Olá a todos, e, uma vez mais, desculpem-me. Passei por alguns problemas de ordem pessoal que me indispuseram com a vida (mais ou menos), e me tiraram a vontade de mexer aqui. Além disso, como eu já disse, minha internet me odeia. Muito. Acho que por isso mesmo que o adaptador wireless (minha rede é sem fio) caiu no chão e quebrou, me deixando inconectável exceto por meio de computadores alheios.
Para variar, minha internet resolveu que eu não deveria me envolver com vocês, e convenceu meu pc a participar da maracutaia. Sim, só para digitar essa tripinha de texto, precisei mais de meia hora (tive reiniciar o pc, instalar a internet de novo, entre outras coisas).
Mais tarde ponho mais conteúdo aqui, mas tá difícil...
sábado, 25 de julho de 2009
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Desculpas...
Sinto muito pela falta de updates recentemente, mas tenho passado por uma série de dificuldades técnicas. A primeira é uma questão salutar. Eu tenho sinuzite, e o clima do Rio Grande do Sul é absolutamente inclemente, e pune severamente os mais fracos (no caso, eu). Só agora, com acesso a muitos remédios, é que estou voltando a ficar melhor. Mas nada demais, tb... Outro problema é tecnológico. Estou trocando de pc, e aparentemente, é muito difícil passar tudo o que eu tinha no antigo para o novo de forma funcional. Deve ser algo contra mim, não vejo outra explicação pras minhas máquinas viverem dando pau (vide post: Minha internet me odeia!).
Portanto, não tenho ainda o post que eu gostaria de ter escrito sobre a maravilhosamente complicada caligrafia japonesa. Mas, antes do choro da maioria, trouxe um conto que escreve há algum tempo, levemente acrescido (bem de leve), aqui exposto. Espero que gostem, e que eu melhore.
Frank
Jonas, vestindo seu tradicional jaleco branco, aproximou-se lentamente do homem na maca, admirando seu corpo nu e pálido. De pé, ele caminhou até os equipamentos ao lado da cama e começou a afiá-los.
- Sabe, Frank, eu sinto saudades suas. – Jonas começou a falar enquanto batia uma lâmina contra a outra. – Fazia tempo que não ficávamos assim, não é? De frente um pro outro, só nós dois. Bons tempos aqueles. Lembra quando você conheceu aquela mexicana, a Conchita? Não? Eu lembro. Gostosinha ela. Mas você também não era nada mal. Pena que envelhecemos, hein? – e bateu de leve no ombro do homem deitado.
- Você está frio, sabia? Frio. Se bem que eu gosto de frio. Lembra daquela nossa viagem pra Québec? Estava o que, menos trinta? E o pintinho também, menos que cinco. – e deu uma risadinha leve diante do corpo. – Que foi, não achou graça? Pois é, você sempre foi o mais comportado. – Jonas sentou-se num banquinho ao lado da maca e começou a apalpar o corpo. – Eu sempre fui o cara da sacanagem. Dá pra acreditar que eu casei? – logo, começou a cortar os dedos das mãos de Frank. – Que coisa estranha, não? Eu sempre achei que você fosse casar, construir uma família e… esse está difícil… ah… consegui. Seu dedo duro. – dessa vez, ele riu forte, admirando o dedo médio que acabara de decepar. – Viu só, é por isso que você está aqui. Tem dedos difíceis de cortar. – então, entre risos, Jonas apalpou a mão do corpo até chegar ao pulso, onde voltou a serrar.
- Eu conheci ela faz o que… uns dois, três anos? Sabe aquilo que você sempre dizia? Aquela coisa do amor, como é que era? Seus olhos são o caminho do seu coração? O caminho para o coração é através da visão? – ele terminou de cortar as mãos e foi para o bíceps. – Bom, era algo sobre amor à primeira vista. A gente sabe quando encontra a pessoa certa, não é? E foi isso mesmo o que aconteceu. Assim que nós nos olhamos, eu sabia. Ela era… nossa, não lembrava que você era tão forte. Belos músculos. Espero que meu filho seja assim. – ele terminou os braços e dirigiu-se para os ombros. – Aliás, eu te falei que vou ter um filho? Eu e a Adriana, é esse o nome da minha mulher, Adriana. Eu tinha esquecido de contar, não tinha? Hum… esse osso é difícil. Mas calma que já acabo… pronto. Dito e feito. Posso começar as pernas? Você não se importa, não é? Imaginei que não. Posso fazer os pés? Começo pelo direito, é claro. – e explodiu numa gargalhada enquanto tocava os pés.
- Bom, como eu ia dizendo, eu e ela nos apaixonamos e casamos. E agora vamos ter um filho. Eu estava pensando em dar o teu nome pra ele. Gostou da homenagem? Quer dizer, se for menino. Não dá pra ver na ecografia ainda. – Jonas serrou-lhe os dois pés e colocou-os num balde. Logo, começou a estudar os joelhos. – Faz pouco que ela está grávida. Nem dá pra notar direito. Você não faz idéia de como eu estou contente. É só nisso que eu consigo pensar. Eu vou ser pai! Não se preocupe, eu sei que você se você ainda tivesse os braços estaria me abraçando agora. – e começou a rir alto, sem conseguir se controlar. Após terminar os joelhos, foi para a virilha. – Piada maldosa, eu sei. A gente não deve chutar quem está por baixo, mas você me conhece, eu não consigo resistir. E… o que é isso que eu estou vendo… você está com frio de novo? – e voltou a rir diante do corpo. – Brincadeirinha. Eu sei o quanto você usou isso aqui. Quanta mulher. E cá entre nós, teve alguns homens também, não teve? – ele terminou de cortar as pernas e o pênis e abriu-lhe o tórax.
- Mas sabe de uma coisa, eu quero que o corpo do meu filho seja que nem o seu. Você sempre foi muito atlético. E veja aqui o seu coração. – rindo alto, Jonas guardou o órgão num saco plástico. – Eu gostaria que meu filho fosse um homem justo. De estômago forte também, não que nem o seu, que saiu com um cortezinho de nada. – e riu como antes, batendo um dos pés no chão. Suas bochechas já estavam doendo. – Admite que essa foi boa. Não? Senso de humor nunca foi uma de suas características marcantes. Isso eu espero que ele puxe de mim. Todo mundo iria gostar dele.
- Bom, agora que eu terminei por aqui, vamos para a cabeça. Eu vou rachar o seu crânio e extrair o seu cérebro. Pode doer um pouco… Bom, lá vai. – batendo forte, Jonas conseguiu quebrar-lhe o crânio e tirar o cérebro, intacto.
- Frank, seu cabeça oca. – e riu baixinho do seu comentário. – Agora, se você me dá licença, tenho que limpar tudo.
Jonas levantou-se e organizou todas as partes do corpo numa mesa ao fundo. Lavou o chão e foi trocar de avental. Demorou-se um pouco tomando banho, até que enfim voltou para a sala, vestindo um smoking. Sentou-se à mesa e, puxando um garfo e uma faca, disse:
- Então, por onde eu começo?
Portanto, não tenho ainda o post que eu gostaria de ter escrito sobre a maravilhosamente complicada caligrafia japonesa. Mas, antes do choro da maioria, trouxe um conto que escreve há algum tempo, levemente acrescido (bem de leve), aqui exposto. Espero que gostem, e que eu melhore.
Frank
Jonas, vestindo seu tradicional jaleco branco, aproximou-se lentamente do homem na maca, admirando seu corpo nu e pálido. De pé, ele caminhou até os equipamentos ao lado da cama e começou a afiá-los.
- Sabe, Frank, eu sinto saudades suas. – Jonas começou a falar enquanto batia uma lâmina contra a outra. – Fazia tempo que não ficávamos assim, não é? De frente um pro outro, só nós dois. Bons tempos aqueles. Lembra quando você conheceu aquela mexicana, a Conchita? Não? Eu lembro. Gostosinha ela. Mas você também não era nada mal. Pena que envelhecemos, hein? – e bateu de leve no ombro do homem deitado.
- Você está frio, sabia? Frio. Se bem que eu gosto de frio. Lembra daquela nossa viagem pra Québec? Estava o que, menos trinta? E o pintinho também, menos que cinco. – e deu uma risadinha leve diante do corpo. – Que foi, não achou graça? Pois é, você sempre foi o mais comportado. – Jonas sentou-se num banquinho ao lado da maca e começou a apalpar o corpo. – Eu sempre fui o cara da sacanagem. Dá pra acreditar que eu casei? – logo, começou a cortar os dedos das mãos de Frank. – Que coisa estranha, não? Eu sempre achei que você fosse casar, construir uma família e… esse está difícil… ah… consegui. Seu dedo duro. – dessa vez, ele riu forte, admirando o dedo médio que acabara de decepar. – Viu só, é por isso que você está aqui. Tem dedos difíceis de cortar. – então, entre risos, Jonas apalpou a mão do corpo até chegar ao pulso, onde voltou a serrar.
- Eu conheci ela faz o que… uns dois, três anos? Sabe aquilo que você sempre dizia? Aquela coisa do amor, como é que era? Seus olhos são o caminho do seu coração? O caminho para o coração é através da visão? – ele terminou de cortar as mãos e foi para o bíceps. – Bom, era algo sobre amor à primeira vista. A gente sabe quando encontra a pessoa certa, não é? E foi isso mesmo o que aconteceu. Assim que nós nos olhamos, eu sabia. Ela era… nossa, não lembrava que você era tão forte. Belos músculos. Espero que meu filho seja assim. – ele terminou os braços e dirigiu-se para os ombros. – Aliás, eu te falei que vou ter um filho? Eu e a Adriana, é esse o nome da minha mulher, Adriana. Eu tinha esquecido de contar, não tinha? Hum… esse osso é difícil. Mas calma que já acabo… pronto. Dito e feito. Posso começar as pernas? Você não se importa, não é? Imaginei que não. Posso fazer os pés? Começo pelo direito, é claro. – e explodiu numa gargalhada enquanto tocava os pés.
- Bom, como eu ia dizendo, eu e ela nos apaixonamos e casamos. E agora vamos ter um filho. Eu estava pensando em dar o teu nome pra ele. Gostou da homenagem? Quer dizer, se for menino. Não dá pra ver na ecografia ainda. – Jonas serrou-lhe os dois pés e colocou-os num balde. Logo, começou a estudar os joelhos. – Faz pouco que ela está grávida. Nem dá pra notar direito. Você não faz idéia de como eu estou contente. É só nisso que eu consigo pensar. Eu vou ser pai! Não se preocupe, eu sei que você se você ainda tivesse os braços estaria me abraçando agora. – e começou a rir alto, sem conseguir se controlar. Após terminar os joelhos, foi para a virilha. – Piada maldosa, eu sei. A gente não deve chutar quem está por baixo, mas você me conhece, eu não consigo resistir. E… o que é isso que eu estou vendo… você está com frio de novo? – e voltou a rir diante do corpo. – Brincadeirinha. Eu sei o quanto você usou isso aqui. Quanta mulher. E cá entre nós, teve alguns homens também, não teve? – ele terminou de cortar as pernas e o pênis e abriu-lhe o tórax.
- Mas sabe de uma coisa, eu quero que o corpo do meu filho seja que nem o seu. Você sempre foi muito atlético. E veja aqui o seu coração. – rindo alto, Jonas guardou o órgão num saco plástico. – Eu gostaria que meu filho fosse um homem justo. De estômago forte também, não que nem o seu, que saiu com um cortezinho de nada. – e riu como antes, batendo um dos pés no chão. Suas bochechas já estavam doendo. – Admite que essa foi boa. Não? Senso de humor nunca foi uma de suas características marcantes. Isso eu espero que ele puxe de mim. Todo mundo iria gostar dele.
- Bom, agora que eu terminei por aqui, vamos para a cabeça. Eu vou rachar o seu crânio e extrair o seu cérebro. Pode doer um pouco… Bom, lá vai. – batendo forte, Jonas conseguiu quebrar-lhe o crânio e tirar o cérebro, intacto.
- Frank, seu cabeça oca. – e riu baixinho do seu comentário. – Agora, se você me dá licença, tenho que limpar tudo.
Jonas levantou-se e organizou todas as partes do corpo numa mesa ao fundo. Lavou o chão e foi trocar de avental. Demorou-se um pouco tomando banho, até que enfim voltou para a sala, vestindo um smoking. Sentou-se à mesa e, puxando um garfo e uma faca, disse:
- Então, por onde eu começo?
domingo, 28 de junho de 2009
O país de Karin
Demorei, mas estou postando um update. Eu queria fazer algo melhor e um pouco diferente (estava pensando em falar sobre kanjis - os ideogramas japoneses), mas preferi colocar esse post aqui como "tapa-buraco" enquanto não escrevo o outro.
Esse é um dos contos mais estranhos que já escrevi (do qual, inclusive, muita gente não gosta). Para ser sincero, eu ainda tenho dúvidas sobre como escrevê-lo, o que fazer para melhorá-lo, etc. Talvez por isso mesmo seja uma boa ideia colocar aqui. Assim o pessoal pode ver e me dar algumas sugestões. Né?
Bom, divirtam-se. Espero semana que vem falar sobre a temida escrita japonesa...
O país de Karin
O país de Karin foi preso naquela manhã, sem mas nem choro. Ele tinha mal e mal uns seis meses; sete quando muito. Foi levado por uns homens vestidos todos de preto. Eles vieram escondidos, sorrateiros e, na calada da noite, levaram-no.
Alguns dizem que virou escravo. Outros, que foi morto. Mas do que não se tem dúvida, é de que sofreu.
Aqueles homens vestidos de preto eram conhecidos por sua crueldade. Ninguém sabia por que levaram aquele país tão jovem, mas deixaram centenas de idosos e crianças desabrigados. Sem pátria, tiveram que se mudar para algum outro país, o que se provou muito difícil. Afinal, país que se preze não deixaria seus filhos com essa gentalha. Se o país já fora preso, imagine o que aquela marginalia seria capaz de fazer.
Mas para algum lugar eles tinham que ir, e um que outro país, que acreditavam na inocência do que fora levado, aceitaram uns aqui, outros ali... E só uns poucos, que não tiveram sorte, ficaram no não-país.
Dez anos depois, ninguém sabe como nem de onde, o país voltou, e foram aquelas crianças, agora mais velhas, que o receberam. Mas ele estava tão desfigurado, tão diferente, que sequer o reconheceram. Alguns por pena, outros por educação, ofereceram-lhe aquela terra, que ele aceitou de muito bom grado. Estava felicíssimo por ter retornado para casa, e mais ainda por não terem perguntado quem era nem de onde vinha; ele não queria nem lembrar o que lhe acontecera naqueles anos todos. O único problema agora eram os antigos moradores, que não estavam gostando nem um pouco de ver aquele país estranho na sua terra. Então, reuniram-se e o mandaram embora.
Alguns dizem que ele foi pra outro lugar. Outros, que morreu. Mas do que não se tem dúvida, é de que sofreu.
Só Karin sabe que hoje, triste e solitário, ele vaga por aí, esperando pelo dia em que poderá voltar para casa. Enquanto isso, ela prepara a água morna do banho e o fogo da lareira, para poderem conversar como faziam na sua juventude.
Esse é um dos contos mais estranhos que já escrevi (do qual, inclusive, muita gente não gosta). Para ser sincero, eu ainda tenho dúvidas sobre como escrevê-lo, o que fazer para melhorá-lo, etc. Talvez por isso mesmo seja uma boa ideia colocar aqui. Assim o pessoal pode ver e me dar algumas sugestões. Né?
Bom, divirtam-se. Espero semana que vem falar sobre a temida escrita japonesa...
O país de Karin
O país de Karin foi preso naquela manhã, sem mas nem choro. Ele tinha mal e mal uns seis meses; sete quando muito. Foi levado por uns homens vestidos todos de preto. Eles vieram escondidos, sorrateiros e, na calada da noite, levaram-no.
Alguns dizem que virou escravo. Outros, que foi morto. Mas do que não se tem dúvida, é de que sofreu.
Aqueles homens vestidos de preto eram conhecidos por sua crueldade. Ninguém sabia por que levaram aquele país tão jovem, mas deixaram centenas de idosos e crianças desabrigados. Sem pátria, tiveram que se mudar para algum outro país, o que se provou muito difícil. Afinal, país que se preze não deixaria seus filhos com essa gentalha. Se o país já fora preso, imagine o que aquela marginalia seria capaz de fazer.
Mas para algum lugar eles tinham que ir, e um que outro país, que acreditavam na inocência do que fora levado, aceitaram uns aqui, outros ali... E só uns poucos, que não tiveram sorte, ficaram no não-país.
Dez anos depois, ninguém sabe como nem de onde, o país voltou, e foram aquelas crianças, agora mais velhas, que o receberam. Mas ele estava tão desfigurado, tão diferente, que sequer o reconheceram. Alguns por pena, outros por educação, ofereceram-lhe aquela terra, que ele aceitou de muito bom grado. Estava felicíssimo por ter retornado para casa, e mais ainda por não terem perguntado quem era nem de onde vinha; ele não queria nem lembrar o que lhe acontecera naqueles anos todos. O único problema agora eram os antigos moradores, que não estavam gostando nem um pouco de ver aquele país estranho na sua terra. Então, reuniram-se e o mandaram embora.
Alguns dizem que ele foi pra outro lugar. Outros, que morreu. Mas do que não se tem dúvida, é de que sofreu.
Só Karin sabe que hoje, triste e solitário, ele vaga por aí, esperando pelo dia em que poderá voltar para casa. Enquanto isso, ela prepara a água morna do banho e o fogo da lareira, para poderem conversar como faziam na sua juventude.
terça-feira, 23 de junho de 2009
Minha internet me odeia!
Caros leitores:
Minha internet odeia a mim, à minha alma, e tudo o que há entre elas. Aparentemente, qualquer coisa remotamente relacionada com conexão a cabo é tomado por um ódio incontido e continuado ao meu ser, então expresso na forma de ineficácia, descontinuidade, interrupção, bugs, problemas gerais. Atualmente, só o fato de eu conseguir entrar no site já é uma proeza, que dirá atualizá-lo.
Espero deixar claro que minha ausência holística (internet, e-mail, msn, blog, etc) fique esclarecida com o nome do post.
Boa noite...
Minha internet odeia a mim, à minha alma, e tudo o que há entre elas. Aparentemente, qualquer coisa remotamente relacionada com conexão a cabo é tomado por um ódio incontido e continuado ao meu ser, então expresso na forma de ineficácia, descontinuidade, interrupção, bugs, problemas gerais. Atualmente, só o fato de eu conseguir entrar no site já é uma proeza, que dirá atualizá-lo.
Espero deixar claro que minha ausência holística (internet, e-mail, msn, blog, etc) fique esclarecida com o nome do post.
Boa noite...
terça-feira, 2 de junho de 2009
Rabiscos no caderno
O próximo texto que eu vou postar aqui foi um achado no caderno. Escrevi no início do ano passado durante uma aula muito chata para um conto que eu planejava escrever. Era para ser um exercício de descrição - um esboço, digamos - para o texto subsequente. Pois bem, um ano depois, não é que olhando aquele caderno eu encontro esse excerto? Meio sem esperar, completamente de surpresa, olhei e me lembrei dele na hora. Até aquela hora, eu o havia varrido da memória. Até que foi bom reencontrar. Me deu uma visão mais "distante" da minha escrita. E sabem que achei o resultado positivo?
Bom, como gostei, decidi que iria postar esse excerto aqui (depois de tê-lo lido para minha namorada e ter recebido sua aprovação, claro):
Rabiscos no caderno
Percorrendo os metros finais da mina, Christian era cegado pela luz reconfortante do mundo externo. Quando enfim deixou a escuridão para trás, viu-se diante de uma extensa baía que terminava ao mar. A areia branca refletia o pôr-do-sol tal qual um grande diamante exposto à luz.
Ele caminhou adiante até o limite da terra, em que mar e céu se confundiam de tal forma que ele poderia nadar ou voar sem jamais saber a diferença; até o oxigênio que corria era o mesmo, e ele poderia morrer respirando no mar ou afogar-se nos ventos ao seu redor.
O sol desaparecia no horizonte, morrendo sem nunca morrer, ou surgia, nascendo sem nascer. Habitava um espaço entre o crepúsculo sombrio e a manhã enevoada.
O último lugar da Terra, antes que a realidade subisse numa balsa e se perdesse no oceano eternamente rubro, era habitado por fantasmas de sonhos e de esperanças, que o assombravam com os uivos vazios de um choro seco.
Um rumor de asas enchia o ambiente, e pássaros azuis cruzavam o céu rapidamente, aproveitando os últimos momentos que lhes restavam. Pois Finisterra não é apenas um lugar, é também um quando.
Bom, como gostei, decidi que iria postar esse excerto aqui (depois de tê-lo lido para minha namorada e ter recebido sua aprovação, claro):
Rabiscos no caderno
Percorrendo os metros finais da mina, Christian era cegado pela luz reconfortante do mundo externo. Quando enfim deixou a escuridão para trás, viu-se diante de uma extensa baía que terminava ao mar. A areia branca refletia o pôr-do-sol tal qual um grande diamante exposto à luz.
Ele caminhou adiante até o limite da terra, em que mar e céu se confundiam de tal forma que ele poderia nadar ou voar sem jamais saber a diferença; até o oxigênio que corria era o mesmo, e ele poderia morrer respirando no mar ou afogar-se nos ventos ao seu redor.
O sol desaparecia no horizonte, morrendo sem nunca morrer, ou surgia, nascendo sem nascer. Habitava um espaço entre o crepúsculo sombrio e a manhã enevoada.
O último lugar da Terra, antes que a realidade subisse numa balsa e se perdesse no oceano eternamente rubro, era habitado por fantasmas de sonhos e de esperanças, que o assombravam com os uivos vazios de um choro seco.
Um rumor de asas enchia o ambiente, e pássaros azuis cruzavam o céu rapidamente, aproveitando os últimos momentos que lhes restavam. Pois Finisterra não é apenas um lugar, é também um quando.
domingo, 24 de maio de 2009
Faerie (parte 2 de 2)
Sei que faz tempo, mas prometi que traria a segunda e última parte de Faerie (que, para ser sincero, tenho dúvidas quanto ao título. Pensava em nomear esse conto "Isabela e o Cavaleiro". O que vocês acham?). É uma história bem menos séria e mais divertida (creio eu) do que o habitual. Acho que é por isso mesmo que gosto tanto dela. Foge um pouco do meu tradicional, apesar de ainda manter a identidade.
Bom, espero muitos comments (sem pressão, hem?). hehehe
Faerie... 2
De volta ao palácio com o menino e a menina, já despertos, os servos não perderam tempo em levá-los diretamente à presença de Oberon e Titânia. Ao longo dos corredores percorridos, passaram por paredes decoradas por uma coleção infindável de cabeças penduradas, uma visão normalmente terrível e apavorante; mas estavam tão bem distribuídas, dispostas de forma tão clara e agradável que dava até vontade de ficar olhando… Mas não podiam. O rei e a rainha tinham pressa: exigiam música já – e degola em breve.
Os dois irmãos, então, viram-se em frente às figuras mais importantes do outro lado da neblina, Rei Oberon e Rainha Titânia, altos e belos, igualmente cruéis. Há centenas de anos um ser humano não punha os pés naquele palácio, e lá estavam eles, prestes a cantar por suas cabeças. Ambos governantes sentados, esperando pela apresentação, e os irmãos entreolharam-se. "Está pronto?", um perguntou ao outro.
"Cantaremos a história de Isabela e o Cavaleiro."
Silêncio.
"Ahem…”
Isabela mirava da janela as flores
que refletiam em si do sol os raios,
e o cavaleiro tocava em sua harpa as dores.
Era a primeira manhã de maio.
‘Ah, Cavaleiro, se eu pudesse ao menos tê-lo,
no meu doce colo a tocar’, disse a bela donzela,
admirando o mar.
‘Só de ouvir esse desejo,
que posso eu se não fazê-lo
com cada ar que respirar?
Tu, que és tamanha beldade,
atende-me nesta vontade:
Vem comigo a cavalgar’.
E ao som daquela melodia
Isabela notou que não podia
àquele desejo resistir.
Subiu então no seu cavalo,
com o cavaleiro ao lado,
para, com ele, partir.
Chegando à margem da floresta,
entraram por uma clareira deserta
E o cavaleiro rosnou o seu bramido:
‘Isabela, Isabela,
Chegamos ao lugar de teu último suspiro.
A próxima vítima serás da minha clava.
Pois as minhas últimas sete esposas,
Matei-as todas. E tu serás a oitava. ’
‘Piedade, piedade, tenha o senhor de mim.
Minha família ainda pretendo ver,
se possível antes do fim.
Deve estar cansado, por isso eu lhe imploro
Deite a espada no chão, e a cabeça no meu colo. ’
Ela acariciou o seu cabelo, fazendo o sono surgir.
E com um pequeno feitiço, botou-o logo a dormir.
E o cavaleiro caiu num sono profundo,
sem reparar por um segundo no plano de Isabela.
Ela pegou sua espada torta,
que de tantas princesas mortas,
já brilhava com sangue azul.
E num movimento certeiro, decapitou o cavaleiro
que morava na floresta ao Sul.
Levantando-se da poça ensangüentada,
nossa donzela aprisionada, mirou o morto e falou:
‘Se sete princesas você aqui matou,
Seja delas o marido, já que sua não sou. ’
Quando terminaram de cantar a balada, os dois irmãos olharam ansiosos para o rei e a rainha, esperando o veredicto. Os soberanos, no entanto, sequer esboçaram reação; voltaram-se um para o outro e passaram a conversar em cochichos. Foi uma troca breve de palavras, mas o tempo parecia distender-se e desprender-se, transformando minutos em horas e momentos em eterna agonia de espera.
Enfim, depois de conjeturar, Lady Titânia levantou-se e começou a aplaudir.
“Parabéns”, ela disse, deixando as crianças em estado de euforia, “meus fiéis hobgoblins. Fizeram exatamente o que eu lhes ordenara. Trouxeram-nos dois menestréis belos como o orvalho e que, claramente, pouco entendem de música.”
“Nada”, completou Oberon.
Os murmúrios de comemoração dos servos já se pronunciavam no salão, extasiando os súditos de Faerie com mais um espetáculo de decapitação a se seguir, até que a rainha voltou a se pronunciar:
“Contudo, existe algo na canção proferida que me tocou profundamente.”
“Seria a decapitação do cavaleiro, minha rainha?”, perguntou-lhe Oberon.
“Certamente. Portanto, poupar-lhes-ei a vida para que possam apresentar-se dignamente aos outros membros da corte”, e os olhos dos dois jovens encheram-se de alegria. “Agora”, prosseguiu a rainha, “terei de tomar uma decisão que muito me aflige. Chegamos ao fim desta semana e ainda não tenho as duas cabeças que me faltam. Não me resta outra alternativa senão sacrificar meus fiéis hobgoblins em nome da estética”, e ela apontou o pequeno grupo – não mais que doze – que havia lhe trazido os humanos. “Alguém há de oferecer a estes pobres servos uma arma.”
Da multidão que assistia à cena, uma espada foi lançada.
“Ótimo”, continuou Titânia. “Aquele dentre vós que me trouxer a cabeça de outros dois será devidamente recompensado. Os restantes serão enforcados”, e foi dada a sentença.
Durante as próximas duas semanas, os irmãos apresentaram-se diariamente para toda a corte de Faerie, recitando sua famosa balada: Isabela e o Cavaleiro. Tocaram diante de uma miríade de espíritos da terra, do céu, da água, do ar, e de outros tantos elementos que só existem além da neblina.
Ao fim daquele período, a senhora Titânia, um tanto contrariada, concedeu-lhes a liberdade, desfazendo o feitiço que os prendia ao seu reino. Depois de sua última apresentação, receberam do rei algumas frutas e um “boa sorte” e puseram-se a caminhar. Sem muita demora, chegaram aos Ermos e atravessaram a névoa.
Do outro lado, a noite avançava às pressas, e algumas estrelas já brilhavam no céu. Guiando-se por velas acesas na escuridão, os irmãos trilharam o caminho noite adentro até chegaram à sua vila.
Qual não foi sua surpresa ao perceberem como ela havia mudado depois das duas semanas que haviam passado em Faerie. Algumas casas foram construídas, outras derrubadas, a grama cresceu, e as estradas se multiplicaram.
Perdidos devido às recentes modificações no relevo de sua vila, os irmãos moveram-se ansiosamente por entre as construções, até que enfim encontraram o caminho de casa. Como as crianças que eram, correram esperançosos gritando por sua mãe, chorando pelo fim de sua jornada.
Contudo, quando estavam mais próximos de seu lar, notaram que sua casa estava em ruínas. Duas árvores de Ipê haviam crescido do lado de dentro e destruído o telhado e as janelas. Perguntando pelos arredores, os irmãos descobriram que os antigos moradores daquela casa já haviam se mudado fazia muitos anos.
Chocado com a descoberta, o irmão só conseguiu pensar em uma coisa para salvar a si e a sua irmã. Pôs o seu chapéu no chão e começou:
‘Isabela mirava da janela as flores…
Bom, espero muitos comments (sem pressão, hem?). hehehe
Faerie... 2
De volta ao palácio com o menino e a menina, já despertos, os servos não perderam tempo em levá-los diretamente à presença de Oberon e Titânia. Ao longo dos corredores percorridos, passaram por paredes decoradas por uma coleção infindável de cabeças penduradas, uma visão normalmente terrível e apavorante; mas estavam tão bem distribuídas, dispostas de forma tão clara e agradável que dava até vontade de ficar olhando… Mas não podiam. O rei e a rainha tinham pressa: exigiam música já – e degola em breve.
Os dois irmãos, então, viram-se em frente às figuras mais importantes do outro lado da neblina, Rei Oberon e Rainha Titânia, altos e belos, igualmente cruéis. Há centenas de anos um ser humano não punha os pés naquele palácio, e lá estavam eles, prestes a cantar por suas cabeças. Ambos governantes sentados, esperando pela apresentação, e os irmãos entreolharam-se. "Está pronto?", um perguntou ao outro.
"Cantaremos a história de Isabela e o Cavaleiro."
Silêncio.
"Ahem…”
Isabela mirava da janela as flores
que refletiam em si do sol os raios,
e o cavaleiro tocava em sua harpa as dores.
Era a primeira manhã de maio.
‘Ah, Cavaleiro, se eu pudesse ao menos tê-lo,
no meu doce colo a tocar’, disse a bela donzela,
admirando o mar.
‘Só de ouvir esse desejo,
que posso eu se não fazê-lo
com cada ar que respirar?
Tu, que és tamanha beldade,
atende-me nesta vontade:
Vem comigo a cavalgar’.
E ao som daquela melodia
Isabela notou que não podia
àquele desejo resistir.
Subiu então no seu cavalo,
com o cavaleiro ao lado,
para, com ele, partir.
Chegando à margem da floresta,
entraram por uma clareira deserta
E o cavaleiro rosnou o seu bramido:
‘Isabela, Isabela,
Chegamos ao lugar de teu último suspiro.
A próxima vítima serás da minha clava.
Pois as minhas últimas sete esposas,
Matei-as todas. E tu serás a oitava. ’
‘Piedade, piedade, tenha o senhor de mim.
Minha família ainda pretendo ver,
se possível antes do fim.
Deve estar cansado, por isso eu lhe imploro
Deite a espada no chão, e a cabeça no meu colo. ’
Ela acariciou o seu cabelo, fazendo o sono surgir.
E com um pequeno feitiço, botou-o logo a dormir.
E o cavaleiro caiu num sono profundo,
sem reparar por um segundo no plano de Isabela.
Ela pegou sua espada torta,
que de tantas princesas mortas,
já brilhava com sangue azul.
E num movimento certeiro, decapitou o cavaleiro
que morava na floresta ao Sul.
Levantando-se da poça ensangüentada,
nossa donzela aprisionada, mirou o morto e falou:
‘Se sete princesas você aqui matou,
Seja delas o marido, já que sua não sou. ’
Quando terminaram de cantar a balada, os dois irmãos olharam ansiosos para o rei e a rainha, esperando o veredicto. Os soberanos, no entanto, sequer esboçaram reação; voltaram-se um para o outro e passaram a conversar em cochichos. Foi uma troca breve de palavras, mas o tempo parecia distender-se e desprender-se, transformando minutos em horas e momentos em eterna agonia de espera.
Enfim, depois de conjeturar, Lady Titânia levantou-se e começou a aplaudir.
“Parabéns”, ela disse, deixando as crianças em estado de euforia, “meus fiéis hobgoblins. Fizeram exatamente o que eu lhes ordenara. Trouxeram-nos dois menestréis belos como o orvalho e que, claramente, pouco entendem de música.”
“Nada”, completou Oberon.
Os murmúrios de comemoração dos servos já se pronunciavam no salão, extasiando os súditos de Faerie com mais um espetáculo de decapitação a se seguir, até que a rainha voltou a se pronunciar:
“Contudo, existe algo na canção proferida que me tocou profundamente.”
“Seria a decapitação do cavaleiro, minha rainha?”, perguntou-lhe Oberon.
“Certamente. Portanto, poupar-lhes-ei a vida para que possam apresentar-se dignamente aos outros membros da corte”, e os olhos dos dois jovens encheram-se de alegria. “Agora”, prosseguiu a rainha, “terei de tomar uma decisão que muito me aflige. Chegamos ao fim desta semana e ainda não tenho as duas cabeças que me faltam. Não me resta outra alternativa senão sacrificar meus fiéis hobgoblins em nome da estética”, e ela apontou o pequeno grupo – não mais que doze – que havia lhe trazido os humanos. “Alguém há de oferecer a estes pobres servos uma arma.”
Da multidão que assistia à cena, uma espada foi lançada.
“Ótimo”, continuou Titânia. “Aquele dentre vós que me trouxer a cabeça de outros dois será devidamente recompensado. Os restantes serão enforcados”, e foi dada a sentença.
Durante as próximas duas semanas, os irmãos apresentaram-se diariamente para toda a corte de Faerie, recitando sua famosa balada: Isabela e o Cavaleiro. Tocaram diante de uma miríade de espíritos da terra, do céu, da água, do ar, e de outros tantos elementos que só existem além da neblina.
Ao fim daquele período, a senhora Titânia, um tanto contrariada, concedeu-lhes a liberdade, desfazendo o feitiço que os prendia ao seu reino. Depois de sua última apresentação, receberam do rei algumas frutas e um “boa sorte” e puseram-se a caminhar. Sem muita demora, chegaram aos Ermos e atravessaram a névoa.
Do outro lado, a noite avançava às pressas, e algumas estrelas já brilhavam no céu. Guiando-se por velas acesas na escuridão, os irmãos trilharam o caminho noite adentro até chegaram à sua vila.
Qual não foi sua surpresa ao perceberem como ela havia mudado depois das duas semanas que haviam passado em Faerie. Algumas casas foram construídas, outras derrubadas, a grama cresceu, e as estradas se multiplicaram.
Perdidos devido às recentes modificações no relevo de sua vila, os irmãos moveram-se ansiosamente por entre as construções, até que enfim encontraram o caminho de casa. Como as crianças que eram, correram esperançosos gritando por sua mãe, chorando pelo fim de sua jornada.
Contudo, quando estavam mais próximos de seu lar, notaram que sua casa estava em ruínas. Duas árvores de Ipê haviam crescido do lado de dentro e destruído o telhado e as janelas. Perguntando pelos arredores, os irmãos descobriram que os antigos moradores daquela casa já haviam se mudado fazia muitos anos.
Chocado com a descoberta, o irmão só conseguiu pensar em uma coisa para salvar a si e a sua irmã. Pôs o seu chapéu no chão e começou:
‘Isabela mirava da janela as flores…
quarta-feira, 20 de maio de 2009
De haikais
Como eu havia dito anteriormente, estava preparando um post sobre haikais. A ideia é fazer do blog algo mais do que um simples mural de histórias. Essa - e a discussão constante acerca do fazer tradutório - é uma das tentativas nessa direção.
Sei que o texto está longo e um tanto pesado, mas condensei como pude um tema dessa grandeza e magnitude.
Aproveitem a leitura!
Haikai
A poesia tradicional japonesa pode ser metricamente reduzida a seqüências de cinco e de sete sílabas, e mesmo a prosa cadenciada das narrativas poéticas mantém, como base rítmica, a alternância desses metros fundamentais.
Na poesia das antologias imperiais dos séculos X e XII, há fundamentalmente duas espécies de poemas: os naga-uta ou chôka (poemas longos), que alternam os versos de cinco e sete sílabas sem limite fixo, terminando por um dístico 7-7; e os tanka (poemas curtos), compostos no seguinte esquema: 5-7-5-7-7. A divisão que se tornou clássica (no que concerne o tanka), temos um terceto de versos imparissilábicos e um dístico parissilábico: 5-7-5/7-7. Essa observação é importante porque essa primeira estrofe é que vai, mais tarde, constituir o que usualmente designamos por haikai.
No exemplo a seguir pode-se observar a tal segmentação:
Minha velha aldeia
Sob as folhas vermelhas caídas
Aos poucos vai desaparecendo:
Nas samambaias do beiral
Como sopra o vento do outono!
Minamoto no Toshiyori (1055-1129)
No tanka, é raro que a relação entre as estrofes apresente um claro nexo lógico, sendo preferido o uso de justaposição direta de imagens (de alguma forma complementar) ou um breve comentário ou exemplificação do clima geral estabelecido na estrofe de cima. Dado que os poemas eram desenvolvidos quase que exclusivamente no ambiente da corte, esse esquema tópico/comentário permitiu e mesmo incentivou que duas pessoas desenvolvessem o tanka: uma encarregada pelo terceto 5-7-5; e outra pelo dístico 7-7.
A composição dialogada de um mesmo tanka, por sua vez, acentuou a independência das duas secções do texto, e os mestres do novo gênero – chamado renga (canto interligado) – enfatizarão que a beleza desse tipo de poesia reside principalmente no encadeamento das partes e na relação que pode ser estabelecida por elas.
A composição de tanka por pessoas diferentes tornou-se, na Era Kamakura (1186-1339), uma das principais atividades de salão da aristocracia medieval japonesa e o veículo por excelência do namoro cortesão.
Como poesia palaciana, a partir do século XIV foram estabelecidas inúmeras regras para a elaboração dos poemas, das quais as mais importantes para nós são as que se referem à primeira estrofe – o hokku –, pois elas continuam vigendo no que hoje conhecemos como haikai. O hokku deveria basicamente: ser uma estrofe longa, composta de dezessete sílabas; conter sempre uma referência à estação do ano e ao lugar onde se realizou a sessão; e ser sintaticamente completo, independente da estrofe seguinte. As outras estrofes, é claro, também conhecem diretrizes rígidas, como: aparecimento da lua em determinada estrofe, à primavera não se consagram menos de três estrofes consecutivas, certas palavras não se deveriam repetir a não ser após determinado intervalo, etc.
À medida que se esterilizava como mera atividade cortesã, o renga clássico começou a ser substituído nos meios externos à corte por um tipo de poema coletivo que, embora utilizando a mesma forma, elimina a maior parte das regras complicadas, admite o uso de palavras de origem chinesa, e se compraz no trocadilho, no dito espirituoso, no humor. Esse gênero, denominado haikai-renga (versos ligados “cômicos”, divertidos, informais) ganharia popularidade principalmente entre a ascendente classe dos comerciantes, mas seria também praticado entre soldados, monges e, até, entre nobres, em momentos em que a etiqueta da corte não imperasse.
Daí surgiu o haikai, difundindo-se pelos principais centros urbanos do país, em breve ganhando mestres e desenvolvendo tendências divergentes, que seriam mais tarde aglutinadas em “escolas” ou “maneiras”.
Sei que o texto está longo e um tanto pesado, mas condensei como pude um tema dessa grandeza e magnitude.
Aproveitem a leitura!
Haikai
A poesia tradicional japonesa pode ser metricamente reduzida a seqüências de cinco e de sete sílabas, e mesmo a prosa cadenciada das narrativas poéticas mantém, como base rítmica, a alternância desses metros fundamentais.
Na poesia das antologias imperiais dos séculos X e XII, há fundamentalmente duas espécies de poemas: os naga-uta ou chôka (poemas longos), que alternam os versos de cinco e sete sílabas sem limite fixo, terminando por um dístico 7-7; e os tanka (poemas curtos), compostos no seguinte esquema: 5-7-5-7-7. A divisão que se tornou clássica (no que concerne o tanka), temos um terceto de versos imparissilábicos e um dístico parissilábico: 5-7-5/7-7. Essa observação é importante porque essa primeira estrofe é que vai, mais tarde, constituir o que usualmente designamos por haikai.
No exemplo a seguir pode-se observar a tal segmentação:
Minha velha aldeia
Sob as folhas vermelhas caídas
Aos poucos vai desaparecendo:
Nas samambaias do beiral
Como sopra o vento do outono!
Minamoto no Toshiyori (1055-1129)
No tanka, é raro que a relação entre as estrofes apresente um claro nexo lógico, sendo preferido o uso de justaposição direta de imagens (de alguma forma complementar) ou um breve comentário ou exemplificação do clima geral estabelecido na estrofe de cima. Dado que os poemas eram desenvolvidos quase que exclusivamente no ambiente da corte, esse esquema tópico/comentário permitiu e mesmo incentivou que duas pessoas desenvolvessem o tanka: uma encarregada pelo terceto 5-7-5; e outra pelo dístico 7-7.
A composição dialogada de um mesmo tanka, por sua vez, acentuou a independência das duas secções do texto, e os mestres do novo gênero – chamado renga (canto interligado) – enfatizarão que a beleza desse tipo de poesia reside principalmente no encadeamento das partes e na relação que pode ser estabelecida por elas.
A composição de tanka por pessoas diferentes tornou-se, na Era Kamakura (1186-1339), uma das principais atividades de salão da aristocracia medieval japonesa e o veículo por excelência do namoro cortesão.
Como poesia palaciana, a partir do século XIV foram estabelecidas inúmeras regras para a elaboração dos poemas, das quais as mais importantes para nós são as que se referem à primeira estrofe – o hokku –, pois elas continuam vigendo no que hoje conhecemos como haikai. O hokku deveria basicamente: ser uma estrofe longa, composta de dezessete sílabas; conter sempre uma referência à estação do ano e ao lugar onde se realizou a sessão; e ser sintaticamente completo, independente da estrofe seguinte. As outras estrofes, é claro, também conhecem diretrizes rígidas, como: aparecimento da lua em determinada estrofe, à primavera não se consagram menos de três estrofes consecutivas, certas palavras não se deveriam repetir a não ser após determinado intervalo, etc.
À medida que se esterilizava como mera atividade cortesã, o renga clássico começou a ser substituído nos meios externos à corte por um tipo de poema coletivo que, embora utilizando a mesma forma, elimina a maior parte das regras complicadas, admite o uso de palavras de origem chinesa, e se compraz no trocadilho, no dito espirituoso, no humor. Esse gênero, denominado haikai-renga (versos ligados “cômicos”, divertidos, informais) ganharia popularidade principalmente entre a ascendente classe dos comerciantes, mas seria também praticado entre soldados, monges e, até, entre nobres, em momentos em que a etiqueta da corte não imperasse.
Daí surgiu o haikai, difundindo-se pelos principais centros urbanos do país, em breve ganhando mestres e desenvolvendo tendências divergentes, que seriam mais tarde aglutinadas em “escolas” ou “maneiras”.
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