Olá a todos, e perdão pela demora. Acho que já está na hora de voltar.
Eu estive muito atarefado recentemente (quem me acompanha no twitter sabe que, além de trabalhos, tenho acompanhado o Grêmio e jogado Chrono Trigger, o que consome tempo...)
Eu havia prometido à Adri um update até, no máximo, ontem. Evidentemente, as coisas não sairam como planejado. Pelo menos deu tempo de o pessoal ver o meu design novo e comentar. hehehe
Bom, eu sempre tenho planos de dar grandes e demorados discursos acerca de tradução ou de outro tópico, a cultura japonesa (para quem não sabe, sou um estudante de Tradução- ênfase em Português-Japonês! Fez sentido agora, né?).
Estou preparando um pequeno post sobre haikais, aliás (inspirado no site http://www.flor-de-gelo.blogspot.com/, da minha amiga e companheira blogeira, Gerusa Leal!).
Contudo, neste momento, eu decidi fazer apenas um comentário sobre algo que, já faz algum tempo, vem me incomodando. Por que, em traduções, as pessoas dizem que o tradutor não pode interpretar errado o original? Afinal, interpretar já implica uma leitura própria, única, que tem a ver com a pessoa que está lendo/vendo/ouvindo. Não é assim que fazem nas músicas? A nona sinfonia, interpretada pela orquestra sinfônica de Porto Alegre, por exemplo (perdoem-me, músicos...). A interpretação já implica outra leitura, como algo parecido, porém diferente. Uma releitura, por assim dizer, do que foi feito.
Pois, na tradução, se dá o mesmo. É uma leitura que o tradutor faz da obra original. Por que, então, desse “auê” todo para cima do tradutor?
Bom, podemos já começar desmentindo o meu exemplo sobre música. Por mais que você possa ouvir uma música antiga interpretada por um artista novo, você ainda tem acesso à música antiga. No caso da tradução, o público em geral só tem acesso à obra traduzida, à nova interpretação. Mas eu cheguei também a conclusões próprias. Uma delas vem da própria educação que nós recebemos no colégio.
Lá, aprendemos o modo “certo” de interpretar Machado de Assis, José de Alencar, Guimarães Rosa, etc. Aprendemos que a obra se interpreta assim, e ponto final. Portanto, se só há uma interpretação, só deve haver, também, uma tradução. Só há um jeito de se interpretar, todo o resto não passa de um desvio.
Porém, o que devemos lembrar é o seguinte: o texto original é hermético, fechado, difícil e inacessível para os leitores daqui. É trabalho do tradutor, por outro lado, torná-lo aberto, fácil e acessível. O dever dele é, justamente, mudar o texto original para que seja bem compreendido em sua língua. Se ele não mudar o texto, ele continuará hermético, difícil etc. Além do que, em 100% dos casos, uma tradução ruim é melhor do que não haver tradução.
Pensem nisso...
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terça-feira, 12 de maio de 2009
segunda-feira, 23 de março de 2009
Voltei (mais ou menos) ou Mais um blablablá sobre tradução
Olá a todos os piolhos, carrapatos e traças que frequentamo meu blog. Olá a todos os seres unicelulares que passam pelo meu computador, perfurando a rede interna com sua presença despercebida e, bem, única... Mas, principalmente, olá a todos os que leem o conteúdo que este autor aqui tanto se esforça em criar e escrever.
Como eu havia dito na última parte, tinha que tirar um descanço: as aulas estavam começando, estava meio sem ideias, trabalhos estavam ficando fixos, etc. Bom, tudo isso continua, mas agora eu consegui me organizar. Mais ou menos. O motivo principal que me traz de volta, contudo, não tem nada a ver com o que foi dito. Não.
O que me traz aqui novamente é o que eu percebi recentemente. Como eu disse vez e outra por aqui, eu sou um tradutor. Atualmente, apenas de trabalhos manuscritos, mas o objetivo é fazer um "upgrade" para a interpretação. Além de publicar, é claro. Mas o trabalho que mais me consome tempo agora é o da tradução de um romance. É um livro infantil, nos moldes de um Harry Potter/Coração de Tinta. Acho que isso resume bem a questão. Tenho traduzido bastante, feito mudanças, escolhas, reescrito, tudo isso inerente ao ato tradutório. Eu poderia encher uma página com teorias de tradução que aprendi na Faculdade, mas não creio ser necessário. Qualquer questão pontual que haja, posso me debruçar sobre ela mais detalhadamente em outro momento. O que me refiro agora é muito mais simples, mais primitivo que qualquer uma dessas teorias. Concerne, isso sim, ao ato da escrita.
Vejam bem, tenho diversos colegas na Letras (é o meu curso de graduação) que pregam que, quando lemos uma tradução, não lemos o escritor, e sim o tradutor. É a visão dele da história, da linguagem, são as escolhas que ele faz que vão parar na versão traduzida. Eu sou um pouco mais brando. Pessoalmente, eu vejo a tradução como um trabalho de co-autoria do tradutor. Ele se envolve com a trama, com os personagens, com a linguagem, com o tecido da obra (se é que tal expressão pode ser empregada). E a conhece tão intimamente que tem, sim, parcela de responsabilidade por seu conteúdo.
Contudo, traduzindo, vê-se que, por mais co-autor que eu seja, aquilo não é meu. Estou gostando de "auxiliar" a autora e transformar sua história e tudo o que lhe compete em algo genuinamente brasileiro, fruto da cor local, e não num turista genérico cheio de sotaque.
Contudo, repito, esse trabalho não é meu. Ao menos, não só meu. E eu notei como sentia falta de produzir algo que viesse de mim, que eu olhasse e dissesse: meu filho.
Os mais atentos verão imediatamente a semelhança do autor com Jonathan. Os menos atentos viram agora :p
E os que não leram devem ter ficado curiosos :P
Vejam bem, a minha ideia era fazer um agradecimento, e ao invés disso, vim "extravasar". Talvez esteja na hora de ligar para o meu psiquiatra. Ou talvez esteja na hora, isso sim, de escrever.
Estou preparando um conto em duas partes (sujeito a mudanças, vcs sabem) a ser "publicado", a partir de semana que vem. Me aguardarem.
Quanto aos agradecimentos, prometo que estarão no ar até, no máximo, sexta.
Aos que leram até o fim, um bônus.
Coisas de Criança
O garoto costumava ficar trancado no quarto por horas conversando com sua sombra. Ele parou no dia em que ela respondeu.
Como eu havia dito na última parte, tinha que tirar um descanço: as aulas estavam começando, estava meio sem ideias, trabalhos estavam ficando fixos, etc. Bom, tudo isso continua, mas agora eu consegui me organizar. Mais ou menos. O motivo principal que me traz de volta, contudo, não tem nada a ver com o que foi dito. Não.
O que me traz aqui novamente é o que eu percebi recentemente. Como eu disse vez e outra por aqui, eu sou um tradutor. Atualmente, apenas de trabalhos manuscritos, mas o objetivo é fazer um "upgrade" para a interpretação. Além de publicar, é claro. Mas o trabalho que mais me consome tempo agora é o da tradução de um romance. É um livro infantil, nos moldes de um Harry Potter/Coração de Tinta. Acho que isso resume bem a questão. Tenho traduzido bastante, feito mudanças, escolhas, reescrito, tudo isso inerente ao ato tradutório. Eu poderia encher uma página com teorias de tradução que aprendi na Faculdade, mas não creio ser necessário. Qualquer questão pontual que haja, posso me debruçar sobre ela mais detalhadamente em outro momento. O que me refiro agora é muito mais simples, mais primitivo que qualquer uma dessas teorias. Concerne, isso sim, ao ato da escrita.
Vejam bem, tenho diversos colegas na Letras (é o meu curso de graduação) que pregam que, quando lemos uma tradução, não lemos o escritor, e sim o tradutor. É a visão dele da história, da linguagem, são as escolhas que ele faz que vão parar na versão traduzida. Eu sou um pouco mais brando. Pessoalmente, eu vejo a tradução como um trabalho de co-autoria do tradutor. Ele se envolve com a trama, com os personagens, com a linguagem, com o tecido da obra (se é que tal expressão pode ser empregada). E a conhece tão intimamente que tem, sim, parcela de responsabilidade por seu conteúdo.
Contudo, traduzindo, vê-se que, por mais co-autor que eu seja, aquilo não é meu. Estou gostando de "auxiliar" a autora e transformar sua história e tudo o que lhe compete em algo genuinamente brasileiro, fruto da cor local, e não num turista genérico cheio de sotaque.
Contudo, repito, esse trabalho não é meu. Ao menos, não só meu. E eu notei como sentia falta de produzir algo que viesse de mim, que eu olhasse e dissesse: meu filho.
Os mais atentos verão imediatamente a semelhança do autor com Jonathan. Os menos atentos viram agora :p
E os que não leram devem ter ficado curiosos :P
Vejam bem, a minha ideia era fazer um agradecimento, e ao invés disso, vim "extravasar". Talvez esteja na hora de ligar para o meu psiquiatra. Ou talvez esteja na hora, isso sim, de escrever.
Estou preparando um conto em duas partes (sujeito a mudanças, vcs sabem) a ser "publicado", a partir de semana que vem. Me aguardarem.
Quanto aos agradecimentos, prometo que estarão no ar até, no máximo, sexta.
Aos que leram até o fim, um bônus.
Coisas de Criança
O garoto costumava ficar trancado no quarto por horas conversando com sua sombra. Ele parou no dia em que ela respondeu.
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Da tradução
Desde que a idéia de traduzir um conto me veio à cabeça, também pensei em discutir alguns dos pormenores da tradução. Eu sempre achei que, quando um tradutor é bom, ninguém lembra que ele existe, nem que aquilo que estão lendo vem de outra língua. Ele faz (ou deve fazer) com que o texto "soe" (do verbo soar) português (ou inglês, francês, japonês, russo, etc).
Contudo, durante esse processo, há uma série de decisões que devem ser feitas. Não somente isso, há todo um contexto a ser respeitado e que, muitas vezes, pode alterar a percepção que se tem de um texto. Um texto escrito em inglês carrega com ele todo o contexto social em que foi escrito. Há situações e termos que, no contexto americano, significam x. No contexto brasileiro, y. Por exemplo, se falarmos de futebol aqui, vem com esse assunto tudo que se sabe a respeito do esporte no nosso contexto. Se traduzirmos esse texto para inglês, por exemplo, teremos outros valores agregados ao esporte. Possivelmente, dependendo da importância do jogo para o texto, não duvido que o tradutor optasse por converter esse "futebol" em "baseball" (tomando, é claro, os Estados Unidos como parâmetro).
No texto que eu traduzi no post anterior, Suicídios de Amor existem num contexto muito específico do Japão. Existe um "cargo" que é o "omiai" ("O" de respeito, "MI" de ver, e "AI" de encontro). Essa pessoa é uma testemunha de casamentos arranjados que existem lá. E existem muitos. É muito comum os casais nem se conhecerem antes do casamento, resultando numa união por interesse, que nem sempre dá certo. Como o interesse familiar lá é muito grande, não é raro haver casais que mal conhecem o parceiro. Numa sociedade machista, o homem sai para trabalhar e a mulher fica em casa cuidando dos filhos.
Por isso, quando um casal se ama, acontece de eles combinarem o que chamamos de "suicídio de amor", "suicídio por amor" ou "duplo suicídio". Creio que é a isso que o texto se refere. A um casal que se ama, mas que só pode ficar junto (nessa sociedade machista) na hora de sua morte.
Essa é a questão cultural que pode elucidar alguns aspectos do texto, ou no mínimo enriquecer suas possibilidades. Em outros aspectos menos urgentes para a trama, mas igualmente importantes para a tradução, escolhi manter o termo orignal "hashi", que são os "pauzinhos de comer". Ao menos, para manter o nível da linguagem, e não manchar um texto sensível com esse termo. Sobre a "tigela", primeiro traduzi por "prato", pensando em diminuir a distância entre a nossa realidade e a deles; mais adiante no texto, contudo, percebi que havia muitos termos estrangeiros para fingir que tudo poderia acontecer exatamente aqui no Brasil, e acabei voltando atrás, deixando os utensílios culturais mais visíveis. Da mesma forma, a mesa que a mãe joga no chão, traduzi por "mesinha". Na tradição ocidental, as mesas são usadas para comermos sentados em cadeiras. No japão, as pessoas sentam no chão para comer, daí uma mesa pequena, que a mulher poderia facilmente erguer e arremessar. Quem assiste animes ou filmes japoneses deve conhecer.
Basicamente, era isso que eu queria escrever, trazendo à luz um pouco do trabalho do tradutor, além de mostrar algumas pequenas escolhas que ele deve fazer durante o processo tradutório, independentemente do tamanho do texto. Espero que tenham sido bom, e que tenham gostado.
Contudo, durante esse processo, há uma série de decisões que devem ser feitas. Não somente isso, há todo um contexto a ser respeitado e que, muitas vezes, pode alterar a percepção que se tem de um texto. Um texto escrito em inglês carrega com ele todo o contexto social em que foi escrito. Há situações e termos que, no contexto americano, significam x. No contexto brasileiro, y. Por exemplo, se falarmos de futebol aqui, vem com esse assunto tudo que se sabe a respeito do esporte no nosso contexto. Se traduzirmos esse texto para inglês, por exemplo, teremos outros valores agregados ao esporte. Possivelmente, dependendo da importância do jogo para o texto, não duvido que o tradutor optasse por converter esse "futebol" em "baseball" (tomando, é claro, os Estados Unidos como parâmetro).
No texto que eu traduzi no post anterior, Suicídios de Amor existem num contexto muito específico do Japão. Existe um "cargo" que é o "omiai" ("O" de respeito, "MI" de ver, e "AI" de encontro). Essa pessoa é uma testemunha de casamentos arranjados que existem lá. E existem muitos. É muito comum os casais nem se conhecerem antes do casamento, resultando numa união por interesse, que nem sempre dá certo. Como o interesse familiar lá é muito grande, não é raro haver casais que mal conhecem o parceiro. Numa sociedade machista, o homem sai para trabalhar e a mulher fica em casa cuidando dos filhos.
Por isso, quando um casal se ama, acontece de eles combinarem o que chamamos de "suicídio de amor", "suicídio por amor" ou "duplo suicídio". Creio que é a isso que o texto se refere. A um casal que se ama, mas que só pode ficar junto (nessa sociedade machista) na hora de sua morte.
Essa é a questão cultural que pode elucidar alguns aspectos do texto, ou no mínimo enriquecer suas possibilidades. Em outros aspectos menos urgentes para a trama, mas igualmente importantes para a tradução, escolhi manter o termo orignal "hashi", que são os "pauzinhos de comer". Ao menos, para manter o nível da linguagem, e não manchar um texto sensível com esse termo. Sobre a "tigela", primeiro traduzi por "prato", pensando em diminuir a distância entre a nossa realidade e a deles; mais adiante no texto, contudo, percebi que havia muitos termos estrangeiros para fingir que tudo poderia acontecer exatamente aqui no Brasil, e acabei voltando atrás, deixando os utensílios culturais mais visíveis. Da mesma forma, a mesa que a mãe joga no chão, traduzi por "mesinha". Na tradição ocidental, as mesas são usadas para comermos sentados em cadeiras. No japão, as pessoas sentam no chão para comer, daí uma mesa pequena, que a mulher poderia facilmente erguer e arremessar. Quem assiste animes ou filmes japoneses deve conhecer.
Basicamente, era isso que eu queria escrever, trazendo à luz um pouco do trabalho do tradutor, além de mostrar algumas pequenas escolhas que ele deve fazer durante o processo tradutório, independentemente do tamanho do texto. Espero que tenham sido bom, e que tenham gostado.
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