Sinto muito pela falta de updates recentemente, mas tenho passado por uma série de dificuldades técnicas. A primeira é uma questão salutar. Eu tenho sinuzite, e o clima do Rio Grande do Sul é absolutamente inclemente, e pune severamente os mais fracos (no caso, eu). Só agora, com acesso a muitos remédios, é que estou voltando a ficar melhor. Mas nada demais, tb... Outro problema é tecnológico. Estou trocando de pc, e aparentemente, é muito difícil passar tudo o que eu tinha no antigo para o novo de forma funcional. Deve ser algo contra mim, não vejo outra explicação pras minhas máquinas viverem dando pau (vide post: Minha internet me odeia!).
Portanto, não tenho ainda o post que eu gostaria de ter escrito sobre a maravilhosamente complicada caligrafia japonesa. Mas, antes do choro da maioria, trouxe um conto que escreve há algum tempo, levemente acrescido (bem de leve), aqui exposto. Espero que gostem, e que eu melhore.
Frank
Jonas, vestindo seu tradicional jaleco branco, aproximou-se lentamente do homem na maca, admirando seu corpo nu e pálido. De pé, ele caminhou até os equipamentos ao lado da cama e começou a afiá-los.
- Sabe, Frank, eu sinto saudades suas. – Jonas começou a falar enquanto batia uma lâmina contra a outra. – Fazia tempo que não ficávamos assim, não é? De frente um pro outro, só nós dois. Bons tempos aqueles. Lembra quando você conheceu aquela mexicana, a Conchita? Não? Eu lembro. Gostosinha ela. Mas você também não era nada mal. Pena que envelhecemos, hein? – e bateu de leve no ombro do homem deitado.
- Você está frio, sabia? Frio. Se bem que eu gosto de frio. Lembra daquela nossa viagem pra Québec? Estava o que, menos trinta? E o pintinho também, menos que cinco. – e deu uma risadinha leve diante do corpo. – Que foi, não achou graça? Pois é, você sempre foi o mais comportado. – Jonas sentou-se num banquinho ao lado da maca e começou a apalpar o corpo. – Eu sempre fui o cara da sacanagem. Dá pra acreditar que eu casei? – logo, começou a cortar os dedos das mãos de Frank. – Que coisa estranha, não? Eu sempre achei que você fosse casar, construir uma família e… esse está difícil… ah… consegui. Seu dedo duro. – dessa vez, ele riu forte, admirando o dedo médio que acabara de decepar. – Viu só, é por isso que você está aqui. Tem dedos difíceis de cortar. – então, entre risos, Jonas apalpou a mão do corpo até chegar ao pulso, onde voltou a serrar.
- Eu conheci ela faz o que… uns dois, três anos? Sabe aquilo que você sempre dizia? Aquela coisa do amor, como é que era? Seus olhos são o caminho do seu coração? O caminho para o coração é através da visão? – ele terminou de cortar as mãos e foi para o bíceps. – Bom, era algo sobre amor à primeira vista. A gente sabe quando encontra a pessoa certa, não é? E foi isso mesmo o que aconteceu. Assim que nós nos olhamos, eu sabia. Ela era… nossa, não lembrava que você era tão forte. Belos músculos. Espero que meu filho seja assim. – ele terminou os braços e dirigiu-se para os ombros. – Aliás, eu te falei que vou ter um filho? Eu e a Adriana, é esse o nome da minha mulher, Adriana. Eu tinha esquecido de contar, não tinha? Hum… esse osso é difícil. Mas calma que já acabo… pronto. Dito e feito. Posso começar as pernas? Você não se importa, não é? Imaginei que não. Posso fazer os pés? Começo pelo direito, é claro. – e explodiu numa gargalhada enquanto tocava os pés.
- Bom, como eu ia dizendo, eu e ela nos apaixonamos e casamos. E agora vamos ter um filho. Eu estava pensando em dar o teu nome pra ele. Gostou da homenagem? Quer dizer, se for menino. Não dá pra ver na ecografia ainda. – Jonas serrou-lhe os dois pés e colocou-os num balde. Logo, começou a estudar os joelhos. – Faz pouco que ela está grávida. Nem dá pra notar direito. Você não faz idéia de como eu estou contente. É só nisso que eu consigo pensar. Eu vou ser pai! Não se preocupe, eu sei que você se você ainda tivesse os braços estaria me abraçando agora. – e começou a rir alto, sem conseguir se controlar. Após terminar os joelhos, foi para a virilha. – Piada maldosa, eu sei. A gente não deve chutar quem está por baixo, mas você me conhece, eu não consigo resistir. E… o que é isso que eu estou vendo… você está com frio de novo? – e voltou a rir diante do corpo. – Brincadeirinha. Eu sei o quanto você usou isso aqui. Quanta mulher. E cá entre nós, teve alguns homens também, não teve? – ele terminou de cortar as pernas e o pênis e abriu-lhe o tórax.
- Mas sabe de uma coisa, eu quero que o corpo do meu filho seja que nem o seu. Você sempre foi muito atlético. E veja aqui o seu coração. – rindo alto, Jonas guardou o órgão num saco plástico. – Eu gostaria que meu filho fosse um homem justo. De estômago forte também, não que nem o seu, que saiu com um cortezinho de nada. – e riu como antes, batendo um dos pés no chão. Suas bochechas já estavam doendo. – Admite que essa foi boa. Não? Senso de humor nunca foi uma de suas características marcantes. Isso eu espero que ele puxe de mim. Todo mundo iria gostar dele.
- Bom, agora que eu terminei por aqui, vamos para a cabeça. Eu vou rachar o seu crânio e extrair o seu cérebro. Pode doer um pouco… Bom, lá vai. – batendo forte, Jonas conseguiu quebrar-lhe o crânio e tirar o cérebro, intacto.
- Frank, seu cabeça oca. – e riu baixinho do seu comentário. – Agora, se você me dá licença, tenho que limpar tudo.
Jonas levantou-se e organizou todas as partes do corpo numa mesa ao fundo. Lavou o chão e foi trocar de avental. Demorou-se um pouco tomando banho, até que enfim voltou para a sala, vestindo um smoking. Sentou-se à mesa e, puxando um garfo e uma faca, disse:
- Então, por onde eu começo?
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quinta-feira, 9 de julho de 2009
terça-feira, 23 de junho de 2009
Minha internet me odeia!
Caros leitores:
Minha internet odeia a mim, à minha alma, e tudo o que há entre elas. Aparentemente, qualquer coisa remotamente relacionada com conexão a cabo é tomado por um ódio incontido e continuado ao meu ser, então expresso na forma de ineficácia, descontinuidade, interrupção, bugs, problemas gerais. Atualmente, só o fato de eu conseguir entrar no site já é uma proeza, que dirá atualizá-lo.
Espero deixar claro que minha ausência holística (internet, e-mail, msn, blog, etc) fique esclarecida com o nome do post.
Boa noite...
Minha internet odeia a mim, à minha alma, e tudo o que há entre elas. Aparentemente, qualquer coisa remotamente relacionada com conexão a cabo é tomado por um ódio incontido e continuado ao meu ser, então expresso na forma de ineficácia, descontinuidade, interrupção, bugs, problemas gerais. Atualmente, só o fato de eu conseguir entrar no site já é uma proeza, que dirá atualizá-lo.
Espero deixar claro que minha ausência holística (internet, e-mail, msn, blog, etc) fique esclarecida com o nome do post.
Boa noite...
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
2/2
Posto aqui o segundo texto curto que escrevi recentemente. Foi escrito nos mesmos moldes e é, talvez, o predecessor do outro. Muito provavelmente. hehehe
Antes, contudo, eu gostaria de "prestar um esclarecimento"; apesar de eu achar que um autor não deveria ter de explicar o seu texto, vou abrir uma exceção, até porque, talvez só eu note um "sutileza" que tentei empregar.
Lendo os comentários, vi que um me disse que "me perdi na descrição, e deveria ter investido mais na situação". Como eu disse antes, esses textos são como um experimento lingüístico, e uma experiência que eu fiz - que considero apenas parcialmente satisfatória, mas foi um bom aprendizado - foi usar o cenário, o meio, como metáfora para o enredo. Tentar passar, através do cenário, a emoção, a sensação e a história do que está acontecendo. Por isso um quarto fechado e escuro, que mal permite luz. E quando permite, nunca é o bastante para compreender o outro, servindo apenas para tragar o seu cheiro - e não mais. Ou o fogo da paixão que é inevitavelmente consumido pela escuridão do quarto, esse "eu" que não se abre nem se permite mais.
Vamos ver como ficou este segundo texto, portanto.
Relógio
Ela organizava as malas fingindo um consentimento, uma calma, sem perceber que suas mãos, desobedientes como eram, entregavam o seu nervosismo; sem notar que os seus lábios cor de amor trajavam um tom mais semelhante à escusa e à descrença. Seus olhos levemente avermelhados organizavam as roupas diante de si, dobrando tudo com pesar e dedicação.
Ela olhou o relógio a um canto: 15:30. Engoliu em seco.
Foi até a cômoda e tomou um porta-retrato rapidamente entre os dedos, jogando-o na mala com pressa, como se não quisesse que alguém testemunhasse o ato. Sequer olhou a foto ali presa. Já sem demora, cobriu-a com um punhado de roupas amarrotadas, escondendo o seu conteúdo.
O relógio agora apontava 15:32. Dois minutos. Dois minutos.. Dois...
Quantos mais?
Tirou de sua bolsa um cartão que havia escolhido para uma ocasião especial e colocou-o à escrivaninha. Ainda ela podia sentir o calor e o sentimento que o haviam motivado. Eles bailavam pelo ar diante dela, irritando ainda mais os seus olhos.
Trancando a respiração, olhou uma vez mais para o relógio: 15:33.
Sentou-se na poltrona e ficou olhando pela janela, movendo suas mãos agitadas uma contra a outra, deixando escapar naquele gesto um pouco de si. Uma parte que ela não recuperaria mais.
O sol claro – muito mais do que deveria – fazia especial esforço naquele dia. Nem o seu cabelo escuro pôde resistir, refletindo como um espelho uma pequena dose de castanho.
15:36
Ela enfim levantou-se, não podendo mais quedar-se ali. Fechou a mala, ouvindo-a gritar tão alto como nunca. Um som estridente jorrava do zíper como uma cascata, até que secou. Ela já estava saindo quando se deu conta da última coisa que deveria fazer. Voltou-se para a janela com a intenção de fechá-la por inteiro, de nunca mais permitir que um tom castanho fosse refletido. Contudo, restou uma pequena fresta pela qual um filete acinzentado invadia o seu santuário e marginzalizava-o com sua presença. Ela o encarou com pesar e, viu, por ele, 15:37.
Fechou a porta atrás de si.
Antes, contudo, eu gostaria de "prestar um esclarecimento"; apesar de eu achar que um autor não deveria ter de explicar o seu texto, vou abrir uma exceção, até porque, talvez só eu note um "sutileza" que tentei empregar.
Lendo os comentários, vi que um me disse que "me perdi na descrição, e deveria ter investido mais na situação". Como eu disse antes, esses textos são como um experimento lingüístico, e uma experiência que eu fiz - que considero apenas parcialmente satisfatória, mas foi um bom aprendizado - foi usar o cenário, o meio, como metáfora para o enredo. Tentar passar, através do cenário, a emoção, a sensação e a história do que está acontecendo. Por isso um quarto fechado e escuro, que mal permite luz. E quando permite, nunca é o bastante para compreender o outro, servindo apenas para tragar o seu cheiro - e não mais. Ou o fogo da paixão que é inevitavelmente consumido pela escuridão do quarto, esse "eu" que não se abre nem se permite mais.
Vamos ver como ficou este segundo texto, portanto.
Relógio
Ela organizava as malas fingindo um consentimento, uma calma, sem perceber que suas mãos, desobedientes como eram, entregavam o seu nervosismo; sem notar que os seus lábios cor de amor trajavam um tom mais semelhante à escusa e à descrença. Seus olhos levemente avermelhados organizavam as roupas diante de si, dobrando tudo com pesar e dedicação.
Ela olhou o relógio a um canto: 15:30. Engoliu em seco.
Foi até a cômoda e tomou um porta-retrato rapidamente entre os dedos, jogando-o na mala com pressa, como se não quisesse que alguém testemunhasse o ato. Sequer olhou a foto ali presa. Já sem demora, cobriu-a com um punhado de roupas amarrotadas, escondendo o seu conteúdo.
O relógio agora apontava 15:32. Dois minutos. Dois minutos.. Dois...
Quantos mais?
Tirou de sua bolsa um cartão que havia escolhido para uma ocasião especial e colocou-o à escrivaninha. Ainda ela podia sentir o calor e o sentimento que o haviam motivado. Eles bailavam pelo ar diante dela, irritando ainda mais os seus olhos.
Trancando a respiração, olhou uma vez mais para o relógio: 15:33.
Sentou-se na poltrona e ficou olhando pela janela, movendo suas mãos agitadas uma contra a outra, deixando escapar naquele gesto um pouco de si. Uma parte que ela não recuperaria mais.
O sol claro – muito mais do que deveria – fazia especial esforço naquele dia. Nem o seu cabelo escuro pôde resistir, refletindo como um espelho uma pequena dose de castanho.
15:36
Ela enfim levantou-se, não podendo mais quedar-se ali. Fechou a mala, ouvindo-a gritar tão alto como nunca. Um som estridente jorrava do zíper como uma cascata, até que secou. Ela já estava saindo quando se deu conta da última coisa que deveria fazer. Voltou-se para a janela com a intenção de fechá-la por inteiro, de nunca mais permitir que um tom castanho fosse refletido. Contudo, restou uma pequena fresta pela qual um filete acinzentado invadia o seu santuário e marginzalizava-o com sua presença. Ela o encarou com pesar e, viu, por ele, 15:37.
Fechou a porta atrás de si.
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
1/2
Escrevi dois textos (curtos) recentemente - mais por impulso que por qualquer outra coisa. Não sei porque, mas tive que escrevê-los e trabalhá-los. Não são contos, ao menos pela minha concepção. Eu os considero mais um experimento lingüístico (se bem que tem tanta coisa que a Virgina Woolf escreveu e os professores de literatura juram que é conto...), e resolvi publicá-los aqui, até como um exercício. Assim ouço quem quiser comentar e seus respectivos "pitacos". hehehe
Eis o primeiro:
Cartão
Ele entrou no quarto escuro, percorrendo vagarosamente o seu interior. Guiando-se por entre os poucos móveis, chegou à escrivaninha. A janela entreaberta permitia a entrada de uma luz pálida, projetando-se em filetes inconstantes dentro do cômodo. Uma penumbra leve e suave encobria-o, abafando o som de seus passos e ecoando ao ritmo de sua respiração.
Ele estendeu a mão e puxou um pedaço de papel sobre a escrivaninha; o cheiro dela espalhou-se repentinamente pelo ar, iluminando o quarto com sua cor adocicada. Ele ergueu a mão e levantou a persiana, permitindo que mais luz adentrasse o vazio.
O seu rosto foi banhado por uma coloração de mofo prateada, revelando o leve desgosto de seus olhos pardos. Um quê de arrependimento flutuou pelo ambiente, transformando o doce em amargo e o prata em negro.
O pedaço de papel era um envelope claro – assinado por ela, como ele já havia antecipado – dentro do qual haveria sua mensagem. Ele não precisava ler o que estava escrito. Tomou o cartão por entre as mãos e abriu-o, empurrando-o contra o nariz, tentando tragar até a última gota do perfume. Um gosto gelado invadiu-o de repente.
Fechou, então, o cartão, e guardou-o novamente no envelope. Depositou-o gentilmente sobre a mesa e sob uma luz inconstante, que teimava em tremular contra a sombra. Um tom vermelho escapava a cada bruxulear, topando com a escuridão. Não demorou muito até ser completamente devorado por ela; ao fim do que, ele fechou a janela e deixou o quarto.
E o cartão, mesmo insatisfeito com o próprio destino, deixou-se estar, e até hoje guarda pó na gélida escuridão.
Eis o primeiro:
Cartão
Ele entrou no quarto escuro, percorrendo vagarosamente o seu interior. Guiando-se por entre os poucos móveis, chegou à escrivaninha. A janela entreaberta permitia a entrada de uma luz pálida, projetando-se em filetes inconstantes dentro do cômodo. Uma penumbra leve e suave encobria-o, abafando o som de seus passos e ecoando ao ritmo de sua respiração.
Ele estendeu a mão e puxou um pedaço de papel sobre a escrivaninha; o cheiro dela espalhou-se repentinamente pelo ar, iluminando o quarto com sua cor adocicada. Ele ergueu a mão e levantou a persiana, permitindo que mais luz adentrasse o vazio.
O seu rosto foi banhado por uma coloração de mofo prateada, revelando o leve desgosto de seus olhos pardos. Um quê de arrependimento flutuou pelo ambiente, transformando o doce em amargo e o prata em negro.
O pedaço de papel era um envelope claro – assinado por ela, como ele já havia antecipado – dentro do qual haveria sua mensagem. Ele não precisava ler o que estava escrito. Tomou o cartão por entre as mãos e abriu-o, empurrando-o contra o nariz, tentando tragar até a última gota do perfume. Um gosto gelado invadiu-o de repente.
Fechou, então, o cartão, e guardou-o novamente no envelope. Depositou-o gentilmente sobre a mesa e sob uma luz inconstante, que teimava em tremular contra a sombra. Um tom vermelho escapava a cada bruxulear, topando com a escuridão. Não demorou muito até ser completamente devorado por ela; ao fim do que, ele fechou a janela e deixou o quarto.
E o cartão, mesmo insatisfeito com o próprio destino, deixou-se estar, e até hoje guarda pó na gélida escuridão.
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