quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Os kanas!

Como vocês devem bem lembrar, semana passada comecei a falar sobre a escrita japonesa e me comprometi a continuar a explicação nesta semana. Pois bem, como sei que nem todos podem ver os ideogramas no seu computador (por algum motivo, não vem instalado em todos os computadores; alguns necessitam instalar ou procurar plug-ins na internet), resolvi mudar um pouco o estilo visual deste post, utilizando fotos para as explicações. Ao final do post, escrevo o nome e o site do programa que uso para escrever em japonês para quem quiser. Vai que dá curiosidade...
Antes de mais nada, não pretendo fazer uma recapitulação do que foi dito. Se for necessário, ela será feita no corpo do texto com o intuito de esclarecer pontualmente aquilo que foi escrito. Quem quiser explicações mais detalhadas pode encontrá-las no meu outro post, na wikipedia, ou me perguntando mesmo, que respondo sem problemas, ok?
Agora, prosseguindo:

Apesar de ser um sistema muito didático e, de certa forma, até mesmo esclarecer do ponto de vista da cultura e do pensamento oriental, muitas vezes a escrita em kanji não é muito (para não dizer que não é nada) prática. Já ouvi como explicação o fato de que, sendo o japonês uma lingua silábica, há muitas palavras iguais e/ou repetidas (como hana, que pode significar tanto flor quanto nariz, shiritsu, que pode ser tanto público quanto privado - pretendo escrever mais sobre este exemplo mais adiante - etc). No caso, apesar da confusão previsível e da real habilidade que os kanjis têm de desambiguizar tais dúvidas, acho o argumento um tanto frágil; pelo simples fato de que ninguém fala em kanji. E se eles não precisam de ideogramas para esclarecer a própria fala (cheia dessas semelhanças e de palavras repetidas), então duvido que seja este o real motivo.
De qualquer modo, independentemente da razão pela qual são usados (seja por tradição, preguiça de mudar, cabeça-dura, valorização dos costumes, etc), eles são empregados e devemos conviver com sua existência. Contudo, como faz alguém que não sabe ler o kanji? Como pode ele olhar e "decorar" o significado? Isso sem falar que nem toda a lingua japonesa é expressa em kanjis. Como fazem, então?
Pois bem, é aí que entram os kana. Os kana são divididos em dois grandes grupos: hiragana e katakana, e é por eles que qualquer estudante de japonês começa. No caso, são duas formas fonéticas e silábicas de escrita, muito semelhantes ao alfabeto ocidental. Só que, ao invés de 27 letras e alguns acentos, são 46 letras mais algumas combinações.
Abaixo segue uma tabela com os 46 hiraganas básicos com a pronúncia em escrita romana (chamda roma-ji, em japonês - ji de escrita, e roma de Roma; a Escrita de Roma, portanto):



E, agora, a tabela com os katakanas básicos:



Como eu disse, esses são os básicos, ainda tem as combinações e as sonorizações (o ta vira da, o sa vira za, o shi vira ji, o ka vira ga, e o ha vira ba ou pa), mas já é um bom começo. Aí vocês podem perguntar: pra que isso? Pra que tanta escrita? E, realmente, o hiragana já estaria e bom tamanho, mas eles são japoneses, são 150 milhões de pessoas se apertando num arquipelagozinho do tamanho do Rio Grande do Sul, que vive a base de peixe e arroz; dá um desconto!
Agora, explicando direitinho: como foi dito anteriormente, os kanjis foram trazidos diretamente da China por volta do Século V para que os japoneses também pudessem se expressar, escrever e ler. Contudo, como é previsível, para se ter domínio dessa escrita, era necessário saber também chinês, algo que a maioria da população não tinha possibilidade (nem necessidade, diga-se de passagem) de aprender. Como fazer, então, para adaptar essa escrita à língua japonesa? No caso, após muito tempo, foram sendo criados esses dois sistemas de escrita, os hiragana e os katakana. Tanto o hiragana e o katakana foram desenvolvidos a partir dos kanjis como formas simplificadas de escrevê-los. No caso, como a forma cursiva da escrita era mais corrente entre as mulheres, o hiragana ganhou muita popularidade entre elas, ao passo que o katakana, por ser uma forma mais retilínea, foi favorecida entre os homens (basta olhar os dois quadros acima para ver a diferença na "suavidade" e "cursividade" das duas escritas). Tanto que as primeiras obras escritas por mulheres (como o Genji Monogatari - literalmente, História de Genji; também conhecido por muitos como o primeiro romance escrito da história da humanidade, o que ainda é motivo de debate, contudo, envolvendo autores gregos e latinos... mas deixemos essa discussão para os professores de literatura) eram escritas (quase) totalmente em hiragana.
Hoje, contudo, o debate cessou, e cada escrita tem limites de uso mais ou menos bem definidos. Explicando: os kanjis são para escrever a maioria das palavras, já que têm o "conceito" embutido; os hiraganas são para escrever partículas, conectores, preposições, terminações verbais ou de adjetivos; e os katakans são usados para escrever interjeições, estrangeirismos ou para destacar algum termo (como o nosso itálico).
Mas chega de diletantismo. Passemos a um exemplo mais prático.
Para ilustrar o exemplo dos três "alfabetos" de uma vez, nada melhor do que algumas frases simples:
1. Meu nome é Marcelo.
2. Vou ao Japão de Avião.
3. Hoje está quente.
4. Hoje foi quente.
(as últimas duas frases são para ilustrar o uso do hiragana nos adjetivos e a forma aglutinante da lingua japonesa; ao contrário da portuguesa, que vai "distribuindo" características ao longo da frase, a japonesa deixa tudo aglutinar no final, nos verbos e nos adjetivos). Vamos aos exemplos:



Vocês verão que o que está em azul são kanjis, e o que está em preto é ou hiragana ou katakana. No caso, na primeira frase, temos o primeiro kanji (watashi) que quer dizer eu. Entre este e o próximo kanji, há uma letra em hiragana. Para quem olhar no quadro, verá que aquilo é um "no". Neste caso, é uma partícula que indica posse. "Watahi no", portanto, quer dizer "meu". Os próximos dois kanjis se lêem "namae". Parece com a palavra "nome", em português, e é isso mesmo. Pura coincidência. Após estes kanjis, temos mais uma letra em hiragana. Para quem viu os quadros, saberá que se pronuncia "ha" (como em carro). Contudo, por ser uma partícula (muito importante), se pronuncia wa. Ela serve para indicar o tópico de que se fala. O sujeito, se assim quiserem chamar. Depois vem as letras em katakana. É o meu nome! Sim, Marcelo, em japonês, se fala Marusero. Eles não se dão muito bem com encontros consonantais, e transformam tudo o que podem em vogais. Como eu disse, é uma lingua silábica. E por último, temos o "desu". Em geral, costumam explicar que o desu é um verbo, mas ele é bem mais do que isso. No japonês, é muito comum comerem final de frase, partículas, eliminarem-se conexões, etc, de forma que as frases, muitas vezes, parecem um amontoado de palavras desconexas. No caso do japonês, o desu é um "liga tudo". Se você não souber o que fazer, coloca um desu no final da frase que periga dar certo. Bendito "verbo"!

A segunda frase eu "escolhi" para mostrar, uma vez mais, a diversidade existente de pronúncia e uso de kanjis. A primeira palavra em kanji nós já vimos da outra vez: hikouki, que quer dizer avião. A letra em hiragana, ao lado, é a partícula "de", que indica a ferramenta com que se faz alguma coisa (no caso, usa-se o avião para viajar, por exemplo). Se eu vou escrever com o lápis (enpitsu), digo: "enpitsu de kakimasu", sendo "kakimasu" o verbo : escrever. Como vocês devem ter notado, em japonês o verbo vai lá no final. Se não me engano, alemão é assim também. Aí vem a palavra Nihon. Que significa Japão. O primeiro kanji vocês já conhecem: sol (embora essa seja ainda outra pronúncia do mesmo kanji). O segundo é hon, que pode ser livro ou origem. Daí vem que o Japão é a Terra do Sol Nascente. Está no nome deles. É a Origem do Sol! Legal, né? A partícula he (mais um hiragana) se pronuncia "e", e indica direção. É para lá que vamos, afinal. E o ikimasu é o verbo, que quer dizer ir (vocês notaram que o kanji desse verbo, que se lê i, é o mesmo que se lê kou em avião?).

E enfim, as últimas duas frases, que pretendo analisar conjuntamente:
Na frase 3, a primeira palavra, kiyou, quer dizer hoje (o primeiro kanji significa agora, e o segundo, dia; viram que legal? O dia de agora é hoje! - mas essa é ainda outra forma de se ler o kanji de sol - quantas leituras nós já vimos até agora? Querem contar?). Temos então a partícula wa e o kanji de quente, atsui. Notaram como a última "letra" da palavra atsui se escreve com hiragana? É porque isso vai mudar depois. E depois temos o bom e velho "desu".
Na frase 4, temos kiyou, hoje, e a partícula wa, e a palavra atsukatta. Por que é que mudou, de atsui para astukatta? Porque, aqui, é o adjetivo que muda, não necessariamente o verbo. Katta é um sufixo que indica passado (nós tiramos o último "i" da palavra atsui e trocamos por "katta"). A frase, que antes era "hoje está quente", virou "hoje foi quente", mudando apenas o adjetivo (notem que o desu, o verbo, não mudou nada). Se quiséssemos dizer: "hoje não está quente", tiraríamos o i final de atsui e colocaríamos "kunai"; no caso, seria "atsukunai". E se eu quisesse dizer que hoje não foi quente? Fácil: tiramos o i final de atsukunai e colocamos o katta: atsukunakatta.
Aglutinou tudo, né? Antes que vocês me perguntem: sim, os verbos se modificam sim, muito semelhante a como os adjetivos se modificam. Só achei que seria ais interessante falar dos adjetivos por ser uma coisa tão diferente do usual para nós.

Foi uma lição longa, e acho que por hoje chega. Já cobrimos um básico dos kanjis, um básico de gramática, e um básico de kana. O que mais falta? Algumas pequenas - e divertidas - curiosidades de ideogramas.
Próxima quinta? Quem sabe. Talvez, se já não enchi o saco do pessoal com esse texto enorme...

ps: só não postei ontem por motivos de saúde. Estava indisposto, sofrendo em casa, mas fui no médico e já iniciei tratamento. Quem me conhece sabe que minha saúde não é lá um brastemp...

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

De kanjis

Pois bem, devido ao ritmo dos meus estudos recentemente, decidi enfim sentar e escrever, mesmo que brevemente, sobre a escrita japonesa (perdão pela repetição indevida de palavras). Sei que pode não ser o tópico favorito de muitas pessoas, mas achei que seria interessante ao menos apresentar esse conteúdo tão desconhecido e, até mesmo, vítima de certas mistificações por quem o desconhece. Confesso que, no início, eu também fiquei um pouco assustado com o volume de material e de exigência que o estudo do japonês exige; contudo, com a prática e o ritmo, tudo vai se assentando. Claro, eventualmente eu também me encontro à beira do desespero e da vontade de largar tudo e fazer algo mais fácil, como inglês ou francês, mas não teria metade da graça.
Comecemos do começo:

A escrita japonesa é originária da China com os ideogramas. Ao contrário de nossos amigos comunistas, contudo, o volume de caracteres no Japão é muito menor. Ao passo que, na China, o número de Kanjis usados chega a ser incalculável (e isso é verdade, não se tem ideia de quantas existam, apenas estimativas), o número de kanjis (o nome dos ideogramas) exigidos no Japão beira os 2.000. Pode parecer muito, mas, na realidade, é mais. Mesmo. O número de ideogramas oficiais é esse, mas, para se ler um jornal ou até alguns livros, seria necessário conhecer em torno de quatro a cinco mil caracteres.
O que poderia fazer alguém se sentir atraído por esse volume intenso de estudo? Loucura, provavelmente. Ou muitos episódio de Cavaleiros do Zodíaco quando criança. No meu caso, é a segunda alternativa :P
Prosseguindo: historicamente, não se tem noção clara de quando os caracteres chineses foram levados ao Japão, apesar de haver documentos datando do século V D.C. (provavelmente escritos pelos próprios chineses). Apenas no século VI D.C. é que se vê documentos escritos em caracteres chineses com interferência do japonês (um chinês misturado com japonês), indicando uso corrente da escrita.
Explicando brevemente, os ideogramas que compõem a palavra kanji (漢字) significam "escrita de Han"; esse Han seria o imperador chinês em cujo governo teria sido desenvolvida esta escrita. O porquê dos japoneses chamarem Han de Kan (daí "KANJI") não está claro, mas a teoria corrente é de que, na época, o japonês não tinha o som "han" (pronuncia-se ran) incorporado ao seu sistema fonético.
No caso da escrita na China, a cada ideograma corresponde um som com seu(s) respectivo(s) significado(s). No caso do Japão, como foi uma escrita adaptada, o furo é um pouco mais embaixo. No caso, a cada ideograma costuma corresponder um conceito, variando o som.
Podemos dar como exemplo inicial os números. Qualquer um que já tenha feito aula de judô ou karatê ou outra arte marcial japonesa deve ter aprendido a contar até, pelo menos, dez. Contemos, então:
ichi, ni, san, shi, go, roku, shichi, hachi, kyu, ju
A cada um destes números corresponde um kanji, certo? Aqui estão eles, em ordem:
一, 二, 三, 四, 五, 六, 七, 八, 九, 十

Pronto, agora vocês já podem escrever os números. São alguns dos kanis mais fáceis (do 1 ao 3, pelo menos).
Agora, para não ficar apenas na parte fácil, vamos complicar um pouco. O próximo kanji que vou mostrar se chama tsuki, que quer dizer lua. É um kanji bastante fácil, aprendido nos níveis iniciais, e é com ele que se escrevem os meses do ano. Podem adivinhar como se escreve? Fácil, fácil:
一月, 二月, 三月, 四月, 五月, 六月, 七月, 八月, 九月, 十月, 十一月, 十二月

Como se vê, o primeiro mês se escreve exatamente assim: como o kanji do número 1 junto do kanji do mês, e assim sucessivamente. Até os meses onze e doze são fáceis. Pega-se o kanji de 10 mais o kanji de 1 e voilá, 11. Como se pronuncia, então? Seguindo a lógica apresentada, o certo seria dizer ichi, que é um, e tsuki, que é lua, formando ichitsuki, correto?
Errado. Tsuki é apenas uma das leituras daquele kanji. Quando ele quer dizer lua, fala-se tsuki. Quando ele quer dizer mês, fala-se gatsu. Assim, janeiro é ichigatsu, fevereiro é nigatsu e assim por diante.

Passemos, agora, a outro kanji que pode causar ainda mais dores de cabeça: o de dia, ou sol. Um kanji tão simples, mas tão complexo. Sol e dia se escrevem da mesma forma em kanji (日), mas se pronunciam diferentemente. Sol é hi, e dia é nichi
Agora, passemos à verdadeira loucura.
O lógico, pelo que estou dizendo, seria fazermos o seguinte: quero dizer um dia. Portanto, pego o kanji de um e o kanji de dia, junto os dois e tenho ichinichi (一日). E está correto. Contudo, se quero dizer dia primeiro, eu uso os mesmos kanjis (一日), só que a pronúncia é levemente diferente. Fala-se tsuitachi (quando eu disse "levemente", estava sendo sarcástico), que é uma leitura especial. O mesmo acontece com dois dias. Pego o kanji de dois, junto com o de dia e obtenho ninichi (二日). Contudo, se me refiro ao segundo dia do mês, escrevo da mesa forma (二日), mas a leitura é futsuka.
Isso que estou dizendo pode parecer confuso, complicado e sem sentido (e no começo é mesmo), mas segue uma lógica de contagem em japonês. Em japonês, temos os contadores. Se quero duas maçãs (ringo), não posso dizer ni ringo, pois estaria errado. Devo usar o contador, que é futatsu. No caso, o contador de dias também começa com fu (futsuka), e esse padrão se repete. Por exemplo, o contador de três é mittsu (dia três se fala mikka); o contado de quatro é yottsu (dia quatro se fala yokka).
No caso, apenas para não deixar o exemplo pendente, para dizer: "quero duas maçãs", em japonês é: ringo o futatsu kudasai.

Aí vocês podem perguntar: e para que aprender um sistema tão complicado? No caso, até concordo que o sistem ocidental de escrita é muito mais simples. Contudo, o sistema de kanjis tem um poder de síntese e de ideias dentro da própria escrita que o sistem ocidental jamais vai ter. Por exemplo: avião (hikouki) se escreve 飛行機. Vocês podem não saber ler, mas alguém que não conheça a palavra, mas conheça os kanjis, poderá inferir o significado, pois se lê "máquina que vai voando".
Podem não gostar e torcer o nariz, mas temos que admitir que isso é, no mínimo, interessante.

Eu gostaria de escrever mais a respeito, mas não agora. O texto já está bem grande, e me permite escrever mais numa próxiam ocasião (quando eu falar da construção, dos componenetes e dos tipos de kanji). Além, é claro, dos kanas.
Ficou curioso? Então não perca! Na próxima quinta, nessa mesma bat-hora, nesse mesmo bat-blog!

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Fumaça e espelhos (redux)

Pois é, eu não tenho tido tanto tempo quanto gostaria para me dedicar a produções novas; no caso, eu tenho tido relativo sucesso reescrevendo ou reformulando algumas histórias mais antigas. Um destes casos é essa, que apareceu aqui algum tempo atrás, chamada Fumaça e Espelhos. Segui alguns conselhos, ouvi algumas críticas, e cheguei ao que, creio ser uma versão quase final do conto (acho que nunca chegamos ao final; nunca está perfeito, sempre tem o que melhorar).
Bom, àqueles que já leram, espero que achem melhor (e digam se melhorou ou não), e aos que não leram, espero que gostem (e digam o que acharam).

Fumaça e espelhos

Ele levantou cedo da cama, desligando o despertador que insistia em tocar ruidosamente ao seu lado. Roçou a cabeça de leve, desarrumando sua cabeleira negra. Passou a mão pelo rosto e sentiu a barba rala que se aventurava vertiginosamente até o meio do pescoço.
Tirou o lençol abarrotado de cima da cama e levantou-se, abrindo os braços finos e compridos para espreguiçar-se; sua sombra parecia esticar-se como um animal antigo e esquelético, à espreita nos cantos e paredes mal-iluminadas. Esfregando os olhos, olhou-se duramente no espelho, encarando seu reflexo esguio e sombrio. Um brilho rubro iluminava sua íris castanha, cintilando por um momento, efêmero como uma estrela cadente que mergulha silenciosamente na escuridão do universo.
Ele caminhou até a cozinha, onde pôs a água para ferver no fogão, ouvindo o assovio solitário da chaleira contra os infinitos ladrilhos que cobriam o cômodo de ponta a ponta. A água se esvaía em baforadas contínuas de fumaça e solidão.
Ele derramou o líquido numa xícara e completou a mistura com café e açúcar, bebendo sonoramente na casa vazia.
Findado o seu desjejum, ele caminhou a passos lentos e arrastados até o banheiro, onde tirou o pijama e ligou a água do chuveiro. Antes de entrar, mirou-se em um espelho que havia sobre a pia, admirando sua nudez pálida e magra. Seus olhos, ele notava, exibiam pequenas olheiras escuras e circulares, envolvendo sua visão como pequenos buracos negros que sugavam toda a luz ao redor. Cansado, ele entrou no chuveiro e lavou-se vagarosamente com a água morna, despertando de gota em gota.
Saiu do chuveiro e puxou uma toalha, que todas as noites deixava pendurada no box para não ter que passar trabalho pela manhã. Ainda pingando sobre o chão gelado de mármore, lambuzou o rosto com creme de barbear e puxou sua gilete.
Começou passando a lâmina pela face esquerda, prestando atenção em sua imagem para não errar. Cortou-se para cima e para baixo, buscando eliminar aquele redemoinho conjunto e rebelde de pelos que teimava em nascer e crescer e grudar-se ao seu rosto. Em movimentos rápidos e imprecisos, eliminou-os uma vez mais.
Quando terminou aquele lado, lavou a gilete na pia para tirar o excesso de espuma.
Nem teve tempo de perceber sua imagem refletida estendendo a mão para fora do espelho e, num movimento rápido, rasgar-lhe a garganta. Com um brilho escarlate vibrando venenosamente em sua íris enegrecida, seu reflexo brandiu a lâmina torta e gasta da esquerda para a direita, abrindo um talho em seu pescoço tal qual um sorriso fora do lugar, desesperadoramente satisfeito com seu resultado terminal e irrecorrível.
Sem emitir um ruído sequer, encostou-se à parede branca e gélida e deixou que seu corpo deslizasse suavemente até o chão, sentindo um arrepio frio em seu pescoço.
Sua imagem permaneceu imóvel, observando-o com um sorriso malicioso. Apenas mais tarde, apercebendo-se de sua própria natureza, é que enfim sentiu um corte profundo na garganta e caiu, sangrando até a morte.



Post-scriptum:
Àqueles que se interessam, eis o link para o post antigo
http://visoesnaareia.blogspot.com/2008/10/fumaa-e-espelhos.html

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Promesse é dívida

Se eu seguisse o ditado 'promessa é dívida', todos nós sabemos que eu estaria devendo até as calças (ou a cueca, ou... deixa pra lá), já que não costumo seguir muito o cronograma que eu mesmo traço e me disponho a cumprir no blog. Hoje, contudo, é um dia diferente. Hoje é o dia em que eu cumpri a minha promessa. A Adri fez bem em me lembrar nos comments do último post. Mas eu ia postar de qualquer forma. É que eu estava tentando escrever um conto especialmente pra hoje. Infelizmente, não consegui. Ao que parece, as ideias pra esse último me fugiram. Eu, que estava tão empolgado e cheio de expectativas, de repente me vi diante de uma folha de caderno em branco e não soube o que fazer. Alguns anos atrás eu largaria tudo e desenharia (eu costumava desenhar bastante, e até que levava jeito, sabe? Não que nem a Lali, claro - vulgo Vermeliasu). Bom, mas isso não quer dizer que não temos conteúdo. Não senhor. Primeiro, como nosso amigo Hermes disse no comentário dele (e como sei que também tem gente que tem essa vontade ou, no mínimo, curiosidade), é difícil de achar cursos sobre roteiro por aí. Portanto, eu achei melhor compartilhar algumas de minhas fontes com vocês. Todas na internet, gratuitas. Obrigado, mas não precisam aplaudir.

Bom, se você não tiver interessa nessa área, pode pular essa parte. Tem mais coisa lá embaixo.

O primeiro site é de Hugo Moss, que escreveu um manuel sobre formatação de roteiros, chamado 'Como formatar o seu roteiro'. Ele pode não ser muito criativo pra nomes, mas ele sabe do que fala. Deem uma lida e me digam que não é verdade.
O linke é:
http://www.films.com.br/intro.htm

O segundo é de Emilio Carlos. Um autor que, embora eu não conheça, bolou um "tutorial" muito interessante. Sei que é tudo meio básico e sem tanto desenvolvimento assim, mas é um curso pela internet gratuito. Já é muito mais do que NÃO ter um curso. Corrijam-me se eu estiver errado.
O link é:
http://www.mailxmail.com/curso-roteiro

E o último endereço é da Usina do Roteirista, um site também meio básico mas bastante interessante. Ao invés de tratar os temas da história do roteiro e do formato do roteiro em separado (como os dois últimos sites o fazem), trata os dois juntos, o que acabou me esclarecendo algumas dúvidas.
O link é:
http://screenwriter.sites.uol.com.br/formate.htm

Agora, para você que leu até aqui, ou que simplesmente pulou tudo, minha promessa cumprida. É um conto (não sei se se encaixa na especificidade do 'mini-conto', mas é bem pequeno) erótico; portanto, tirem as crianças da sala. Eu escrevi faz um tempo, mas não tinha postado ele aqui ainda. Ah, e por favor, tentem não entregar o final na seção de comentários. Sei que dá vontade de falar a respeito (até porque já msotrei o conto pra várias pessoas), mas minizem o que puderem, para não revelar o final pra quem não leu. Bom, era isso. Agora, como vocês:

Um caso de Amor

Chegaram ambos da festa e, sem perder tempo, dirigiram-se para o quarto. Sua consciência já pouco discernia o que faziam, influenciada por seu louco desejo um pelo outro. O vinho que tomaram fazia efeito, causando as risadas alegres e ansiosas que surgiam por entre as carícias.
Ela beijou-lhe o pescoço e começou a desabotoar-lhe a camisa, arrancando sua gravata com fúria. Desceu sua língua pelo peito descoberto dele, saboreando cada curva. Logo, ela chegou à calça e começou a esfregar o rosto contra o volume que se formava. Olhando para os olhos do seu par, ela lentamente abriu o zíper enquanto lambia os beiços, trazendo aquele membro grande e rígido para fora.
A mulher começou a brincar com ele, balançando-o em suas mãos e em seus lábios, até que o homem, não mais se contendo, puxou a boca dela contra o seu órgão, e ela começou a chupá-lo. Movendo sua cabeça para frente e para trás, ela extraiu dele gemidos de lascívia e de prazer, completados por diversos: ‘eu te amo’, ‘me chupa’, engole tudo’…
Quando ela terminou o serviço, um fio branco escorria pelo seu queixo, que ela puxou e engoliu sonoramente.
- Minha vez. – disse o homem, levantando a saia dela e ali mergulhando seu rosto, lambendo e chupando com veemência, sentindo a mão dela em seus cabelos, controlando-o com carícias gentis. Ele sentia um suco doce escorrer-lhe pelos lábios, derramando-se como um bom vinho que é degustado.
Quando ela estava satisfeita, puxou-o para dentro de si, num movimento cuidadosamente violento, sentindo-o pulsar como um coração. ‘Me come’, sussurrou ela para o seu amante, fazendo-o mover-se com ela, para frente e para trás, para frente e para trás. Sem piedade. Sem carinho. Um ritmo selvagem e incontrolável.
Uma volúpia voraz adonou-se de seus corpos, trazendo-os para junto de si tanto quanto podiam, ardendo como fogo um pelo outro, indo contra as leis da física, provando que dois corpos podem, sim, ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo, e mais, e estender-se e comprimir-se, e não eram dois, eram um só, e gemiam e gritavam e urravam e moviam-se, para frente e para trás, para trás e para frente, um contra o outro, agredindo-se com um apetite gentil e insaciável.
Beijaram-se loucamente, num momento selvagemente apaixonado e apaixonante. Então ele saiu de dentro dela e jogou-a ao chão, prostrando-a de quatro à sua frente. Ela o fitou como uma fera esperando seu macho, e levantou a saia, abrindo as pernas para ele.
Sem pestanejar, sem controle, ele atirou-se sobre ela e reiniciou o movimento.
- Goza! – dizia ela. – Goza em mim! Goza pra mim! Goza!
E ele, uma besta incontrolável, servo daquelas pernas, daquele corpo, daqueles olhos, uivava como um animal acuado, preso que estava dentro dela. Para frente e para trás, para frente e para trás, enfim entregou-se, jorrando quente dentro dela. Sentindo o seu amante, ela urrou de repente, jorrando então ela sobre ele, unidos em seu gozo mútuo e infalível.
E caíram ambos na cama, extasiados, acabados. Apaixonados.
- Gostou, meu querido? – perguntou ela, admirando-o.
- Adorei, mãe. – respondeu ele, aninhando-se entre os seus seios.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Ocupado (mas nem tanto)

Sei que estive ausente, e eu provavelmente estaria mais se não fosse pelo comentário da Marina. Por mais que seja só uma pessoa, é legal ver que os outros se importam. Talvez eu devesse fazer mais propaganda, invadir blogs alheios, incendiar sites e foruns, me promover na internet, etc. Pretendo fazer isso, mas eu em geral tenho uma grande dificuldade: por que fazer hoje o que você pode deixar para amanhã? Pois é, preguiça é brabo. Mas também não é só isso. Não!
Ultimamente, estive envolvido em projetos pessoais. Okay, mas o que é isso? Tem um nome legal, mas é meio vago, né?
É o seguinte, escrevi dois contos novos, dei uma revisada (e continuo dando) em vários contos antigos (a maioria deles não veio parar aqui, até por uma questão de tamanho) e fechei (mais ou menos (ok, agora vou parar de abrir parênteses (esse é o último, juro))) um livro. Um livro de contos. Até porque, escrever um romance é muito mais complexo e trabalhoso. Não que não seja possível, mas tenho me sentido muito mais à vontade com essa forma de escrita recentemente.
E, se o livro sair, vocês que aqui leem terão sido privilegiados; afinal, viram muito do material antes de sequer ser publicado. Estou agora em busca de emrpesas que aceitem publicar. Há a possibilidade em outros estados, mas como moro em Porto Alegre, acho melhor dar preferência a alguma daqui. O contato fica mais fácil e rápido, gente que mora no mesmo lugar, enfim. Dá para entender, né?

Além disso, não lembro se comentei aqui ou não, mas tive aulas de roteiro (para cinema e televisão) e entrei em contato com gente na área, o que possiblitaria um filme no futuro (um futuro próximo, imagino). Tenho lido a respeito e pretendo ler ainda mais, até para ter mais embasamento antes de começar. É provável também que eu faça um curso mais pra frente para me aperfeiçoar. Enfim, planos e projetos (esses sim estão em andamento).
Eu, em geral, não gosto de falar muito de mim. Pelo contrário, sempre busco outros temas sobre os quais dissertar e tentar partir daí, mas agora resolvi me abrir um pouco. Sabe até que é legal às vezes?

ps: antes do fim do post, eu pretendia colocar mais um mini conto aqui, mas resolvi deixar pra depois. Quarta-feira eu publico aqui com novidade. Sem falta!

sábado, 25 de julho de 2009

Aviso aos transeuntes

Olá a todos, e, uma vez mais, desculpem-me. Passei por alguns problemas de ordem pessoal que me indispuseram com a vida (mais ou menos), e me tiraram a vontade de mexer aqui. Além disso, como eu já disse, minha internet me odeia. Muito. Acho que por isso mesmo que o adaptador wireless (minha rede é sem fio) caiu no chão e quebrou, me deixando inconectável exceto por meio de computadores alheios.
Para variar, minha internet resolveu que eu não deveria me envolver com vocês, e convenceu meu pc a participar da maracutaia. Sim, só para digitar essa tripinha de texto, precisei mais de meia hora (tive reiniciar o pc, instalar a internet de novo, entre outras coisas).
Mais tarde ponho mais conteúdo aqui, mas tá difícil...

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Desculpas...

Sinto muito pela falta de updates recentemente, mas tenho passado por uma série de dificuldades técnicas. A primeira é uma questão salutar. Eu tenho sinuzite, e o clima do Rio Grande do Sul é absolutamente inclemente, e pune severamente os mais fracos (no caso, eu). Só agora, com acesso a muitos remédios, é que estou voltando a ficar melhor. Mas nada demais, tb... Outro problema é tecnológico. Estou trocando de pc, e aparentemente, é muito difícil passar tudo o que eu tinha no antigo para o novo de forma funcional. Deve ser algo contra mim, não vejo outra explicação pras minhas máquinas viverem dando pau (vide post: Minha internet me odeia!).
Portanto, não tenho ainda o post que eu gostaria de ter escrito sobre a maravilhosamente complicada caligrafia japonesa. Mas, antes do choro da maioria, trouxe um conto que escreve há algum tempo, levemente acrescido (bem de leve), aqui exposto. Espero que gostem, e que eu melhore.

Frank

Jonas, vestindo seu tradicional jaleco branco, aproximou-se lentamente do homem na maca, admirando seu corpo nu e pálido. De pé, ele caminhou até os equipamentos ao lado da cama e começou a afiá-los.
- Sabe, Frank, eu sinto saudades suas. – Jonas começou a falar enquanto batia uma lâmina contra a outra. – Fazia tempo que não ficávamos assim, não é? De frente um pro outro, só nós dois. Bons tempos aqueles. Lembra quando você conheceu aquela mexicana, a Conchita? Não? Eu lembro. Gostosinha ela. Mas você também não era nada mal. Pena que envelhecemos, hein? – e bateu de leve no ombro do homem deitado.
- Você está frio, sabia? Frio. Se bem que eu gosto de frio. Lembra daquela nossa viagem pra Québec? Estava o que, menos trinta? E o pintinho também, menos que cinco. – e deu uma risadinha leve diante do corpo. – Que foi, não achou graça? Pois é, você sempre foi o mais comportado. – Jonas sentou-se num banquinho ao lado da maca e começou a apalpar o corpo. – Eu sempre fui o cara da sacanagem. Dá pra acreditar que eu casei? – logo, começou a cortar os dedos das mãos de Frank. – Que coisa estranha, não? Eu sempre achei que você fosse casar, construir uma família e… esse está difícil… ah… consegui. Seu dedo duro. – dessa vez, ele riu forte, admirando o dedo médio que acabara de decepar. – Viu só, é por isso que você está aqui. Tem dedos difíceis de cortar. – então, entre risos, Jonas apalpou a mão do corpo até chegar ao pulso, onde voltou a serrar.
- Eu conheci ela faz o que… uns dois, três anos? Sabe aquilo que você sempre dizia? Aquela coisa do amor, como é que era? Seus olhos são o caminho do seu coração? O caminho para o coração é através da visão? – ele terminou de cortar as mãos e foi para o bíceps. – Bom, era algo sobre amor à primeira vista. A gente sabe quando encontra a pessoa certa, não é? E foi isso mesmo o que aconteceu. Assim que nós nos olhamos, eu sabia. Ela era… nossa, não lembrava que você era tão forte. Belos músculos. Espero que meu filho seja assim. – ele terminou os braços e dirigiu-se para os ombros. – Aliás, eu te falei que vou ter um filho? Eu e a Adriana, é esse o nome da minha mulher, Adriana. Eu tinha esquecido de contar, não tinha? Hum… esse osso é difícil. Mas calma que já acabo… pronto. Dito e feito. Posso começar as pernas? Você não se importa, não é? Imaginei que não. Posso fazer os pés? Começo pelo direito, é claro. – e explodiu numa gargalhada enquanto tocava os pés.
- Bom, como eu ia dizendo, eu e ela nos apaixonamos e casamos. E agora vamos ter um filho. Eu estava pensando em dar o teu nome pra ele. Gostou da homenagem? Quer dizer, se for menino. Não dá pra ver na ecografia ainda. – Jonas serrou-lhe os dois pés e colocou-os num balde. Logo, começou a estudar os joelhos. – Faz pouco que ela está grávida. Nem dá pra notar direito. Você não faz idéia de como eu estou contente. É só nisso que eu consigo pensar. Eu vou ser pai! Não se preocupe, eu sei que você se você ainda tivesse os braços estaria me abraçando agora. – e começou a rir alto, sem conseguir se controlar. Após terminar os joelhos, foi para a virilha. – Piada maldosa, eu sei. A gente não deve chutar quem está por baixo, mas você me conhece, eu não consigo resistir. E… o que é isso que eu estou vendo… você está com frio de novo? – e voltou a rir diante do corpo. – Brincadeirinha. Eu sei o quanto você usou isso aqui. Quanta mulher. E cá entre nós, teve alguns homens também, não teve? – ele terminou de cortar as pernas e o pênis e abriu-lhe o tórax.
- Mas sabe de uma coisa, eu quero que o corpo do meu filho seja que nem o seu. Você sempre foi muito atlético. E veja aqui o seu coração. – rindo alto, Jonas guardou o órgão num saco plástico. – Eu gostaria que meu filho fosse um homem justo. De estômago forte também, não que nem o seu, que saiu com um cortezinho de nada. – e riu como antes, batendo um dos pés no chão. Suas bochechas já estavam doendo. – Admite que essa foi boa. Não? Senso de humor nunca foi uma de suas características marcantes. Isso eu espero que ele puxe de mim. Todo mundo iria gostar dele.
- Bom, agora que eu terminei por aqui, vamos para a cabeça. Eu vou rachar o seu crânio e extrair o seu cérebro. Pode doer um pouco… Bom, lá vai. – batendo forte, Jonas conseguiu quebrar-lhe o crânio e tirar o cérebro, intacto.
- Frank, seu cabeça oca. – e riu baixinho do seu comentário. – Agora, se você me dá licença, tenho que limpar tudo.
Jonas levantou-se e organizou todas as partes do corpo numa mesa ao fundo. Lavou o chão e foi trocar de avental. Demorou-se um pouco tomando banho, até que enfim voltou para a sala, vestindo um smoking. Sentou-se à mesa e, puxando um garfo e uma faca, disse:
- Então, por onde eu começo?