domingo, 24 de maio de 2009

Faerie (parte 2 de 2)

Sei que faz tempo, mas prometi que traria a segunda e última parte de Faerie (que, para ser sincero, tenho dúvidas quanto ao título. Pensava em nomear esse conto "Isabela e o Cavaleiro". O que vocês acham?). É uma história bem menos séria e mais divertida (creio eu) do que o habitual. Acho que é por isso mesmo que gosto tanto dela. Foge um pouco do meu tradicional, apesar de ainda manter a identidade.
Bom, espero muitos comments (sem pressão, hem?). hehehe

Faerie... 2


De volta ao palácio com o menino e a menina, já despertos, os servos não perderam tempo em levá-los diretamente à presença de Oberon e Titânia. Ao longo dos corredores percorridos, passaram por paredes decoradas por uma coleção infindável de cabeças penduradas, uma visão normalmente terrível e apavorante; mas estavam tão bem distribuídas, dispostas de forma tão clara e agradável que dava até vontade de ficar olhando… Mas não podiam. O rei e a rainha tinham pressa: exigiam música já – e degola em breve.
Os dois irmãos, então, viram-se em frente às figuras mais importantes do outro lado da neblina, Rei Oberon e Rainha Titânia, altos e belos, igualmente cruéis. Há centenas de anos um ser humano não punha os pés naquele palácio, e lá estavam eles, prestes a cantar por suas cabeças. Ambos governantes sentados, esperando pela apresentação, e os irmãos entreolharam-se. "Está pronto?", um perguntou ao outro.
"Cantaremos a história de Isabela e o Cavaleiro."
Silêncio.
"Ahem…”

Isabela mirava da janela as flores
que refletiam em si do sol os raios,
e o cavaleiro tocava em sua harpa as dores.
Era a primeira manhã de maio.

‘Ah, Cavaleiro, se eu pudesse ao menos tê-lo,
no meu doce colo a tocar’, disse a bela donzela,
admirando o mar.

‘Só de ouvir esse desejo,
que posso eu se não fazê-lo
com cada ar que respirar?
Tu, que és tamanha beldade,
atende-me nesta vontade:
Vem comigo a cavalgar’.

E ao som daquela melodia
Isabela notou que não podia
àquele desejo resistir.

Subiu então no seu cavalo,
com o cavaleiro ao lado,
para, com ele, partir.

Chegando à margem da floresta,
entraram por uma clareira deserta
E o cavaleiro rosnou o seu bramido:

‘Isabela, Isabela,
Chegamos ao lugar de teu último suspiro.
A próxima vítima serás da minha clava.
Pois as minhas últimas sete esposas,
Matei-as todas. E tu serás a oitava. ’

‘Piedade, piedade, tenha o senhor de mim.
Minha família ainda pretendo ver,
se possível antes do fim.
Deve estar cansado, por isso eu lhe imploro
Deite a espada no chão, e a cabeça no meu colo. ’

Ela acariciou o seu cabelo, fazendo o sono surgir.
E com um pequeno feitiço, botou-o logo a dormir.

E o cavaleiro caiu num sono profundo,
sem reparar por um segundo no plano de Isabela.
Ela pegou sua espada torta,
que de tantas princesas mortas,
já brilhava com sangue azul.
E num movimento certeiro, decapitou o cavaleiro
que morava na floresta ao Sul.

Levantando-se da poça ensangüentada,
nossa donzela aprisionada, mirou o morto e falou:

‘Se sete princesas você aqui matou,
Seja delas o marido, já que sua não sou. ’



Quando terminaram de cantar a balada, os dois irmãos olharam ansiosos para o rei e a rainha, esperando o veredicto. Os soberanos, no entanto, sequer esboçaram reação; voltaram-se um para o outro e passaram a conversar em cochichos. Foi uma troca breve de palavras, mas o tempo parecia distender-se e desprender-se, transformando minutos em horas e momentos em eterna agonia de espera.
Enfim, depois de conjeturar, Lady Titânia levantou-se e começou a aplaudir.
“Parabéns”, ela disse, deixando as crianças em estado de euforia, “meus fiéis hobgoblins. Fizeram exatamente o que eu lhes ordenara. Trouxeram-nos dois menestréis belos como o orvalho e que, claramente, pouco entendem de música.”
“Nada”, completou Oberon.
Os murmúrios de comemoração dos servos já se pronunciavam no salão, extasiando os súditos de Faerie com mais um espetáculo de decapitação a se seguir, até que a rainha voltou a se pronunciar:
“Contudo, existe algo na canção proferida que me tocou profundamente.”
“Seria a decapitação do cavaleiro, minha rainha?”, perguntou-lhe Oberon.
“Certamente. Portanto, poupar-lhes-ei a vida para que possam apresentar-se dignamente aos outros membros da corte”, e os olhos dos dois jovens encheram-se de alegria. “Agora”, prosseguiu a rainha, “terei de tomar uma decisão que muito me aflige. Chegamos ao fim desta semana e ainda não tenho as duas cabeças que me faltam. Não me resta outra alternativa senão sacrificar meus fiéis hobgoblins em nome da estética”, e ela apontou o pequeno grupo – não mais que doze – que havia lhe trazido os humanos. “Alguém há de oferecer a estes pobres servos uma arma.”
Da multidão que assistia à cena, uma espada foi lançada.
“Ótimo”, continuou Titânia. “Aquele dentre vós que me trouxer a cabeça de outros dois será devidamente recompensado. Os restantes serão enforcados”, e foi dada a sentença.

Durante as próximas duas semanas, os irmãos apresentaram-se diariamente para toda a corte de Faerie, recitando sua famosa balada: Isabela e o Cavaleiro. Tocaram diante de uma miríade de espíritos da terra, do céu, da água, do ar, e de outros tantos elementos que só existem além da neblina.
Ao fim daquele período, a senhora Titânia, um tanto contrariada, concedeu-lhes a liberdade, desfazendo o feitiço que os prendia ao seu reino. Depois de sua última apresentação, receberam do rei algumas frutas e um “boa sorte” e puseram-se a caminhar. Sem muita demora, chegaram aos Ermos e atravessaram a névoa.
Do outro lado, a noite avançava às pressas, e algumas estrelas já brilhavam no céu. Guiando-se por velas acesas na escuridão, os irmãos trilharam o caminho noite adentro até chegaram à sua vila.
Qual não foi sua surpresa ao perceberem como ela havia mudado depois das duas semanas que haviam passado em Faerie. Algumas casas foram construídas, outras derrubadas, a grama cresceu, e as estradas se multiplicaram.
Perdidos devido às recentes modificações no relevo de sua vila, os irmãos moveram-se ansiosamente por entre as construções, até que enfim encontraram o caminho de casa. Como as crianças que eram, correram esperançosos gritando por sua mãe, chorando pelo fim de sua jornada.
Contudo, quando estavam mais próximos de seu lar, notaram que sua casa estava em ruínas. Duas árvores de Ipê haviam crescido do lado de dentro e destruído o telhado e as janelas. Perguntando pelos arredores, os irmãos descobriram que os antigos moradores daquela casa já haviam se mudado fazia muitos anos.
Chocado com a descoberta, o irmão só conseguiu pensar em uma coisa para salvar a si e a sua irmã. Pôs o seu chapéu no chão e começou:
‘Isabela mirava da janela as flores…

quarta-feira, 20 de maio de 2009

De haikais

Como eu havia dito anteriormente, estava preparando um post sobre haikais. A ideia é fazer do blog algo mais do que um simples mural de histórias. Essa - e a discussão constante acerca do fazer tradutório - é uma das tentativas nessa direção.
Sei que o texto está longo e um tanto pesado, mas condensei como pude um tema dessa grandeza e magnitude.
Aproveitem a leitura!

Haikai
A poesia tradicional japonesa pode ser metricamente reduzida a seqüências de cinco e de sete sílabas, e mesmo a prosa cadenciada das narrativas poéticas mantém, como base rítmica, a alternância desses metros fundamentais.
Na poesia das antologias imperiais dos séculos X e XII, há fundamentalmente duas espécies de poemas: os naga-uta ou chôka (poemas longos), que alternam os versos de cinco e sete sílabas sem limite fixo, terminando por um dístico 7-7; e os tanka (poemas curtos), compostos no seguinte esquema: 5-7-5-7-7. A divisão que se tornou clássica (no que concerne o tanka), temos um terceto de versos imparissilábicos e um dístico parissilábico: 5-7-5/7-7. Essa observação é importante porque essa primeira estrofe é que vai, mais tarde, constituir o que usualmente designamos por haikai.
No exemplo a seguir pode-se observar a tal segmentação:

Minha velha aldeia
Sob as folhas vermelhas caídas
Aos poucos vai desaparecendo:
Nas samambaias do beiral
Como sopra o vento do outono!

Minamoto no Toshiyori (1055-1129)

No tanka, é raro que a relação entre as estrofes apresente um claro nexo lógico, sendo preferido o uso de justaposição direta de imagens (de alguma forma complementar) ou um breve comentário ou exemplificação do clima geral estabelecido na estrofe de cima. Dado que os poemas eram desenvolvidos quase que exclusivamente no ambiente da corte, esse esquema tópico/comentário permitiu e mesmo incentivou que duas pessoas desenvolvessem o tanka: uma encarregada pelo terceto 5-7-5; e outra pelo dístico 7-7.
A composição dialogada de um mesmo tanka, por sua vez, acentuou a independência das duas secções do texto, e os mestres do novo gênero – chamado renga (canto interligado) – enfatizarão que a beleza desse tipo de poesia reside principalmente no encadeamento das partes e na relação que pode ser estabelecida por elas.
A composição de tanka por pessoas diferentes tornou-se, na Era Kamakura (1186-1339), uma das principais atividades de salão da aristocracia medieval japonesa e o veículo por excelência do namoro cortesão.
Como poesia palaciana, a partir do século XIV foram estabelecidas inúmeras regras para a elaboração dos poemas, das quais as mais importantes para nós são as que se referem à primeira estrofe – o hokku –, pois elas continuam vigendo no que hoje conhecemos como haikai. O hokku deveria basicamente: ser uma estrofe longa, composta de dezessete sílabas; conter sempre uma referência à estação do ano e ao lugar onde se realizou a sessão; e ser sintaticamente completo, independente da estrofe seguinte. As outras estrofes, é claro, também conhecem diretrizes rígidas, como: aparecimento da lua em determinada estrofe, à primavera não se consagram menos de três estrofes consecutivas, certas palavras não se deveriam repetir a não ser após determinado intervalo, etc.
À medida que se esterilizava como mera atividade cortesã, o renga clássico começou a ser substituído nos meios externos à corte por um tipo de poema coletivo que, embora utilizando a mesma forma, elimina a maior parte das regras complicadas, admite o uso de palavras de origem chinesa, e se compraz no trocadilho, no dito espirituoso, no humor. Esse gênero, denominado haikai-renga (versos ligados “cômicos”, divertidos, informais) ganharia popularidade principalmente entre a ascendente classe dos comerciantes, mas seria também praticado entre soldados, monges e, até, entre nobres, em momentos em que a etiqueta da corte não imperasse.
Daí surgiu o haikai, difundindo-se pelos principais centros urbanos do país, em breve ganhando mestres e desenvolvendo tendências divergentes, que seriam mais tarde aglutinadas em “escolas” ou “maneiras”.

terça-feira, 12 de maio de 2009

De volta...

Olá a todos, e perdão pela demora. Acho que já está na hora de voltar.
Eu estive muito atarefado recentemente (quem me acompanha no twitter sabe que, além de trabalhos, tenho acompanhado o Grêmio e jogado Chrono Trigger, o que consome tempo...)
Eu havia prometido à Adri um update até, no máximo, ontem. Evidentemente, as coisas não sairam como planejado. Pelo menos deu tempo de o pessoal ver o meu design novo e comentar. hehehe
Bom, eu sempre tenho planos de dar grandes e demorados discursos acerca de tradução ou de outro tópico, a cultura japonesa (para quem não sabe, sou um estudante de Tradução- ênfase em Português-Japonês! Fez sentido agora, né?).
Estou preparando um pequeno post sobre haikais, aliás (inspirado no site http://www.flor-de-gelo.blogspot.com/, da minha amiga e companheira blogeira, Gerusa Leal!).
Contudo, neste momento, eu decidi fazer apenas um comentário sobre algo que, já faz algum tempo, vem me incomodando. Por que, em traduções, as pessoas dizem que o tradutor não pode interpretar errado o original? Afinal, interpretar já implica uma leitura própria, única, que tem a ver com a pessoa que está lendo/vendo/ouvindo. Não é assim que fazem nas músicas? A nona sinfonia, interpretada pela orquestra sinfônica de Porto Alegre, por exemplo (perdoem-me, músicos...). A interpretação já implica outra leitura, como algo parecido, porém diferente. Uma releitura, por assim dizer, do que foi feito.
Pois, na tradução, se dá o mesmo. É uma leitura que o tradutor faz da obra original. Por que, então, desse “auê” todo para cima do tradutor?
Bom, podemos já começar desmentindo o meu exemplo sobre música. Por mais que você possa ouvir uma música antiga interpretada por um artista novo, você ainda tem acesso à música antiga. No caso da tradução, o público em geral só tem acesso à obra traduzida, à nova interpretação. Mas eu cheguei também a conclusões próprias. Uma delas vem da própria educação que nós recebemos no colégio.
Lá, aprendemos o modo “certo” de interpretar Machado de Assis, José de Alencar, Guimarães Rosa, etc. Aprendemos que a obra se interpreta assim, e ponto final. Portanto, se só há uma interpretação, só deve haver, também, uma tradução. Só há um jeito de se interpretar, todo o resto não passa de um desvio.
Porém, o que devemos lembrar é o seguinte: o texto original é hermético, fechado, difícil e inacessível para os leitores daqui. É trabalho do tradutor, por outro lado, torná-lo aberto, fácil e acessível. O dever dele é, justamente, mudar o texto original para que seja bem compreendido em sua língua. Se ele não mudar o texto, ele continuará hermético, difícil etc. Além do que, em 100% dos casos, uma tradução ruim é melhor do que não haver tradução.
Pensem nisso...

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Pequena Mudança

Faz algum tempo que eu tinha vontade de mudar o design do blog, e devido a sucessivas intimações e pressões de pessoas próximas a mim (Siane, estou olhando pra você!), resolvi que era hora de fazer algo a respeito.
Ainda não sei se é esse o modelo, acho que ainda vou trabalhar com as cores, mas acho que o design ficou melhor, mesmo. Algo mais limpo, menos sombrio, mais claro e alegre (e o que é a vida sem uma pitada de cor, não é verdade?).
Espero que aproveitem o feirado.
Ah, antes que eu esqueça, criei uma conta no twitter. Eu estou logado como ma_almeida.
Quem quiser me encontrar, é só procurar (e me ensinar a usar esse troço. hehehe)
Bom feriadão a todos.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Faerie (parte 1 de 2)

Esse conto eu comecei a escrever faz muito tempo (pela metade do ano passado). Curiosamente, o que eu queria fazer não era um conto, era uma tradução. Nas minhas leituras pela internet me deparei uma música que gostei bastante (uma balada) que era bem curtinha, e fiquei com vontade de traduzí-la para o português. Só que eu acho traduzir esse tipo de coisa muito difícil, ainda mais sem contexto. Daí eu escrevi um conto, do qual essa balada faz parte, para contextualizar e facilitar o trabalho.
No fim das contas, tenho a parte em prosa já terminada, mas a tradução ainda está meio pendenga. Contudo, como achei que era hora de dar um jeito daquilo, resolvi postar aqui por dois motivos: 1) achei a prosa divertida, e já tinha vontade de mostrar pra alguém; 2) se eu não me forçar, não termino nunca de traduzir a balada.
Eis, então, o que se passa. Não se preocupem, esse conto é bem menor que o último (são só 2 partes).
Eis:

Faerie

Na corte do rei Oberon, muitas baladas são tocadas. E ele, um senhor justo e terrível, pune os trovadores que não o aprazem com a morte. Infelizmente, até hoje não houve canção que agradasse aos seus ouvidos, e ele requer menestréis semanalmente.
As mortes são fartas e previsíveis, e as paredes de seu palácio são decoradas com as cabeças dos músicos fracassados de seu reino.
Sua esposa, a senhora Titânia, é linda e cruel. Ela é a responsável pelas apresentações semanais. Sua parte favorita é a decapitação. Felizmente, seu senso estético lhe permite dispor as cabeças de forma limpa e agradável. Ela faz questão que apenas os jovens e belos sejam chamados para tocar para o seu senhor. E que, de preferência, não entendam muito de música.
Semana passada, ela descabeçou uma pobre ninfa, que não sabia cantar nem dançar, e que, para salvar a própria vida, tentou agradar lorde Oberon usando sua língua para outras coisas que não envolvessem música. Lady Titânia ficou tão enfurecida pela audácia da ninfa (e pelo fato de seu marido ter aprovado seus dotes), que ordenou que ela agradasse da mesma forma todos os servos do palácio e que, depois, ajudasse a esquentar a água do banho de seu soberano mergulhando sua língua nas brasas reais. Não satisfeita, a senhora de Faerie determinou que seus olhos fossem arrancados e usados como carvão antes de ordenar sua execução. Sua cabeça é a única que não foi posta na parede para ser usada como decoração. Ao invés disso, ela é guardada como exemplo àqueles que tiverem idéias similares.
Exatamente por isso, está faltando uma cabeça na parede, e a senhora Titânia exigiu que houvesse, essa semana excepcionalmente, a apresentação de dois menestréis. E enviou os seus arautos para que encontrassem trovadores de talento inversamente proporcional a sua beleza. E que fossem bonitos. Muito bonitos.
Então, seus hobgoblins saíram por toda Faerie em busca de alguém para convocar em nome do rei Oberon e sua corte. E passaram por elfos, trolls, pixies, dixies, selpies, kelpies, sprites, brownies, boggarts, kobolds, gnomos, ninfas, anões, e outros tantos habitantes do reino das fadas, mas nenhum deles fazia jus ao que a rainha queria. Ou não eram belos o bastante, ou tocavam bem demais.
E quase ao fim da semana (que, para sua sorte, tem dez dias em Faerie), viram vagando pelos Ermos dois jovens humanos, um menino e uma menina, que buscavam frutas encantadas para levar para casa.
Poucas maçãs são tão vermelhas, morangos são tão doces, e pêssegos são tão suculentos quanto aqueles permeados pela influência mágica da corte de Oberon e Titânia. Mais do que elas, apenas as frutas criadas no coração de Faerie, no jardim real, servidas pessoalmente aos lordes do reino. Muitas são as histórias de mortais que adentraram os domínios ancestrais das fadas buscando o sabor sobrenatural de suas amoras. Poucas são as que narram do seu retorno.
Impressionados com a beleza daqueles dois jovens – que eram os primeiros humanos em séculos a colocar os pés naquela terra –, os servos de Titânia trataram logo de elaborar um plano para levá-los a sua rainha sem despertar suspeitas entre os homens. Procuraram rapidamente duas árvores de Ipê e serraram seus troncos. Então, começou o seu ritual.
Juntos, os hobgoblins glamourizaram os troncos serrados, vendo-os crescer lentamente. Primeiro, nasceram as pernas: formaram-se os joelhos, cresceram os pés e os dedos, um a um. Depois, brotaram os braços: ombros, cotovelos, mãos e dedos. A cabeça foi a última, e quando estava completamente formada, abriram-se os olhos. Ao seu redor, os hobgoblins apontavam os jovens que os Ipês deveriam substituir.
Os dois troncos, então, com suas mãos, agarraram o próprio corpo e abriram-no como a uma casca. Tal qual borboletas que abandonam o casulo, saíram as crianças de dentro dos troncos: seus cachos dourados, pele branca e sensível, os seios ainda pequenos e a genitália loura. Estavam prontos para assumir o seu papel, e os hobgoblins providenciaram os últimos arranjos. Glamourizaram algumas frutas e jogaram-nas para os jovens que, ingenuamente, comeram-nas. O encantamento conjurado atiçou-lhes o sono, e caíram desacordados, derrubando sua cesta de frutas. E, finalmente, para os Ipês, agora transformados, eles conjuraram roupas como as dos dois humanos, para que tomassem seu lugar na Terra sem levantar suspeitas.
Os Ipês pegaram a cesta do chão para levá-la consigo enquanto os hobgoblins enfeitiçavam as duas crianças para que não pudessem mais retornar ao seu lar. Faeria seria sua nova casa, mas não por muito tempo. Teriam a duração exata de uma balada.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Agradecimentos, naturalmente

Como eu havia dito antes, planejava fazer um post com agradecimentos. Aí pode vir a pergunta: agradecimentos pelo que, exatamente.
A resposta é algo que eu considero bastante simples. Talvez simples demais para os leitores, mas bastante significativo para mim.
Vejam bem, eu só criei o blog pensando em escrever minhas coisas, postar aqui, e ver comentários. Até para poder melhorar. Mas o que aconteceu é que o blog, ao menos para mim, hoje é muito mais do que isso. Conheci algumas pessoas muito interessantes pela internet, donos de outros domínios, que também têm muito conteúdo (e bom). Pessoas que me deram apoio, gente que me xingou, que comentou uma vez depois nunca mais, etc. Mas a verdade é que esse projeto do blog, cujo ápice recente foi o Mito da Criação, não estaria aqui hoje sem essas pessoas e seus comentários. Até porque, esse é um lugar que me estimula a escrever continuamente. No último post, creio que isso ficou bastante explícito.
Bom, quanto a essas pessoas, ei-las:

Adri. Não são necessárias mais palavras. Só o nome dela já é o bastante!
Brincadeiras à parte, grande amiga que conheci meio que por acaso na facul e com quem mantive uma amizade bem divertida pelo msn, q depois foi levada para a vida real. Imaginem, estudávamos juntos, mas foi o msn que nos uniu. Obrigado por tudo ;)

Hermes. Um dois primeiros que veio aqui e que "falou mal" de um dos meus contos. E como não sou um desses escritores cuzões que acham que todo mundo tem que falar bem, li o que ele escreveu e tenho de dizer que concordei. E ainda fui pro blog dele para ver como era. Muito obrigado pela honestidade.

Gerusa. Eis aqui uma poeta. Sempre que leio os escritos dela, vejo o quanto falta melhorar para ser bom mesmo. Serve de inspiração e estímulo para que eu continue a escrever. Nao bastasse isso, ainda me mandou o livro dela, Versilêncios, recém lacçado. Gente, não sou de poesias, mas esse aí vale a pena. Leiam!

Marina. Do blog, Do fundo do Mar, que veio aqui e foi a primeira blogueira de qualidade que conheci (depois da Adri, claro). Leio tudo o que ela escreve, mas nem sempre comento. Às vezes não tenho nada de construtivo, mas sempre me divirto. Vale a pena!

Siane. Last but not least, minha namorada. Que foi quem meio que me forçou a criar este blog (apesar da minha má vontade inicial) e me fez correr atrás de muita coisa (na minha vida pessoal mesmo). Te devo muito, minha linda ;) E ela tem blog, também.

Esses são os mais importantes, certamente, que vêm acompanhando com alguma frequência, e sempre que podem, deixam comments.

Agora, um agradecimento a você, seu aleatório, que vem aqui, lê, dá o sei pitaco, e some! E às vezes volta! Aí volta a sumir! Obrigado por sua participação e por aumentar a contagem de visitas do blog.
Pode parecer gozação, mas é verdade. Todos são bem-vindos, e quanto mais, melhor!

Só não coloco os links porque estou com preguiça agora. Vocês sobrevivem, tenho certeza

Um abraço, e até o próximo projeto semana que vem!

segunda-feira, 23 de março de 2009

Voltei (mais ou menos) ou Mais um blablablá sobre tradução

Olá a todos os piolhos, carrapatos e traças que frequentamo meu blog. Olá a todos os seres unicelulares que passam pelo meu computador, perfurando a rede interna com sua presença despercebida e, bem, única... Mas, principalmente, olá a todos os que leem o conteúdo que este autor aqui tanto se esforça em criar e escrever.
Como eu havia dito na última parte, tinha que tirar um descanço: as aulas estavam começando, estava meio sem ideias, trabalhos estavam ficando fixos, etc. Bom, tudo isso continua, mas agora eu consegui me organizar. Mais ou menos. O motivo principal que me traz de volta, contudo, não tem nada a ver com o que foi dito. Não.
O que me traz aqui novamente é o que eu percebi recentemente. Como eu disse vez e outra por aqui, eu sou um tradutor. Atualmente, apenas de trabalhos manuscritos, mas o objetivo é fazer um "upgrade" para a interpretação. Além de publicar, é claro. Mas o trabalho que mais me consome tempo agora é o da tradução de um romance. É um livro infantil, nos moldes de um Harry Potter/Coração de Tinta. Acho que isso resume bem a questão. Tenho traduzido bastante, feito mudanças, escolhas, reescrito, tudo isso inerente ao ato tradutório. Eu poderia encher uma página com teorias de tradução que aprendi na Faculdade, mas não creio ser necessário. Qualquer questão pontual que haja, posso me debruçar sobre ela mais detalhadamente em outro momento. O que me refiro agora é muito mais simples, mais primitivo que qualquer uma dessas teorias. Concerne, isso sim, ao ato da escrita.
Vejam bem, tenho diversos colegas na Letras (é o meu curso de graduação) que pregam que, quando lemos uma tradução, não lemos o escritor, e sim o tradutor. É a visão dele da história, da linguagem, são as escolhas que ele faz que vão parar na versão traduzida. Eu sou um pouco mais brando. Pessoalmente, eu vejo a tradução como um trabalho de co-autoria do tradutor. Ele se envolve com a trama, com os personagens, com a linguagem, com o tecido da obra (se é que tal expressão pode ser empregada). E a conhece tão intimamente que tem, sim, parcela de responsabilidade por seu conteúdo.
Contudo, traduzindo, vê-se que, por mais co-autor que eu seja, aquilo não é meu. Estou gostando de "auxiliar" a autora e transformar sua história e tudo o que lhe compete em algo genuinamente brasileiro, fruto da cor local, e não num turista genérico cheio de sotaque.
Contudo, repito, esse trabalho não é meu. Ao menos, não só meu. E eu notei como sentia falta de produzir algo que viesse de mim, que eu olhasse e dissesse: meu filho.
Os mais atentos verão imediatamente a semelhança do autor com Jonathan. Os menos atentos viram agora :p
E os que não leram devem ter ficado curiosos :P
Vejam bem, a minha ideia era fazer um agradecimento, e ao invés disso, vim "extravasar". Talvez esteja na hora de ligar para o meu psiquiatra. Ou talvez esteja na hora, isso sim, de escrever.
Estou preparando um conto em duas partes (sujeito a mudanças, vcs sabem) a ser "publicado", a partir de semana que vem. Me aguardarem.
Quanto aos agradecimentos, prometo que estarão no ar até, no máximo, sexta.
Aos que leram até o fim, um bônus.

Coisas de Criança

O garoto costumava ficar trancado no quarto por horas conversando com sua sombra. Ele parou no dia em que ela respondeu.