta. Aí, sem mais o que fazer, ela sorriu.

Christian e Adahn batalhavam com força, velocidade e técnica; além do ódio controlado que sentiam um pelo outro. Uma sensação de repulsa e atração que fazia com que se cruzassem e se enfrentassem, encontrando pretextos como amor ou ambição ou vingança para tal. Nada mais era que a atração devidamente planejada por um criador maior, que em seu poder, elegeu-os como adversários, até o fim de suas histórias.
A poucos metros do combate, Célia observava horrorizada enquanto seu amado se digladiava numa batalha que seria incapaz de vencer.
Adahn era mais forte, mais rápido, mais técnico. Até mais ódio ele parecia ter. Em movimentos precisos, ia, de pouco em pouco, desgastando seu adversário, preparando terreno para o golpe derradeiro.
O herói, enfim, sobrepujado. A espada de Adahn descia como uma avalanche, alimentada por anos de neve e rocha, provocada por uma voz desavisada que passava minúsculo diante de tamanho poder. Christian, sentindo seu fim próximo, fechou seus olhos, preparando-se para sua última dor, e lançou-se num ataque suicida contra seu rival.
Contudo, ao contrário do que esperava, não sentiu a dor lancinante e o suave embalo da morte tomando-o nos braços. Sentiu, isso sim, sua espada varar seu adversário, atravessando-o como um paredão, vencendo a batalha.
Mas, como sempre, existe um preço.
Célia havia se lançado à frente do golpe de Adahn, aparando-o com seu próprio corpo, dando uma chance a Christian de sobreviver. E vencer.
Adahn estava agora caído ao chão, agonizando sua última agonia, sentindo o sangue escorrer-lhe pelas veias e além. Sua pulsação diminuía gradativamente em soluços e goles de um líquido viscoso e opaco que lhe transbordava pelo corpo.
Christian segurava Célia em seus braços exaustos e abraçou-a, sentindo o calor dela enquanto ainda restava algum. Antes de partir, contudo, ela encontrou forças para olhar Christian nos olhos e dizer: “Viva. Viva pela vida que não poderei ter. Viva pela vida que você não teve. Viva por todos que morreram para que você pudesse estar aqui. Faça o que fizer, meu amor, viva!”
Sentido-a partir, deixando-o sozinho uma vez mais, ele olhou para o corpo frio em seus braços e, então voltando seu olhar aos céus, obedeceu.
Ao fim de quatro horas, Christian nasceu.
Era um bebê lindo.

7 comentários:

adri disse...

ADOREI. Perfeito, sério. Conseguiste entrelaçar muito bem do "criador e da criatura". O fim foi incrível, a sacada da última frase foi genial.

O fim fez jus a este projeto tão legal, e a todos os outros capítulos que o antecederam.

Espero que voltes logo ao blog! E nos vemos no Vale..... saudades, bjs

Gerusa Leal disse...

Marcelo, você fechou com chave de ouro. Gostei muito da narrativa até o fim assim, em dois planos. Seria talvez uma excelente história para adptação para cinema. Sua narrativa é muito plástica. E deixa chegar bem ao leitor, também, o mundo interior do protagonista, com plasticidade tão semelhante que o leitor realmente viaja entre os dois mundos muitas vezes sem se dar conta de qual dos dois é o "real"...rs Os dois, né?
Parabéns. Merece férias...rs
Abraço

Marina disse...

Ainda estou lendo, mas parei para uma consideração: adorei a definição sobre o que é um herói.

Marina disse...

Chave de ouro, sem dúvida. O nosso familiar entrelaçado do criador-criação fez o final ser fantástico, numa metáfora inesperada. Muito bom!

Gerusa Leal disse...

Oi, Marcelo. Ando num corre-corre louco por conta do lançamento do meu livro, que se aproxima. Numa doideira tal que não enconro onde anotei teu endereço para te mandar o livro. Pode me enviar de novo?

Hermes disse...

Sou update foi postado. Só você lerá, aquele outro blog não tem muito público, hauahuaha. Mas tudo bem.
E as aulas de línguas, eu ainda não pude começar, estou esperando ter prova para eu entrar na casa de cultura francesa. Bom, hoje foi minha matrícula na facu de Ciências Sociais. Ainda não pude ler o Mito de Criação final, mas lerei assim que puder. Abraço, amigo

Hermes disse...

Eu não esperava esse final. A forma em que a realidade se mescla com a fantasia, o criador sempre a pensar nas duas veredas do viver. Esse Mito de Criação foi intenso, e não podia terminar de maneira melhor, estou realmente surpreso, muito. Grato por você ter me fornecido uma literatuar de tanta qualidade, mesmo! Estou aguardando sua estréia, pois nessa sua história você provou que tem muito potencial, acho que você vai ser conhecido como o autor do Mito de Criação, ahuaha, pode esperar. Parabéns, amigo. (finalmente pude ler)