domingo, 7 de dezembro de 2008

Mito da criação (parte 1)

Como finalmente entrei em férias da faculdade, pensei em iniciar esse período me ocupando, e resolvi criar um "projeto" no site. Recentemente, tive uma idéia para uma história, e sabendo que ela seria maior do que o que eu normalmente escrevo, decidi publicá-la em partes. O ideal é que seja publicada toda segunda-feira (iniciando hoje, dia 08/12/2008).
Ainda não sei em quantas partes, pois não terminei de escrever, mas já estou finalizando as próximas duas e começando a escrever a quarta. Imagino que pelo menos seis sejam necessárias (embora eu esteja apenas conjecturando).
Como sei que esse projeto é um tanto experimental, estou aberto a todo tipo de críticas. Desde já, espero que aproveitem e gostem, e que queiram continuar lendo depois desta primeira parte.
Agora, sem mais delongas, o conto:

Mito da criação

Jonathan desligou a televisão e levantou do sofá, caminhando vagarosamente até o quarto. Abriu uma gaveta a um canto de sua cabeceira e puxou um caderno fino. Folheou-o preguiçosamente, contando o número de páginas escritas – apenas seis – e tornou a fechá-lo, carregando-o debaixo do braço até a escrivaninha do escritório. Separou o material que usaria – uma lapiseira grafite 0.7, uma borracha, uma caneta tinta preta e seu laptop, aberto para pesquisas e referências – e sentou na cadeira.
No entanto, olhando do caderno para a mesa, sentia que faltava alguma coisa… Coçando a cabeça de leve, ergueu-se e foi até a cozinha. Pegou uma caixa de leite e deixou que seu conteúdo escorresse para dentro de uma caneca. Aqueceu-a no microondas e, após, derramou-lhe uma colher de café e duas de açúcar.
Ao fim do processo, voltou para o escritório e soltou a caneca à direita do caderno, ao alcance de suas mãos. Tomou um gole – queimou sua língua de leve – e colocou-a de volta. Enfim, abriu o caderno.
Há algum tempo havia tido uma idéia para uma história, mas só agora achava que ela havia amadurecido o bastante para colocá-la no papel. Fechou os olhos e contou até dez, respirando profundamente. Aí, tornou a abrir os olhos e concentrou-se na escrita.
Com sua primeira linha, sentia a chuva caindo de leve. A água escoava de suas mãos para o grafite, e a cada palavra, uma nova árvore nascia. Ao término da primeira frase, ele estava num bosque. Ao fim do parágrafo, era uma floresta.
Até a chuva havia aumentado, caindo a letras grossas sobre o papel. O cheiro de terra molhava exalava de cada linha, e o vento uivava a cada movimento de sua mão, soprando ora com calma, ora com vigor.
De repente, ao longe, ele ouviu o som dos seus primeiro personagens se aproximando. Eram cinco, e montavam cavalos pesados e fortes. Sua trupe estava em busca de algo, ou alguém.
Estavam cercados por lobos de borracha e predadores de papel, espreitando a todo canto. Quanto a Jonathan, ele não tinha o que fazer senão encontrar o personagem principal. Em poucas frases, o autor deu-lhe uma armadura sobre os ombros e uma espada à cintura. Com algumas linhas grossas, viu nascer-lhe um cabelo escuro e comprido. Contudo, a luz do seu computador dava-lhes um tom castanho e profundo.
Aos outros personagens, ele dedicou não mais que um gole de café. Exceto ao líder da comitiva, Adahn. Como bom antagonista, esse merecia dois goles e um esmero especial.
Jonathan levantou-se do chão embarrado e foi sentir o vento e a chuva. Deu alguns passos pela casa, esquivando-se de eventuais galhos e árvores, aproveitando para observar o ambiente. Cada grão de areia, cada gota de suor, cada pingo de orvalho, cada raio de sol, cada nuvem no horizonte, cada futuro sombrio e incerto, cada passado obscuro e tenebroso, cada momento presente, cada amor impossível, cada amizade sincera. Sem perceber, ele deixou-se levar pela imensidão da própria criação, e saiu à procura de tudo o que necessitava.

6 comentários:

nelson_magrini disse...

Interessante. Bastante diferente do que costumo ver por aí. Creio que seu lado poeta tem bons efeitos em sua literatura.

Agora fiquei curioso, he he, cadê a segunda parte?

Abraços!

tinukiti disse...

Achei super interessante.Ele meio que nós prende á ler a té o fim, sempre querendo mais....Mas tenho certeza que a cada conto seu lido fica algo em nós leitores..bjos e sucesso!!
Ah, e agora terei mais tempo para me inteirar de seus contos..

Hermes disse...

Leitura agradável, infelizmente não vou ter muito o que criticar agora, quer dizer...acho que nada mesmo. A forma em que o conto é narrada está boa, nos bons moldes de boas histórias. A temática abordada é clichê, já foi usada por alguns, mas é lírica e agradável. (não sou contra ao clichê, por tanto que ele seja usado corretamente, e você usou.)

Abraços.

Marina disse...

Uau! Então, teremos um épico! Muito bem escrito, por sinal. Engraçado que estava comentando com um amigo, qualquer dia desses, o quanto personagens épicos são estereotipados e o quanto um épico não tem muita profundidade psicológica. Sou capaz de apostar que esse aqui será diferente. Só a maneira como você começou já diz isso. E quem já leu seus textos, sabe que coisa simples não vem. Não vejo a hora de ler a continuação.

Sobre o comentário... Meus posts não são longos, dá pra você ler dois ou três por vez. hehe Brincadeira. Aposto que não vou conseguir seguir à risca esse método de postagem. Eu me conheço.

Abraço, Marcelo!

Janice Diniz disse...

Não customo bancar a teórica literária e ao comentar textos postados na internet. Na verdade, acho que o melhor de nós ou o que melhor criamos não devemos expô-los gratuitamente e, ainda por cima, correndo o risco de ser plagiado e até mesmo "roubado" (parece piada...rsrs). Minha opinião é a que vc tem um bom trabalho em mãos, tanto em relação ao enredo quanto à técnica e o tratamento gramatical (muitas vezes negligenciado por quem se diz "escritor"). Se a intenção é meramente divulgar o teu trabalho para, no futuro, publicar livro (impresso), acho válido apostar nesse sistema de exposição virtual. Mas se quer expandir com esse mesmo material que tem ( e que é muito bom) guarde a munição para si e não dê tudo no blogue, não mostre todas as cartas, não exiba o cofre aberto com o ouro...rsr

Sobre o comentário ao meu texto, agradeço a visita e as palavras. A técnica utilizada foi o "falso" fluxo de consciência a partir do personagem -narrador. Não sabe por quantas revisões o tal "fluxo de consciência" passou....rsrsr ( e tá na cara que não é o meu "ouro"....rsrs)

Abração!

Siane disse...

Gostei muito. Principalmente no início, quando consegui visualizar cada movimento da personagem.