Como vocês devem ter notado, faz tempos que não atualizo meu blog, o que tem ocorrido com maior frequência. Isso se deve a muitos fatos, sendo que, dessa vez, o tempo não é um deles. Tenho tido tempo de atualizar, mas a verdade é que não o tenho feito pelo fato do blog não me parecer mais tão atrante como outrora fora. O meu propósito, no início, era um. O de criar uma rotina de escrita, criar comprometimento comigo mesmo e com possíveis leitores de forma a exercer a literatura, por assim dizer. Contudo, de uns tempos para cá, esse propósito me tem sido cada vez mais distante, e os novos rumos que ele tem tomado (de ser quase um blog de variedades) não tem me agradado. Então, após um longo debate interno, decidi colocar meu blog em hiato por tempo indeterminado.
Então, ao invés de toda semana ficar quebrando a cabeça para saber o que escrever ou inventar algo para ocupar espaço aqui, resolvi que seria melhor 'dar um tempo' em tudo isso para me reciclar e voltar, mais tarde, às funções blogueiras a que me propus antes que esse espaço - antes tão importante para mim - perdesse qualquer atrativo e eu me sentisse tentado a terminá-lo. Ao invés disso, deixo esse espaço como está com a mensagem de que pretendo retornar, mas com outra proposta que seja a mim - e aos leitores, espero - mais atraente do que a atual.
Obrigado a todos os que passaram aqui. E até breve!
quinta-feira, 29 de abril de 2010
quinta-feira, 18 de março de 2010
Scarborough Fair
Essa semana, após certo tempo de contemplação, enfim resolvi escrever sobre a música do título (Scarborough Fair). Digo isso por já estar com essa idéia na cabeça há algum tempo, e por achar a história dessa canção muitíssimo interessante e diferente. Ao menos, daquilo que estamos acostumados.
Primeiramente, para deixar bem claro, essa canção não é muito conhecida do público brasileiro, mas é tradicional da Inglaterra e razoavelmente conhecida em países de língua inglesa. Sua origem é desconhecida, mas remonta de alguns séculos, tendo tomado forma mais recentemente, em torno de 1800, contando uma história de amor (?) sobre um homem e uma mulher. Antes de partir para o conteúdo, no entanto, acho interessante falar um pouco sobre sua história.
Como dito antes, sua origem não é muito clara, mas há teorias que remontam para a balada “The Elvish Knight”, que fala de um cavaleiro elfo maligno que tenta seqüestrar uma donzela, Isabel. O nome dela, na verdade, costuma variar m diferentes versões, mas esse é o mais conhecido. Alguns leitores mais antigos desse blog já devem ter reconhecido essa balada do conto que escrevi há algum tempo chamado “Faerie ou Isabela e o Cavaleiro Elfo”. Escrevi-o em duas partes (para quem quiser ler: parte 1 aqui http://visoesnaareia.blogspot.com/2009/04/faerie-parte-1-de-3.html; parte 2 aqui http://visoesnaareia.blogspot.com/2009/05/faerie-parte-2-de-2.html. Recomendo a leitura. Gostei muito de escrever, e acho que gostariam de ler também), tentando dar um contexto à balada e uma motivação para sua criação.
Na realidade, a minha tradução se baseia em versões mais modernas da balada, visto que as mais antigas cantavam de um elfo que dava tarefas impossíveis para uma donzela realizar, levando-a consigo caso ela falhasse. E é nessa versão que se baseia a música.
Prosseguindo com a questão histórica, Scarborough é uma cidade na Inglaterra onde havia esta Scarborough Fair, a Feira de Scarborough. Uma cidade mercante que havia recebido aval do rei, diminuindo-lhe impostos sobre mercadores. Daí ficou instituída essa Feira, da qual diversos comerciantes de distintas e variadas regiões participavam. Hoje ela já não existe mais por ser inviável, mas foi por séculos um dos grandes atrativos da região.
Se pensado no contexto da balada, esse é um fato até passageiro e um tanto irrelevante, visto que a história da canção poderia se dar em qualquer local. Mas como a música se chama Scarborough Fair, e o primeiro verso é: ‘Are you going to Scarborough Fair’ (‘Você está indo para a Feira de Scarborough?’), achei que seria interessante explicar sua origem.
O que me chamou atenção na música, na verdade, além de ser uma balada muito bonita, é a história por trás, que trata sobre o tema do amor, mas sob outro prisma. Todos nós conhecemos histórias de um casal apaixonado que tem de passar por incríveis e dramáticas desventuras para ficarem juntos (sendo Romeu e Julieta provavelmente o exemplo mais famoso desse tipo de história). Na canção, porém, o que ocorre é o contrário. Quem canta a música (originalmente um homem, mas pode ser adaptada facilmente a ambos os sexos) já teve um amor, que está em Scarborough. Isso é dito nos versos 3 e 4 (‘Remember me to one who lives there; she once was a true love of mine’ – algo como ‘Mande lembranças minhas àquela que lá vive; ela fora, outrora, meu verdadeiro amor’). Porém, como já ficou explícito, é um amor que se foi. O que se torna claro, no entanto, é a intenção de um voltar e, do outro, não. Por isso, nas estrofes seguintes, aquele que canta a balada dá ao seu “ex-amor” tarefas impossíveis a serem realizadas. Se ela assim as fizer, poderão se amar novamente. Do contrário, permanecerão separados.
São tarefas que devem ser falhadas, e creio ser este o ponto mais interessante da canção, que desfaz o mito do amor verdadeiro, transformando-o em uma espécie de grave rancor de origem desconhecida. Talvez seja essa a grande questão: por que ele exige essas tarefas impossíveis para não mais ficar com ela? Por que não há mais o amor, e sim o desdém, da parte dele?
Além destas questões de conteúdo, há outros assuntos formais da balada. Por exemplo, o segundo verso de todas as estrofes é uma enumeração de ervas (‘Parsley, sage, rosemary and thyme’ – ‘salsinha, salva, alecrim e timo’), o que, por mais estranho que seja, não é incomum em línguas nórdicas, como Sueco e Finlandês, e até mesmo o Alemão. Como há pouco que remonte à verdadeira origem da balada, sugere-se que seja uma rima alternativa ao refrão original. Ou, conforme me confidenciou a wikipedia, pode ter a ver com a crença pagã de que estes quatro temperos, quando misturados, servem como um feitiço de amor.
De qualquer modo, há ainda outras versões para este verso, como ‘Sober and grave grows merry in time’ (‘Sério e grave se alegram com o tempo’), ‘Every rose grows merry with time’ (‘Cada rosa se alegra com o tempo’), e ‘There's never a rose grows fairer with time’ (‘Não há rosa que se alegre tanto com o tempo’).
Todos esses versos só me fazem pensar que há algo mais por trás de tanto desdém, como algum amor velado ou alguma espécie de sentimento querido, mesmo que ressentido, pela mulher (não) amada. Coloquei abaixo a letra com uma tradução livre (e de minha autoria) ao lado. E, ainda, duas versões da música. A primeira interpretada por Hayley Westenra, do espetáculo Celtic Woman (‘Mulher Celta’), que contém uma estrofe a menos, e a que mais gosto, de Simon e Garfunkel. A versão deles também contém alguns versos contra a Guerra Fria, mas decidi não falar disso aqui para não fugir ao propósito, que é falar da origem dessa canção.
Portanto, ei-la:
Are you going to Scarborough Fair? (Você está indo para Scarborough Fair?)
Parsley, sage, rosemary, and thyme. (Salsinha, salva, alecrim e timo.)
Remember me to one who lives there, (Mande lembranças minhas àquela que lá vive,)
she once was a true love of mine. (ela fora, outrora, meu verdadeiro amor.)
Tell her to make me a cambric shirt. (Diga-lhe para me fazer uma camisa de cambraia)
Parsley, sage, rosemary, and thyme. (Salsinha, salva, alecrim e timo.)
Without no seams nor needlework, (Sem linha nem bordados)
Then she'll be a true love of mine. (E ela será meu verdadeiro amor)
Tell her to find me an acre of land. (Diga-lhe para me encontrar m acre de terra)
Parsley, sage, rosemary, and thyme. (Salsinha, salva, alecrim e timo.)
Between salt water and the sea strands, (Entre água salgada e faixas de mar)
Then she'll be a true love of mine. (E ela será meu verdadeiro amor)
Tell her to reap it in a sickle of leather. (Diga-lhe para colhê-los com uma ceifa de couro)
Parsley, sage, rosemary, and thyme. (Salsinha, salva, alecrim e timo.)
And gather it all in a bunch of heather, (E juntar tudo em um monte de urzes).
Then she'll be a true love of mine. (E ela será meu verdadeiro amor)
Are you goin' to Scarborough Fair? (Você está indo para Scarborough Fair?)
Parsley, sage, rosemary, and thyme. (Salsinha, salva, alecrim e timo.)
Remember me to one who lives there, (Mande lembranças minhas àquela que lá vive,)
She once was a true love of mine. (ela fora, outrora, meu verdadeiro amor.)
Primeiramente, para deixar bem claro, essa canção não é muito conhecida do público brasileiro, mas é tradicional da Inglaterra e razoavelmente conhecida em países de língua inglesa. Sua origem é desconhecida, mas remonta de alguns séculos, tendo tomado forma mais recentemente, em torno de 1800, contando uma história de amor (?) sobre um homem e uma mulher. Antes de partir para o conteúdo, no entanto, acho interessante falar um pouco sobre sua história.
Como dito antes, sua origem não é muito clara, mas há teorias que remontam para a balada “The Elvish Knight”, que fala de um cavaleiro elfo maligno que tenta seqüestrar uma donzela, Isabel. O nome dela, na verdade, costuma variar m diferentes versões, mas esse é o mais conhecido. Alguns leitores mais antigos desse blog já devem ter reconhecido essa balada do conto que escrevi há algum tempo chamado “Faerie ou Isabela e o Cavaleiro Elfo”. Escrevi-o em duas partes (para quem quiser ler: parte 1 aqui http://visoesnaareia.blogspot.com/2009/04/faerie-parte-1-de-3.html; parte 2 aqui http://visoesnaareia.blogspot.com/2009/05/faerie-parte-2-de-2.html. Recomendo a leitura. Gostei muito de escrever, e acho que gostariam de ler também), tentando dar um contexto à balada e uma motivação para sua criação.
Na realidade, a minha tradução se baseia em versões mais modernas da balada, visto que as mais antigas cantavam de um elfo que dava tarefas impossíveis para uma donzela realizar, levando-a consigo caso ela falhasse. E é nessa versão que se baseia a música.
Prosseguindo com a questão histórica, Scarborough é uma cidade na Inglaterra onde havia esta Scarborough Fair, a Feira de Scarborough. Uma cidade mercante que havia recebido aval do rei, diminuindo-lhe impostos sobre mercadores. Daí ficou instituída essa Feira, da qual diversos comerciantes de distintas e variadas regiões participavam. Hoje ela já não existe mais por ser inviável, mas foi por séculos um dos grandes atrativos da região.
Se pensado no contexto da balada, esse é um fato até passageiro e um tanto irrelevante, visto que a história da canção poderia se dar em qualquer local. Mas como a música se chama Scarborough Fair, e o primeiro verso é: ‘Are you going to Scarborough Fair’ (‘Você está indo para a Feira de Scarborough?’), achei que seria interessante explicar sua origem.
O que me chamou atenção na música, na verdade, além de ser uma balada muito bonita, é a história por trás, que trata sobre o tema do amor, mas sob outro prisma. Todos nós conhecemos histórias de um casal apaixonado que tem de passar por incríveis e dramáticas desventuras para ficarem juntos (sendo Romeu e Julieta provavelmente o exemplo mais famoso desse tipo de história). Na canção, porém, o que ocorre é o contrário. Quem canta a música (originalmente um homem, mas pode ser adaptada facilmente a ambos os sexos) já teve um amor, que está em Scarborough. Isso é dito nos versos 3 e 4 (‘Remember me to one who lives there; she once was a true love of mine’ – algo como ‘Mande lembranças minhas àquela que lá vive; ela fora, outrora, meu verdadeiro amor’). Porém, como já ficou explícito, é um amor que se foi. O que se torna claro, no entanto, é a intenção de um voltar e, do outro, não. Por isso, nas estrofes seguintes, aquele que canta a balada dá ao seu “ex-amor” tarefas impossíveis a serem realizadas. Se ela assim as fizer, poderão se amar novamente. Do contrário, permanecerão separados.
São tarefas que devem ser falhadas, e creio ser este o ponto mais interessante da canção, que desfaz o mito do amor verdadeiro, transformando-o em uma espécie de grave rancor de origem desconhecida. Talvez seja essa a grande questão: por que ele exige essas tarefas impossíveis para não mais ficar com ela? Por que não há mais o amor, e sim o desdém, da parte dele?
Além destas questões de conteúdo, há outros assuntos formais da balada. Por exemplo, o segundo verso de todas as estrofes é uma enumeração de ervas (‘Parsley, sage, rosemary and thyme’ – ‘salsinha, salva, alecrim e timo’), o que, por mais estranho que seja, não é incomum em línguas nórdicas, como Sueco e Finlandês, e até mesmo o Alemão. Como há pouco que remonte à verdadeira origem da balada, sugere-se que seja uma rima alternativa ao refrão original. Ou, conforme me confidenciou a wikipedia, pode ter a ver com a crença pagã de que estes quatro temperos, quando misturados, servem como um feitiço de amor.
De qualquer modo, há ainda outras versões para este verso, como ‘Sober and grave grows merry in time’ (‘Sério e grave se alegram com o tempo’), ‘Every rose grows merry with time’ (‘Cada rosa se alegra com o tempo’), e ‘There's never a rose grows fairer with time’ (‘Não há rosa que se alegre tanto com o tempo’).
Todos esses versos só me fazem pensar que há algo mais por trás de tanto desdém, como algum amor velado ou alguma espécie de sentimento querido, mesmo que ressentido, pela mulher (não) amada. Coloquei abaixo a letra com uma tradução livre (e de minha autoria) ao lado. E, ainda, duas versões da música. A primeira interpretada por Hayley Westenra, do espetáculo Celtic Woman (‘Mulher Celta’), que contém uma estrofe a menos, e a que mais gosto, de Simon e Garfunkel. A versão deles também contém alguns versos contra a Guerra Fria, mas decidi não falar disso aqui para não fugir ao propósito, que é falar da origem dessa canção.
Portanto, ei-la:
Are you going to Scarborough Fair? (Você está indo para Scarborough Fair?)
Parsley, sage, rosemary, and thyme. (Salsinha, salva, alecrim e timo.)
Remember me to one who lives there, (Mande lembranças minhas àquela que lá vive,)
she once was a true love of mine. (ela fora, outrora, meu verdadeiro amor.)
Tell her to make me a cambric shirt. (Diga-lhe para me fazer uma camisa de cambraia)
Parsley, sage, rosemary, and thyme. (Salsinha, salva, alecrim e timo.)
Without no seams nor needlework, (Sem linha nem bordados)
Then she'll be a true love of mine. (E ela será meu verdadeiro amor)
Tell her to find me an acre of land. (Diga-lhe para me encontrar m acre de terra)
Parsley, sage, rosemary, and thyme. (Salsinha, salva, alecrim e timo.)
Between salt water and the sea strands, (Entre água salgada e faixas de mar)
Then she'll be a true love of mine. (E ela será meu verdadeiro amor)
Tell her to reap it in a sickle of leather. (Diga-lhe para colhê-los com uma ceifa de couro)
Parsley, sage, rosemary, and thyme. (Salsinha, salva, alecrim e timo.)
And gather it all in a bunch of heather, (E juntar tudo em um monte de urzes).
Then she'll be a true love of mine. (E ela será meu verdadeiro amor)
Are you goin' to Scarborough Fair? (Você está indo para Scarborough Fair?)
Parsley, sage, rosemary, and thyme. (Salsinha, salva, alecrim e timo.)
Remember me to one who lives there, (Mande lembranças minhas àquela que lá vive,)
She once was a true love of mine. (ela fora, outrora, meu verdadeiro amor.)
quinta-feira, 4 de março de 2010
Pra não dizer que nçao falei de flores...
Prosseguindo com as escassas atualizações do blog, ainda não tenho nenhum novo conteúdo (seja literário, conceitual etc) para postar, mas me vejo no dever de ao menos explicar minha ausência (que agora está sendo, mesmo que de leve, suprida) nos blogs alheios.
Pois bem, fiz a prova, mas não deu. Não passei, apesar do estudo e do sacrifício. Mas para ser bem sincero, eu achei mesmo que não seria esse ano. Que bom que ano que vem tem mais, então. Posso fazer a prova de novo, me preparar melhor, e entreter o consul devidamente (sequer me chamaram pra essa parte; nem pude demonstrar meus dotes, por assim dizer...). Mas sem brincadeiras, fiquei um pouco chateado (saí pra afogar as mágoas com amigos), mas não era algo inesperado. Acho que isso ensina duas coisas (ou mais, dependendo de quem interpretar e de que forma): a primeira é que todos vamos falhar eventualmente, ou ver nossos planos darem errado. A segunda é que, nem por isso, precisamos de desistir dos nossos sonhos. Perdão pelo conteúdo meio melodramático, não costumo ser assim, mas acho que temos que pensar positivo. Algo meio Poliana (polianóide, como diria uma amiga minha). De resto, volta às aulas semana que vem, e volta aos escritos também. E aos comentários, claro. Enquanto isso, fiquem com o meu amigo Tom Sawyer:
Pois bem, fiz a prova, mas não deu. Não passei, apesar do estudo e do sacrifício. Mas para ser bem sincero, eu achei mesmo que não seria esse ano. Que bom que ano que vem tem mais, então. Posso fazer a prova de novo, me preparar melhor, e entreter o consul devidamente (sequer me chamaram pra essa parte; nem pude demonstrar meus dotes, por assim dizer...). Mas sem brincadeiras, fiquei um pouco chateado (saí pra afogar as mágoas com amigos), mas não era algo inesperado. Acho que isso ensina duas coisas (ou mais, dependendo de quem interpretar e de que forma): a primeira é que todos vamos falhar eventualmente, ou ver nossos planos darem errado. A segunda é que, nem por isso, precisamos de desistir dos nossos sonhos. Perdão pelo conteúdo meio melodramático, não costumo ser assim, mas acho que temos que pensar positivo. Algo meio Poliana (polianóide, como diria uma amiga minha). De resto, volta às aulas semana que vem, e volta aos escritos também. E aos comentários, claro. Enquanto isso, fiquem com o meu amigo Tom Sawyer:
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Dômo Arigatô, Mr. Robottô
Gostari de agradecer, e muito, a todos que passaram aqui nos últimos dias e que comentaram o meu blog, mesmo sem terem tido retorno de minha parte. Muito obrigado mesmo. Mas como eu havia falado, estou com uma procissão de eventos, todos ocorrendo ao mesmo tempo, na minha vida, e está cada vez mais difícil de me comunicar. Na minha casa quase já nem tem tomada. Nem cadeira. Estou praticamente de pé escrevendo isso. Para quem não lembra, estou em processo de mudança, que começou, de fato, hoje. E minha casa (apartamento, na verdade) está intransitável. Mas amanhã vem o pessoal levar tudo pro apartamento novo, e acho que acabarei passando o carnaval na função (tem alguém em Porto Alegre que qeueira fazer festa com um moreno de 1,80m? Não? hehehe). Mas bom, piadinhas infames a aparte, uma vez mais obrigado, e juro que assim que possível (creio que já no meio da semana que vem) me inteiro de tudo que ocorre em blogs alheios, e volto a me involver. Porque ser parte passiva não tem metade da graça de ser um mebro ativo dos blogs de quinta, e vocês sabem disso. Um abraço a todos, e té mais ;-)
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Desculpas... de novo
Pois é, está virando rotina, mas aqui esotu eu de novo, em meu enésimo post, pedindo desculpas pela falta de updates e pelo meu recente relapso nos blogs alheios. Mas, se servir de consolo, nem no meu eu tenho vindo. E isso se deve a alguns motivos, que pretendo enumerar de forma breve e sucinta.
Estou de férias, mas nem por isso tenho tido tempo livre. Como já comentei algumas vezes, farei uma prova no consulado japonês para concorrer a uma bolsa de um ano de estudos no Japão. Essa prova se dará dia 22 de fevereiro, o que significa que a data está próxima e o tempo está passando. Além de estudar, tenho que preencher os formulários, conseguir minha documentação e treinar minha conversação, visto que teremos de entreter o consul, em japonês, por algo em torno de 15 a 20 minutos. Haja japonês para encher todo esse tempo. Além disso, estou me mudando. O que significa desmontar a casa, separar o lixo, juntar minhas coisas e depois botar tudo no lugar, só que no apartamento novo. Além do mais, parece que meu bom nome de tradutor se espalhou (ao menos, eu gosto de pensar que tenho um bom nome), e cada vez mais gente tem me mandado trabalho. O que significa menos tempo para as miscelâneas, blog incluso. Isso sem falar que meu pc me odeia. Mas eu já disse isso.
Então me perdoem, mas, como já disse meu amigo Pernalonga, "Por hoje é só, pessoal".
Estou de férias, mas nem por isso tenho tido tempo livre. Como já comentei algumas vezes, farei uma prova no consulado japonês para concorrer a uma bolsa de um ano de estudos no Japão. Essa prova se dará dia 22 de fevereiro, o que significa que a data está próxima e o tempo está passando. Além de estudar, tenho que preencher os formulários, conseguir minha documentação e treinar minha conversação, visto que teremos de entreter o consul, em japonês, por algo em torno de 15 a 20 minutos. Haja japonês para encher todo esse tempo. Além disso, estou me mudando. O que significa desmontar a casa, separar o lixo, juntar minhas coisas e depois botar tudo no lugar, só que no apartamento novo. Além do mais, parece que meu bom nome de tradutor se espalhou (ao menos, eu gosto de pensar que tenho um bom nome), e cada vez mais gente tem me mandado trabalho. O que significa menos tempo para as miscelâneas, blog incluso. Isso sem falar que meu pc me odeia. Mas eu já disse isso.
Então me perdoem, mas, como já disse meu amigo Pernalonga, "Por hoje é só, pessoal".
domingo, 10 de janeiro de 2010
Feliz ano novo (um tanto atrasado)
Bom, eu sei que não tenho postado aqui nem com a confluência necessária de um blog semanal nem com a precisão necessária para um blog considerado de quinta(-feira). E eu achava inclusive que ficaria mais uma semana sem postar por alguns motivos: um deles a falta de criatividade para o momento, outro a vontade de descansar e de não fazer nada nesse momento (o que, para o bem ou para o mal, não poderá ser feito; muito estudo e esforço pela frente). Contudo, apesar disso, enquanto viajava na internet, de repente me deparei com o blog de um dos meus autores favoritos, o britânico Neil Gaiman. Para quem não conhece, é um romancista que iniciou sua carreira em histórias em quadrinhos e que, mais tarde, migrou para uma arte com mais palavras e menos desenhos. Mas isso não vem ao caso. Quem quiser saber mais sobre ele pode procurar pelo google ou por nossa sempre fiel wikipedia. E acreditem, vale a pena.
O que me chamou a atenção foi a mensagem de ano novo que ele postou em seu blog e que depois leu (para uma multidão) quando Londres adentrou o ano de 2010. Achei uma mensagem muito bonita e intrigante, e não tive como evitar o desejo de tê-la também aqui em meu blog. O ano novo já passou, mais de semana, mas creio que nem isso torne a mensagem menos válida. Eis, portanto, a tradução:
"Que seu próximo ano seja cheio de magia, sonhos e saudáveis loucuras. Espero que leia bons livros, e que beije alguém que o ache maravilhoso. E não esqueça de fazer arte - escreva ou desenhe ou construa ou cante ou viva como apenas você pode. Que seu próximo ano seja maravilhoso, em que você sonhe tão perigosa quanto corajosamente. Espero que você crie algo que não existia antes que você o criasse, e que você seja amado e apreciado, e que tenha pessoas que possa amar e apreciar em troca. E ainda mais importante (porque eu acho que deveria haver mais bondade e sabedoria no mundo hoje) que você seja quando necessário for, sábio, e sempre bondoso.
E eu espero que, em algum momento do próximo ano, você se surpreenda."
Eis aí a minha (?) mensagem de ano novo. Sequer é minha, de fato, e está atrasada, mas como eu mesmo havia escrito, não creio que isso tire a verdade, a beleza e a sinceridade destas palavras.
O que me chamou a atenção foi a mensagem de ano novo que ele postou em seu blog e que depois leu (para uma multidão) quando Londres adentrou o ano de 2010. Achei uma mensagem muito bonita e intrigante, e não tive como evitar o desejo de tê-la também aqui em meu blog. O ano novo já passou, mais de semana, mas creio que nem isso torne a mensagem menos válida. Eis, portanto, a tradução:
"Que seu próximo ano seja cheio de magia, sonhos e saudáveis loucuras. Espero que leia bons livros, e que beije alguém que o ache maravilhoso. E não esqueça de fazer arte - escreva ou desenhe ou construa ou cante ou viva como apenas você pode. Que seu próximo ano seja maravilhoso, em que você sonhe tão perigosa quanto corajosamente. Espero que você crie algo que não existia antes que você o criasse, e que você seja amado e apreciado, e que tenha pessoas que possa amar e apreciar em troca. E ainda mais importante (porque eu acho que deveria haver mais bondade e sabedoria no mundo hoje) que você seja quando necessário for, sábio, e sempre bondoso.
E eu espero que, em algum momento do próximo ano, você se surpreenda."
Eis aí a minha (?) mensagem de ano novo. Sequer é minha, de fato, e está atrasada, mas como eu mesmo havia escrito, não creio que isso tire a verdade, a beleza e a sinceridade destas palavras.
domingo, 27 de dezembro de 2009
Canção de um marinheiro
Faz tempo, mas só agora eu percebi que, apesar de prometer, eu não falei sobre minha prova de japonês, o Nouryoku shiken. Como eu já disse em outras oportunidades, é a prova de proficiência feita pela Japan Foundation (a Fundação Japão; e sim, esse é o nome deles mesmo, em inglês. Como é um órgão internacional, decidiram usar o nome em inglês, e não em japonês). Se deu domingo dia 06 de Dezembro. Pois bem, a prova se divide em em três. A primeira prova é de kanjis e vocabulário. A segunda é a prova de audição (o famoso listening :P), e por último, gramática. Pois bem, posso garantir que fui bem na primeira e na terceira. O que me tira o sono, atualmente, foi meu desempenho no teste de audição. Não tenho certeza se fui tão bem assim. Acho que fui mais ou menos. Contudo, para passar no teste, é necessário acertar 60% em cada um das provas separadamente. Se meu mais ou menos foi mais de 60%, passei. Se foi menos, fica para o ano que vem... Saberei disso em Março, apenas. O motivo? Simples, os japoneses querem corrigir a prova (de múltipla escolha, com folha óptica igual a vestibular) em solo japonês. Não bastasse isso, a prova tem de ir, pasmem, de navio! Vai entender...
Bom, mudando de assunto. Para aqueles que leram o meu texto "Luz de velas", deve ter percebido a influência que sofri do poema "Ismália", de Alphonsus Guimarães. É um dos meus poemas favoritos (brasileiro ou estrangeiro). Um dos mais bonitos que conheço. Recomendo a todos que leiam. Minha colega blogueira Gi postou o poema em seu blog (link: http://profetadopassado.blogspot.com/2009/12/ismalia.html). Leiam que vale. Contudo, ainda há mais uma influência que, como se diz, passou batido. Também não os culpo. É uma música e uma banda não muito conhecida do grande público. A música se chama "A Sailorman's Hymn", da banda Kamelot, e conta (ou canta?) a história de uma jovem que acende uma vela à noite para guiar seu marido que está no mar. Para aqueles que têm curiosidade, vale a pena conferir (por favor, tenham curiosidade. Gosto muito desta música (e de outras da banda) e gostaria de compartilhar com vocês). Portanto, aí vai o vídeo. Aproveitem!
Bom, mudando de assunto. Para aqueles que leram o meu texto "Luz de velas", deve ter percebido a influência que sofri do poema "Ismália", de Alphonsus Guimarães. É um dos meus poemas favoritos (brasileiro ou estrangeiro). Um dos mais bonitos que conheço. Recomendo a todos que leiam. Minha colega blogueira Gi postou o poema em seu blog (link: http://profetadopassado.blogspot.com/2009/12/ismalia.html). Leiam que vale. Contudo, ainda há mais uma influência que, como se diz, passou batido. Também não os culpo. É uma música e uma banda não muito conhecida do grande público. A música se chama "A Sailorman's Hymn", da banda Kamelot, e conta (ou canta?) a história de uma jovem que acende uma vela à noite para guiar seu marido que está no mar. Para aqueles que têm curiosidade, vale a pena conferir (por favor, tenham curiosidade. Gosto muito desta música (e de outras da banda) e gostaria de compartilhar com vocês). Portanto, aí vai o vídeo. Aproveitem!
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
Feliz natal
Nessa época de final do ano, muito pouco nos resta a dizer, exceto: Boas festas! E para quem gosta de uma musiquinha de natal:
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Luz de velas
Hoje é meu aniversário, mas quem ganha o presente são vocês! Pois é, hoje, dia 09/12, estou fazendo 23 aninhos! Velhice tá chegando. Chega pra todo mundo, aliás. Não me recordo se já postei esse texto antes, mas como hoje é dia de festa e de soprar velinhas, lembrei do título desse texto.
Queria também aproveitar para agradecer aos que passaram por aqui me desejar um ganbarê na prova de japonês e aos que me ligaram ou vieram falar comigo também. A vocês, domo arigatô gozaimasu ('muito obrigado'). Foi uma semana cansativa, final de semestre ainda com prova e últimos trabalhos para entregar, o que quer dizer que não tive o tempo que gostaria para ver e comentar no blog dos outros (ou até para ler os livros que quero e os filmes que tenho vontade, mas essa é outra história). Sumimasen (isso aí é 'me desculpe').
Então, sem mais delongas:
Luz de velas
Ela subia as escadas para a torre apressadamente. Dos seus passos, ecoava o som da urgência. Em seus olhos, jazia o peso de uma vida guiada por escolhas tortas. Escolhas tristes. Em seu peito, ela carregava o peso de decisões tomadas por outros. Nenhuma acertada.
Agora, só lhe restava rezar. E acreditar.
O homem que ela amava havia partido numa jornada em alto-mar, e como manda a tradição, toda noite ela acendia uma vela à varanda, esperando que ele se guiasse pela luz incerta e retornasse ao lar.
E hoje, depois de tantas horas na madrugada, quando não se sabe mais ao certo quando termina a noite e quando começa o dia – nesse intervalo em que o momento é tudo o que existe e não há nada além dele – ela o ouviu. No alto da torre, trancada a sete chaves, o som do caminhar errante daqueles que preferem o mar à terra, a liberdade providencial dos oceanos à prisão reconfortante do solo.
Tomando a chave por entre seus seios, ela abriu a porta da torre. Lá, próximo da janela, a água encharcava o chão, como se alguém tivesse acabado de entrar.
Ela investigou a pequena sala vagarosamente, mas não encontrou o seu homem. Parecia ver alguém ao canto de seus olhos tristes, mas quando se voltava em sua direção, fugia-lhe a imagem – um vulto a escapar-lhe à vista.
Foi então que ouviu, como se num sussurro, a voz que há tanto esperava; vinha ela carregada no suave embalo do vento, na brisa leve que lhe soprava delicadamente sua mensagem inaudível.
A jovem aproximou-se da janela para escutá-la melhor, e foi aí que viu. A noite esvaía-se em raios de sol, e a única prova de sua existência resumia-se a uma estrela solitária, que resistia bravamente à violência do dia.
O astro solitário mais parecia uma vela, lançando sua luz incerta para guiá-la de volta ao lar. Diante de seus olhos, ela tinha uma estrela-guia, e de seus ouvidos, a voz cada vez mais abafada de seu amado a chamá-la.
Vendo o reflexo da vela ao mar, muitos metros abaixo, ela enfim compreendeu. E tomou sua decisão; a primeira em tanto, tanto tempo. Desfazendo-se da tristeza que trajava, revelou enfim a beleza de um sorriso decidido sobre um rosto apaixonado.
Jogou-se contra o reflexo da estrela no mar para unir-se ao seu amor no céu.
Queria também aproveitar para agradecer aos que passaram por aqui me desejar um ganbarê na prova de japonês e aos que me ligaram ou vieram falar comigo também. A vocês, domo arigatô gozaimasu ('muito obrigado'). Foi uma semana cansativa, final de semestre ainda com prova e últimos trabalhos para entregar, o que quer dizer que não tive o tempo que gostaria para ver e comentar no blog dos outros (ou até para ler os livros que quero e os filmes que tenho vontade, mas essa é outra história). Sumimasen (isso aí é 'me desculpe').
Então, sem mais delongas:
Luz de velas
Ela subia as escadas para a torre apressadamente. Dos seus passos, ecoava o som da urgência. Em seus olhos, jazia o peso de uma vida guiada por escolhas tortas. Escolhas tristes. Em seu peito, ela carregava o peso de decisões tomadas por outros. Nenhuma acertada.
Agora, só lhe restava rezar. E acreditar.
O homem que ela amava havia partido numa jornada em alto-mar, e como manda a tradição, toda noite ela acendia uma vela à varanda, esperando que ele se guiasse pela luz incerta e retornasse ao lar.
E hoje, depois de tantas horas na madrugada, quando não se sabe mais ao certo quando termina a noite e quando começa o dia – nesse intervalo em que o momento é tudo o que existe e não há nada além dele – ela o ouviu. No alto da torre, trancada a sete chaves, o som do caminhar errante daqueles que preferem o mar à terra, a liberdade providencial dos oceanos à prisão reconfortante do solo.
Tomando a chave por entre seus seios, ela abriu a porta da torre. Lá, próximo da janela, a água encharcava o chão, como se alguém tivesse acabado de entrar.
Ela investigou a pequena sala vagarosamente, mas não encontrou o seu homem. Parecia ver alguém ao canto de seus olhos tristes, mas quando se voltava em sua direção, fugia-lhe a imagem – um vulto a escapar-lhe à vista.
Foi então que ouviu, como se num sussurro, a voz que há tanto esperava; vinha ela carregada no suave embalo do vento, na brisa leve que lhe soprava delicadamente sua mensagem inaudível.
A jovem aproximou-se da janela para escutá-la melhor, e foi aí que viu. A noite esvaía-se em raios de sol, e a única prova de sua existência resumia-se a uma estrela solitária, que resistia bravamente à violência do dia.
O astro solitário mais parecia uma vela, lançando sua luz incerta para guiá-la de volta ao lar. Diante de seus olhos, ela tinha uma estrela-guia, e de seus ouvidos, a voz cada vez mais abafada de seu amado a chamá-la.
Vendo o reflexo da vela ao mar, muitos metros abaixo, ela enfim compreendeu. E tomou sua decisão; a primeira em tanto, tanto tempo. Desfazendo-se da tristeza que trajava, revelou enfim a beleza de um sorriso decidido sobre um rosto apaixonado.
Jogou-se contra o reflexo da estrela no mar para unir-se ao seu amor no céu.
sábado, 5 de dezembro de 2009
Nihongo nouryoku shiken
Eis o motivo de minha ausência. Essa palavra complicada do título significa "Prova de proficiência em japonês", que ocorrerá amanhã (domingo, dia 06/12) às 08h30min da manhã. Nada mal para começar um domingo, não é? Então, tudo o que peço de vocês é que me desejem sorte (ganbarê, em japonês). Depois conto como foi!
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Minha vida
Bom, gente. Dessa vez me superei. Além de ter demorado duas semanas para postar alguma coisa, ainda demorei para comentar os dos outros (isso se comentei) e não escrevi nada de novo. Contudo, quando pensava sobre o que fazer hoje, cheguei à seguinte conclusão: um aluno de letras aplicado como eu certamente teria algum texto velho e surrado que os meus leitores não conheceriam. E nas minhas pesquisas na memória do meu pc, cá achei essa crônica, que escrevi ainda no primeiro semestre. Olhando agora, vejo várias coisas que gostaria de mudar, mas ainda assim, creio eu, ficou divertida. Espero que vocês gostem de ler tanto quanto eu gostei de escrever. Depois, quem sabe, reescrevo e gosto mais, não é? Se tudo der certo, isso é. Afinal, como já escrevi em post anteriores, minha internet me odeia, e está cada vez mais difícil de me conectar (estou postando isso do pc da minha mãe, por exemplo). Mas deixemos essa história para outra ocasião. Por ora, deixo-vos com:
Minha vida, meu pc
Ah! Tecnologia. Ciência. Computadores. As maravilhas do Mundo Moderno. O que seria de nós sem todas essas coisas e ainda mais? Com o avançar das eras, nos sentimos cada vez mais dependentes dessas ferramentas que facilitam nosso dia-a-dia e se tornaram partes integrais de nossas vidas.
Afinal, como poderíamos viver sem um pc conectado 24 horas por dia à Internet nos bombardeando com filmes pornôs, vírus e Chuck Norris? Porém, eles não se restringem a apenas isso. Ah, não! Há também os utilíssimos e informativos e-mails com formas de obtermos pênis maiores e ereções cada vez mais vigorosas.
Somos postos contra a parede, tal o volume de informações (normalmente inúteis, claro) que veiculam diante de nós. Com velocidade tal, digna de um Schumacher em seus bons tempos (aqueles, quando o Rubinho ainda era segundo piloto...). E, para acompanhar tudo isso, nada melhor que gastar constantemente em upgrades e peças novas para potencializar o pc. Afinal, só assim pra jogar o novo Fifa Soccer ou o RPG Online do momento. Felizmente, pra quem não tem uma máquina desse tipo (ou seja, toda a gurizada que não consegue extorquir os pais da maneira apropriada) ainda consegue ir numa LAN House saciar suas necessidades básicas. Ah! As maravilhas do Mundo Moderno.
No fundo, ter um pc é uma relação de amor e ódio. Ora ele é a ferramenta mais útil na face da terra, nos permitindo pagar contas e administrar nossa casa, ora ele estraga e leva todos os arquivos de todos os usuários junto. Isso se ainda não arrastar o proprietário pra uma clínica psiquiátrica como conseqüência de ter perdido aquele trabalho que demorou dias e mais dias de pesquisa só pra começar. E pra piorar, ainda fazem filmes como ‘O Exterminador do Futuro’ e ‘Matrix’, em que essas mesmas máquinas se voltam contra a humanidade, fazendo as piores coisas: nos privando de nossa liberdade, nos escravizando, assassinando nossa espécie, escondendo o controle da tv... esse tipo de coisa. E ainda assim não conseguimos viver sem eles.
Bom, pelo menos o meu funcionou o bastante pra terminar essa crônica.
Minha vida, meu pc
Ah! Tecnologia. Ciência. Computadores. As maravilhas do Mundo Moderno. O que seria de nós sem todas essas coisas e ainda mais? Com o avançar das eras, nos sentimos cada vez mais dependentes dessas ferramentas que facilitam nosso dia-a-dia e se tornaram partes integrais de nossas vidas.
Afinal, como poderíamos viver sem um pc conectado 24 horas por dia à Internet nos bombardeando com filmes pornôs, vírus e Chuck Norris? Porém, eles não se restringem a apenas isso. Ah, não! Há também os utilíssimos e informativos e-mails com formas de obtermos pênis maiores e ereções cada vez mais vigorosas.
Somos postos contra a parede, tal o volume de informações (normalmente inúteis, claro) que veiculam diante de nós. Com velocidade tal, digna de um Schumacher em seus bons tempos (aqueles, quando o Rubinho ainda era segundo piloto...). E, para acompanhar tudo isso, nada melhor que gastar constantemente em upgrades e peças novas para potencializar o pc. Afinal, só assim pra jogar o novo Fifa Soccer ou o RPG Online do momento. Felizmente, pra quem não tem uma máquina desse tipo (ou seja, toda a gurizada que não consegue extorquir os pais da maneira apropriada) ainda consegue ir numa LAN House saciar suas necessidades básicas. Ah! As maravilhas do Mundo Moderno.
No fundo, ter um pc é uma relação de amor e ódio. Ora ele é a ferramenta mais útil na face da terra, nos permitindo pagar contas e administrar nossa casa, ora ele estraga e leva todos os arquivos de todos os usuários junto. Isso se ainda não arrastar o proprietário pra uma clínica psiquiátrica como conseqüência de ter perdido aquele trabalho que demorou dias e mais dias de pesquisa só pra começar. E pra piorar, ainda fazem filmes como ‘O Exterminador do Futuro’ e ‘Matrix’, em que essas mesmas máquinas se voltam contra a humanidade, fazendo as piores coisas: nos privando de nossa liberdade, nos escravizando, assassinando nossa espécie, escondendo o controle da tv... esse tipo de coisa. E ainda assim não conseguimos viver sem eles.
Bom, pelo menos o meu funcionou o bastante pra terminar essa crônica.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
O universo e a estupidez
O que venho falar aqui, dessa vez, é um episódio verídico que me aconteceu no final de semana passado, durante o feriado. Acho que esse é um tema novo no meu blog. Por incrível que pareça, acho que nunca falei de mim para além de questões superficiais, como objeto de estudo, objetivos, cursos, etc. Mas passemos ao caso. Antes contudo, é necessária uma pequena explicação. Eu tenho um amigo que é cego. O nome dele não importa, o que importa é que ele tem um doença degenerativa da retina, que atingiu um estágio atual que o deixou com menos de 10% da visão; estima-se que ele tenha algo em torno de 5% da visão, mas abaixo dos 10% fica muito difícil de precisar. Fato é que ele não tem a visão fóvica (vulga central), apenas a visão periférica. Somos amigos há algo em torno de 15 ou 16 anos, mas ele não tem como me reconhecer na rua a menos que eu chame a atenção dele, por exemplo. Vocês devem imaginar a dificuldade que é para atravessar ruas, pegar ônibus, etc. Naturalmente, ele usa óculos escuros e bengala. Ah, claro. Apesar da cultura geral ser de que só é cego quem não enxerga nada, existem vários níveis de cegueira. Ele sofre de baixa visão, que é um tipo de cegueira, por exemplo. Bom, adiante:
Fomos a uma festa, eu e ele. Apesar de sua condião poder indicar uma pessoa passiva, aflita e indefesa, ele é perfeitamente capaz de se virar, já me levou para um monte de festas, tem trabalho, estuda como todo mundo; enfim, exceto por sua visão, vive normalmente. Portanto, fomos à festa. Lá, como ele gosta de dançar, ele tirou várias gurias para dançarem com ele. Como ele tem noiva e é um sujeito sério, ele dança porque gosta, não porque tenha segundas intenções. Ele só pede a minha ajuda para dizer quem é guria ao redor.
Bom, algumas pessoas viram e devem ter ficado desconfiadas. Afinal, um cego dançando? Como pode isso? E tal ficou que começaram a passar a mão na frente do rosto dele para ver se ele enxergava. Eu comentei isso com ele, mas ele disse que não se importava, que não dava bola. Ele é um cara tranquilo. Outro dia, quando comentei da preferência dele em filas, em assentos de ônibus, etc: ele só me responde: "é, mas isso me custou os olhos da cara". Tranquilo e bem humorado. Até eu faço piada com ele. E além disso ele é judeu. Faço piada com isso também :P
Bom, elas passaram a mão na frente do rosto dele (sem tocá-lo, logicamente) e achei que fosse parar por aí. Contudo, no momento seguinte, uma das gurias tirou o óculos dele e começou a usar. Eu, bom amigo que sou, pedi educadamente para que ela devolvesse os óculos: "Ele é cego, sua ignorante!". A moça me olhou surpresa, meio aflita, e a amiga dela também. Me perguntaram se era sério, e eu disse que sim. Devolveram os óculos prontamente e começaram a pedir desculpas. Eu confesso que fiquei incomodado com elas e não queria muito papo, mas ele não pareceu se importar muito. Queriam que nos juntássemos a elas e nos deram uma cerveja. Eu, como disse, não estava com vontade de ficar, mas ele achou que seria até uma boa oportunidade de falar sobre o problema dele e esclarecer alguns preconceitos. Aceitei. Mas que podia eu fazer, largar ele ali? Ficamos mais um pouco.
Depois, ele começou a explicar tudo o que eu disse no topo: que ele sofria de baixa visão, tem menos de 5%, só tem a visão periférica, etc. Então, uma das gurias ficou braba com ele por ele não ser cego "de verdade". Que ele era um fingido porque ele enxergava, que ele (e eu, por acompanhá-lo) deveria sentir vergonha de fazer isso, e daí pra baixo. Ele, coerente e um tanto acostumado a discriminação, só disse: "vai estudar". E ela começou a espalhar que ele não era cego. Felizmente ainda tinha gente ali de bom senso que resolveu ignorá-la, gente que veio nos dar apoio ou pedir desculpas por ela. Mas também teve gente que nos mandou embora. Agora que nada mais nos prendia ali (muito antes pelo contrário), saímos. Um tanto escandlizados pelo evento, mas já presenciei outros assim. Certa vez, quando atravessava a rua com ele, na faixa de segurança, teve arro que começou a buzinar (para um cego!), abriu a janela e mandou o cego sair da rua, já que ele não conseguia atravessar.
É por essas e outras que sabemos que Einstein tinha razão quando disse: "Apenas duas coisas são infinitas, o universo a estupidez humana, e eu não tenho certeza quanto ao primeiro".
Fomos a uma festa, eu e ele. Apesar de sua condião poder indicar uma pessoa passiva, aflita e indefesa, ele é perfeitamente capaz de se virar, já me levou para um monte de festas, tem trabalho, estuda como todo mundo; enfim, exceto por sua visão, vive normalmente. Portanto, fomos à festa. Lá, como ele gosta de dançar, ele tirou várias gurias para dançarem com ele. Como ele tem noiva e é um sujeito sério, ele dança porque gosta, não porque tenha segundas intenções. Ele só pede a minha ajuda para dizer quem é guria ao redor.
Bom, algumas pessoas viram e devem ter ficado desconfiadas. Afinal, um cego dançando? Como pode isso? E tal ficou que começaram a passar a mão na frente do rosto dele para ver se ele enxergava. Eu comentei isso com ele, mas ele disse que não se importava, que não dava bola. Ele é um cara tranquilo. Outro dia, quando comentei da preferência dele em filas, em assentos de ônibus, etc: ele só me responde: "é, mas isso me custou os olhos da cara". Tranquilo e bem humorado. Até eu faço piada com ele. E além disso ele é judeu. Faço piada com isso também :P
Bom, elas passaram a mão na frente do rosto dele (sem tocá-lo, logicamente) e achei que fosse parar por aí. Contudo, no momento seguinte, uma das gurias tirou o óculos dele e começou a usar. Eu, bom amigo que sou, pedi educadamente para que ela devolvesse os óculos: "Ele é cego, sua ignorante!". A moça me olhou surpresa, meio aflita, e a amiga dela também. Me perguntaram se era sério, e eu disse que sim. Devolveram os óculos prontamente e começaram a pedir desculpas. Eu confesso que fiquei incomodado com elas e não queria muito papo, mas ele não pareceu se importar muito. Queriam que nos juntássemos a elas e nos deram uma cerveja. Eu, como disse, não estava com vontade de ficar, mas ele achou que seria até uma boa oportunidade de falar sobre o problema dele e esclarecer alguns preconceitos. Aceitei. Mas que podia eu fazer, largar ele ali? Ficamos mais um pouco.
Depois, ele começou a explicar tudo o que eu disse no topo: que ele sofria de baixa visão, tem menos de 5%, só tem a visão periférica, etc. Então, uma das gurias ficou braba com ele por ele não ser cego "de verdade". Que ele era um fingido porque ele enxergava, que ele (e eu, por acompanhá-lo) deveria sentir vergonha de fazer isso, e daí pra baixo. Ele, coerente e um tanto acostumado a discriminação, só disse: "vai estudar". E ela começou a espalhar que ele não era cego. Felizmente ainda tinha gente ali de bom senso que resolveu ignorá-la, gente que veio nos dar apoio ou pedir desculpas por ela. Mas também teve gente que nos mandou embora. Agora que nada mais nos prendia ali (muito antes pelo contrário), saímos. Um tanto escandlizados pelo evento, mas já presenciei outros assim. Certa vez, quando atravessava a rua com ele, na faixa de segurança, teve arro que começou a buzinar (para um cego!), abriu a janela e mandou o cego sair da rua, já que ele não conseguia atravessar.
É por essas e outras que sabemos que Einstein tinha razão quando disse: "Apenas duas coisas são infinitas, o universo a estupidez humana, e eu não tenho certeza quanto ao primeiro".
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Uma vez mais, pulei uma semana. Não quero que isso se torne hábito, mas a verdade é que estou cada vez mais focado no Noryoku Shiken (aquele teste de proficiência em japonês do qual falei no post passado). As boas novas é que fiz um simulado (na verdade, a prova de 2006) e o resultado foi positivo: passei! Resta ver se na edição de 2009 também passo. Mas como ainda tem mais de um mês pela frente, estou cada vez mais confiante na vitória. hehehe
Contudo, isso provavelmente significa que os posts vão ficar meio atravessados. Além dos comentários que costumo fazer. Gosto de ler bem e de pensar a respeito de cada um dos posts, tentando ser o mais "ajudante" possível, o que fica complicado diante do volume de estudos que estou tendo. Juro que vou tentar compensar e me organizar para dar tempo para tudo, mas é difícil. E, muitas vezes, cansativo. Mesmo.
Só para não perder o barco: gostei do comentário da Gi sobre o tópico do outro post. Só para relembrar, falei de autoria e da intenção do autor, argumentando que o que interessa, na verdade, é a interpretação que o leitor faz da obra, e não o que o autor talvez tivesse vontade de dizer. Aí ela argumentou: pena que o vestibular não pensa assim. É verdade. Pena. Estão perdendo uma ótima chance de dar mais autonomia aos estudantes e de fazê-los raciocinar sobre o que lêem, ao invés de apenas decorar mais "fórmulas" para passar. Sei que o vestibular necessita de um critério objetivo para definir quem passa e quem roda, mas não penso que jogar uma interpretação específica sobre o que é o certo sobre tal autor e o que é errado seja o melhor. Mas quem sou eu para falar. Só um blogueiro. Ainda, pelo menos.
E, para não deixar ninguém (muito) na mão, resolvi postar um video de uma banda japonesa que faz muito sucesso: B'z. Sim, é esse o nome mesmo. Gosto do som deles, especialmente da guitarra (os mais observadores verão que o guitarrista é feio pra caramba, mas toca muito :P), e é um rock um pouco diferente do que costumamos ouvir. Bom, quem sabe eu não deixo eles mesmos se apresentarem?
Para quem quiser ver a letras, está nesse site (http://bz.9fishdesign.com/bzlyrics/lovedead.htm) com a traduçao (em inglês). Se vocês se interessarem, posso postar a tradução em português mais tarde, durante a semana. Bom, aproveitem
Contudo, isso provavelmente significa que os posts vão ficar meio atravessados. Além dos comentários que costumo fazer. Gosto de ler bem e de pensar a respeito de cada um dos posts, tentando ser o mais "ajudante" possível, o que fica complicado diante do volume de estudos que estou tendo. Juro que vou tentar compensar e me organizar para dar tempo para tudo, mas é difícil. E, muitas vezes, cansativo. Mesmo.
Só para não perder o barco: gostei do comentário da Gi sobre o tópico do outro post. Só para relembrar, falei de autoria e da intenção do autor, argumentando que o que interessa, na verdade, é a interpretação que o leitor faz da obra, e não o que o autor talvez tivesse vontade de dizer. Aí ela argumentou: pena que o vestibular não pensa assim. É verdade. Pena. Estão perdendo uma ótima chance de dar mais autonomia aos estudantes e de fazê-los raciocinar sobre o que lêem, ao invés de apenas decorar mais "fórmulas" para passar. Sei que o vestibular necessita de um critério objetivo para definir quem passa e quem roda, mas não penso que jogar uma interpretação específica sobre o que é o certo sobre tal autor e o que é errado seja o melhor. Mas quem sou eu para falar. Só um blogueiro. Ainda, pelo menos.
E, para não deixar ninguém (muito) na mão, resolvi postar um video de uma banda japonesa que faz muito sucesso: B'z. Sim, é esse o nome mesmo. Gosto do som deles, especialmente da guitarra (os mais observadores verão que o guitarrista é feio pra caramba, mas toca muito :P), e é um rock um pouco diferente do que costumamos ouvir. Bom, quem sabe eu não deixo eles mesmos se apresentarem?
Para quem quiser ver a letras, está nesse site (http://bz.9fishdesign.com/bzlyrics/lovedead.htm) com a traduçao (em inglês). Se vocês se interessarem, posso postar a tradução em português mais tarde, durante a semana. Bom, aproveitem
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
De liberdades e afins
Pois é, dessa vez consegui atualizar na quinta; contudo, seguindo a linha das últimas semanas, também estou um pouco sem tempo. Sei que essa desculpa já não deve estar mais colando, mas eu tenho uma boa explicação para estar assim. E ela se chama Nihongo no ryoku shiken. Para quem não conhece, é uma prova de proficiência em japonês. Vai acontecer dia 06/12, e estou me preparando ardentemente para ela. Por que?, vocês perguntam? Porque, eu respondo, se conseguir uma boa nota, poderei pleitear uma bolsa de estudos no consulado japonês (tem um aqui em Porto Alegre) para estudar lá por dois semestres (e, quem sabe, até um mestrado ou doutorado. Um colega meu foi no início de Outubro, há duas semanas). Eis a razão de tanta demora (e de por que eu ter estado tão focado em japonês em certo momento. Era mais fácil me concentar nessa matéria devido ao volume de estudo recente. Quem sabe o que o futuro me aguarda, não?
Contudo, eu gostaria de me focar em outra questão neste momento. Eu tinha vontade de comentar isso faz mais tempo, mas acabei me passando. Num dos posts recentes, um dos leitores me pediu a "real interpretação" do meu texto; ou seja, o que eu queria dizer com ele.
De fato, o autor pode ter muito a dizer com um texto, pode ter planos e expectativas bem palpáveis com ele, mas acho que nem por isso essa seja a única/real interpretação. Muito pelo contrário, é só mais uma. Um dos motivos por que digo isso é que, em muitas ocasiões, o que o autor quer dizer não é necessariamente o que está escrito; são duas coisas diferentes. Muitas vezes eu me surpreendi com interpretações que leitores fizeram com os meus textos; leituras que eu jamais havia pensado. E sabem de uma coisa? Eu gostei. Muitas vezes concordei: "acho que é isso mesmo", pensava. E por que não? Só porque a minha opinião é diferente ela é a certa? Uma coisa é uma interpretação ruim, algo mal entendido, algum evento que escapou à atenção que mudariam a visão da narrativa. Algo completamente diferente de entendimento. Além do que, eu gosto muito quando vários leitores têm interpretações diferentes sobre um mesmo texto. Odiava (e ainda odeio, para ser bem sincero) aulas de literatura em que o professor tenta nos enfiar a "leitura certa" goela abaixo. Me lembro até hoje de uma aula que tive na faculdade, em que a professora estava dando a interpretação de um poema. Eu, sinceramente, achei aquela interpretação muito "longa", muito complexa. Duvidava que, ao escrever, o narrador tivesse pensado naquilo tudo. Para mim a leitura era muito mais simples. Vejam bem, não me lembro mais do poema nem das interpretações, mas disso mej lembro: levantei o braço e compartilhei minha opinião, dizendo o que pensava (que o autor não era esse gênio todo, tinha uma visão muito mais simples do que a professora achava). Aí foi uma das piores coisas que já vi: ela nem respondeu, só baixou os olhos, fez um sinal de negativo com a cabeça e continuou dando aula. Só faltou dizer algo como: tolinho. Aí eu estava acabado mesmo...
Até porque, eu creio que o texto, ao deixar a mesa do autor para ganhar a internet, os livros, ou só um guardanapo mesmo, ele ganha vida própria, autonomia, independência do autor. Num caso mais extremo: um dia o autor vai morrer, e o texto vai continuar. Como aconteceu com "Dom Casmurro", "Dom Quixote", "Crime e Castigo", "O Senhor dos Anéis", etc. Ninguém se preocupa em perguntar para o autor o que ele quis dizer com isso ou aquilo. Ou alguém conhece alguma sessão espírita que incorpore Homero, Virgílio, Fernando Pessoa e afins?
E sabem de uma coisa? Ninguém se importa com o que eles pensavam. Mesmo. Querem ver? Retomando o exemplo: Dom Quixote. O livro era um ataque à corte e a inimigos pessoais de Cervantes (com o nome deles e tudo). Ridicularizava todos eles e sua cavalaria. De acordo com um professor meu: veneno puro. Hoje virou um romance heróico sobre amor e esperança, com pitadas de humor e sarcasmo. Um clássico. E sabem por quê? Porque tinha nesse livro algo que escapava ao mero domínio do autor/narrador. Algo muito maior do que ele, e ganhou vida própria. Outro exemplo: ALice no País das Maravilhas. Esse livro pode ser lido como uma crítica à corte inglesa com apologia às drogas inclusive. A Disney transformou em desenho infantil. E a intenção do autor, cadê? Em qualquer outro lugar. Porque, sinceramente, não interessa. O que interessa é o texto e aquilo que ele nos diz, porque somos livres para ler e pensarmos no que quisermos. Nós, leitores, ajudamos a dar sentido às palavras. Eu, sinceramente, odeio quando sinto que o narrador tenta me levar pela mão e me guiar por todo o texto. Me sinto menosprezado, tratado como idiota. Gosto quando ele me deixa livre para imaginar e voar conforme meus próprios desejos. Muitas vezes, quando vou ler um texto meu, sinto justamente que falta alguma conexão, que só eu como autor consigo enxergar, e lá vou eu trabalhar o texto para garantir que meus leitores vão conseguir extrair alguma coisa dali. Sem, contudo, me meter na leitura deles. Creio que é um balanço delicado, que nem sempre dá certo. Mas eu tento. E quando dá, dá um gosto de ver. Ou ler, no caso.
Alguém aí está de acordo? Não? Que bom que estamos na internet, então. Venha concordar, bater em mim ou ficar em cima do muro :P
Contudo, eu gostaria de me focar em outra questão neste momento. Eu tinha vontade de comentar isso faz mais tempo, mas acabei me passando. Num dos posts recentes, um dos leitores me pediu a "real interpretação" do meu texto; ou seja, o que eu queria dizer com ele.
De fato, o autor pode ter muito a dizer com um texto, pode ter planos e expectativas bem palpáveis com ele, mas acho que nem por isso essa seja a única/real interpretação. Muito pelo contrário, é só mais uma. Um dos motivos por que digo isso é que, em muitas ocasiões, o que o autor quer dizer não é necessariamente o que está escrito; são duas coisas diferentes. Muitas vezes eu me surpreendi com interpretações que leitores fizeram com os meus textos; leituras que eu jamais havia pensado. E sabem de uma coisa? Eu gostei. Muitas vezes concordei: "acho que é isso mesmo", pensava. E por que não? Só porque a minha opinião é diferente ela é a certa? Uma coisa é uma interpretação ruim, algo mal entendido, algum evento que escapou à atenção que mudariam a visão da narrativa. Algo completamente diferente de entendimento. Além do que, eu gosto muito quando vários leitores têm interpretações diferentes sobre um mesmo texto. Odiava (e ainda odeio, para ser bem sincero) aulas de literatura em que o professor tenta nos enfiar a "leitura certa" goela abaixo. Me lembro até hoje de uma aula que tive na faculdade, em que a professora estava dando a interpretação de um poema. Eu, sinceramente, achei aquela interpretação muito "longa", muito complexa. Duvidava que, ao escrever, o narrador tivesse pensado naquilo tudo. Para mim a leitura era muito mais simples. Vejam bem, não me lembro mais do poema nem das interpretações, mas disso mej lembro: levantei o braço e compartilhei minha opinião, dizendo o que pensava (que o autor não era esse gênio todo, tinha uma visão muito mais simples do que a professora achava). Aí foi uma das piores coisas que já vi: ela nem respondeu, só baixou os olhos, fez um sinal de negativo com a cabeça e continuou dando aula. Só faltou dizer algo como: tolinho. Aí eu estava acabado mesmo...
Até porque, eu creio que o texto, ao deixar a mesa do autor para ganhar a internet, os livros, ou só um guardanapo mesmo, ele ganha vida própria, autonomia, independência do autor. Num caso mais extremo: um dia o autor vai morrer, e o texto vai continuar. Como aconteceu com "Dom Casmurro", "Dom Quixote", "Crime e Castigo", "O Senhor dos Anéis", etc. Ninguém se preocupa em perguntar para o autor o que ele quis dizer com isso ou aquilo. Ou alguém conhece alguma sessão espírita que incorpore Homero, Virgílio, Fernando Pessoa e afins?
E sabem de uma coisa? Ninguém se importa com o que eles pensavam. Mesmo. Querem ver? Retomando o exemplo: Dom Quixote. O livro era um ataque à corte e a inimigos pessoais de Cervantes (com o nome deles e tudo). Ridicularizava todos eles e sua cavalaria. De acordo com um professor meu: veneno puro. Hoje virou um romance heróico sobre amor e esperança, com pitadas de humor e sarcasmo. Um clássico. E sabem por quê? Porque tinha nesse livro algo que escapava ao mero domínio do autor/narrador. Algo muito maior do que ele, e ganhou vida própria. Outro exemplo: ALice no País das Maravilhas. Esse livro pode ser lido como uma crítica à corte inglesa com apologia às drogas inclusive. A Disney transformou em desenho infantil. E a intenção do autor, cadê? Em qualquer outro lugar. Porque, sinceramente, não interessa. O que interessa é o texto e aquilo que ele nos diz, porque somos livres para ler e pensarmos no que quisermos. Nós, leitores, ajudamos a dar sentido às palavras. Eu, sinceramente, odeio quando sinto que o narrador tenta me levar pela mão e me guiar por todo o texto. Me sinto menosprezado, tratado como idiota. Gosto quando ele me deixa livre para imaginar e voar conforme meus próprios desejos. Muitas vezes, quando vou ler um texto meu, sinto justamente que falta alguma conexão, que só eu como autor consigo enxergar, e lá vou eu trabalhar o texto para garantir que meus leitores vão conseguir extrair alguma coisa dali. Sem, contudo, me meter na leitura deles. Creio que é um balanço delicado, que nem sempre dá certo. Mas eu tento. E quando dá, dá um gosto de ver. Ou ler, no caso.
Alguém aí está de acordo? Não? Que bom que estamos na internet, então. Venha concordar, bater em mim ou ficar em cima do muro :P
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Perdão... Sorry... Gomen... Pardon....
Bom, primeiramente, eu gostaria de pedir desculpas por não ter postado semana passada. Quem me conhece sabe que minha internet me odeia (assim como várias outras tecnologias) e ela resolveu que não funcionaria adequadamente no final de semana. Então, quando dei por mim, achei melhor esperar até quinta-feira para fazer um super post super legal. Contudo, como sempre, fui deixando para a última hora, e agora me encontro tendo de estudar para duas provas de Japonês que terei amanhã; ou seja, também não vou poder me esmerar como gostaria sobre esse post.
Contudo, não poderia deixá-los sem updates, claro. Onde estariam meus modos? Por isso, aqui vos trago a sequência do último conto, e a promessa de que, ainda essa semana, publico algo um tanto mais elaborado por aqui. E bom feriado!
O chão de Luciane (2)
Hoje, o chão aceitou Luciane de volta. Seu funeral será amanhã pela manhã.
Contudo, não poderia deixá-los sem updates, claro. Onde estariam meus modos? Por isso, aqui vos trago a sequência do último conto, e a promessa de que, ainda essa semana, publico algo um tanto mais elaborado por aqui. E bom feriado!
O chão de Luciane (2)
Hoje, o chão aceitou Luciane de volta. Seu funeral será amanhã pela manhã.
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
O chão de Luciane
Pprimeiramente, gostaria de agradecer a todos os comentários no meu último conto. Achei legal que muita gente tenha interpretado o final como a morte do irmão, apesar de eu achar que o conto pudesse ser algo mais do que isso (algo como a transissão de uma etapa da vida para a outra; ou mesmo de crescimento e mudanças, tanto próprias quanto no ambiente que nos rodeia. Como uma parte que se perde e nunca mais retorna). Mas enfim, creio ser uma história de perda e, até, quem sabe, de evolução. Mas o conto era em si muito curto, acho até que "sonegou" algumas informações que pudessem levar a essas conclusões. Digo isso não como um: "vocês deveriamter interpretado assim" (até porque não acredito em uma interpretação unívoca e inequívoca), e sim como uma observação frente às minhas expectativas. Falando nisso, alguém já experimentou ler o meu conto "Fumaça e espelhos" como um conto de suicídio? Está um pouco mais para baixo, ou aqui para quem tem preguiça (http://visoesnaareia.blogspot.com/2009/08/fumaca-e-espelhos-redux.html). Gostaria até de saber se ele permite esse tipo de leitura.
E, claro, antes de passar mais adiante, queria esclarecer que leio tudo e "filtro" o que me foi dito. Muitas vezes não é bom ouvir de outras pessoas que o que nós escrevemos não está toda essa maravilha, mas saber as causas disso ajuda muito para o auto aprimoramento. E concordo com algumas coisas que foram ditas, aliás. Não sou chato com críticas, não. Sabendo ter respeito, acho que todos ganham.
Aliás, demorei para postar aqui hoje porque faz pouco tempo que meus pais retornaram de uma viagem ao exterior, e trouxeram a minha encomenda, que é um videogame novo! Yeah! Pode ser que eu comente menos no blog dos outros daqui para frente, mas será por uma boa causa ;-)
Ahem: agora, antes tarde do que nunca:
O chão de Luciane
Essa é a história de Luciane, a mulher que ficou sem chão. Pois veja bem, um dia, sem mais nem menos, o chão resolveu que não seria mais dela. Renegou-a. Pelo que se conta, ela descobriu isso de manhã. Ela acordou pronta para levantar da cama. Quando ia pôr os pés no chão... Nada. Não conseguia sentir o assoalho. Chegou a pensar que aquele seria um sonho estranho ou algo do tipo. Voltou a dormir, mas quando tentou de novo… Nada.
Ela simplesmente ficou ali, suspensa no ar. E quando se mexia, quase caía. Mas por sorte – ou azar – não batia no chão. Ao menos não se machucava. Respirou fundo e tentou andar, mas também não deu muita sorte. Afinal, sem lugar onde se apoiar, não conseguia sair do lugar.
Levou algumas horas até finalmente pegar o jeito. O que ela tinha de fazer era tão somente voar, que logo saía de onde estava. Primeiro, treinou pela casa, flutuando de cômodo em cômodo. Depois, saiu a praticar pelas ruas, perambulando pelo ar.
Ao fim daquela semana, Luciane já estava bem proficiente na arte de voar, e ia aonde quisesse sem grande esforço: ao shopping com as amigas, à casa de seus pais, visitar o irmão. Até tentou ensinar o seu sobrinho a voar, mas ele já estava muito velho para entender. Se ainda fosse novo o bastante, talvez conseguisse…
Pois bem: o tempo ia passando, e ela continuava ali, flutuando. Começou a sentir uma falta sem tamanho de botar os pés na terra… Podia subir nos móveis e no segundo andar dos prédios, mas no chão, aquele com quem ela realmente se importava… Nada. Sentia-se desolada, mas o que podia fazer se ele não a aceitava de volta?
Hoje, algumas pessoas dizem que é possível ver Luciane voando para o trabalho enquanto leva a filha para a escola. Ela está ensinando seu marido a voar, enquanto a filhinha já flutua um pouco. Em breve, quem sabe, veremos os três passeando juntos pelos ares.
Vamos ver que tipo de comentários esse pequeno texto incita. Muahahaha (insira aqui uma risada maligna)!
E, claro, antes de passar mais adiante, queria esclarecer que leio tudo e "filtro" o que me foi dito. Muitas vezes não é bom ouvir de outras pessoas que o que nós escrevemos não está toda essa maravilha, mas saber as causas disso ajuda muito para o auto aprimoramento. E concordo com algumas coisas que foram ditas, aliás. Não sou chato com críticas, não. Sabendo ter respeito, acho que todos ganham.
Aliás, demorei para postar aqui hoje porque faz pouco tempo que meus pais retornaram de uma viagem ao exterior, e trouxeram a minha encomenda, que é um videogame novo! Yeah! Pode ser que eu comente menos no blog dos outros daqui para frente, mas será por uma boa causa ;-)
Ahem: agora, antes tarde do que nunca:
O chão de Luciane
Essa é a história de Luciane, a mulher que ficou sem chão. Pois veja bem, um dia, sem mais nem menos, o chão resolveu que não seria mais dela. Renegou-a. Pelo que se conta, ela descobriu isso de manhã. Ela acordou pronta para levantar da cama. Quando ia pôr os pés no chão... Nada. Não conseguia sentir o assoalho. Chegou a pensar que aquele seria um sonho estranho ou algo do tipo. Voltou a dormir, mas quando tentou de novo… Nada.
Ela simplesmente ficou ali, suspensa no ar. E quando se mexia, quase caía. Mas por sorte – ou azar – não batia no chão. Ao menos não se machucava. Respirou fundo e tentou andar, mas também não deu muita sorte. Afinal, sem lugar onde se apoiar, não conseguia sair do lugar.
Levou algumas horas até finalmente pegar o jeito. O que ela tinha de fazer era tão somente voar, que logo saía de onde estava. Primeiro, treinou pela casa, flutuando de cômodo em cômodo. Depois, saiu a praticar pelas ruas, perambulando pelo ar.
Ao fim daquela semana, Luciane já estava bem proficiente na arte de voar, e ia aonde quisesse sem grande esforço: ao shopping com as amigas, à casa de seus pais, visitar o irmão. Até tentou ensinar o seu sobrinho a voar, mas ele já estava muito velho para entender. Se ainda fosse novo o bastante, talvez conseguisse…
Pois bem: o tempo ia passando, e ela continuava ali, flutuando. Começou a sentir uma falta sem tamanho de botar os pés na terra… Podia subir nos móveis e no segundo andar dos prédios, mas no chão, aquele com quem ela realmente se importava… Nada. Sentia-se desolada, mas o que podia fazer se ele não a aceitava de volta?
Hoje, algumas pessoas dizem que é possível ver Luciane voando para o trabalho enquanto leva a filha para a escola. Ela está ensinando seu marido a voar, enquanto a filhinha já flutua um pouco. Em breve, quem sabe, veremos os três passeando juntos pelos ares.
Vamos ver que tipo de comentários esse pequeno texto incita. Muahahaha (insira aqui uma risada maligna)!
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Na chuva
Bom, semana passada eu fiquei doente e me sentindo mal, o que me levou a postergar a atualização do meu blog em um dia. Por isso, agora que fui ao médico, fiz exames e estou tomando remédio, creio eu que nada seria mais justo do que atualizar um dia antes, também, e manter uma média legal.
Para início de conversa, resolvi dar uma pequena pausa na conversa japonesa, não só devido ao tamanho dos posts, como também pela complexidade do tema e do "saco" de quem acompanha. Hoje o conteúdo é mais leve (ou não... vocês vao entender). Contudo, antes de prosseguir, preciso tomar conta de algumas pendências da última sexta-feira. O nome dos programas que eu uso, que prometi postar, acabaram faltando. Então ficou para o começo deste post aqui.
O programa que eu uso para escrever no computador é o JWPce. É muito útil para quem quer aprender kanjis. Você escreve a palavra e, se quiser, pode pedir para o programa mostrar os kanjis relacionados a ela, ainda com dicionário interno, para saber seus possíveis significados. O inverso também se aplica. Tem um texto em kanji? Ele pode transformar em hiragana e usar o dicionário para esclarecer os significados.
Pode ser encontrado aqui:
http://www.physics.ucla.edu/~grosenth/jwpce.html
Basta clicar em download e ele vem com tudo pronto. Muito fácil de instalar, inclusive.
Outro programa que eu uso é o rikaichan. Neste caso, é bom para internet. Você pode entrar em várias páginas em japonês, e ele tem um dicionário interno (que deve ser baixado com o programa) que funciona assim que se marca uma palavra. Aí ele vai dando possíveis significados e tipos de leitura.
Pode ser encontrado aqui:
http://www.polarcloud.com/rikaichan/
Notem, também, que português não é uma língua contemplada dentre as opções. Infelizmente, não há uma base de estudos muito forte no Brasil (ou em Portugal) sobre a língua, o que é uma pena.
Ok, agora que já escrevi muito mais do que deveria, aqui vem um conto novo, que escrevi no final de semana, revisei rapidamente, e aqui vos trago.
Boa leitura ;-)
Na chuva
O rapaz abriu a porta de casa apressadamente para fugir da chuva que rugia sobre ele. Brigando com as chaves, ele deu uma volta na fechadura e conseguiu arredar a entrada de seu ferrolho e criar espaço para sua passagem. Assim que entrou, pareceu-lhe que a chuva, magicamente – como muito acontece, conforme Murphy nos admoesta – cessou, e o céu abriu e estrelas surgiram.
Praguejando contra a sorte com todo o tipo de impropérios que lhe vinham à mente, ele fechou a porta e adentrou a sala, vendo seu irmão mais novo – um adolescente na típica idade estudantil – deitado no sofá, enrolado numa coberta xadrez, onde um azul claro e um amarelo suave se revezavam ininterruptamente. Ao lado, no chão, seu cachorro se divertia com um osso e os restos do tênis de alguém – que ele devia ter apanhado durante o sono de seu dono. O animal sempre ficava agitado quando não saía para passear.
Praguejando ainda mais contra o cachorro do que praguejara contra a chuva, ele fez menção de acordar seu irmão para fazê-lo ir dar uma volta com seu bicho de estimação. Contudo, vendo-o dormir tão serenamente, decidiu que sairia ele mesmo.
Pegou, então, a guia e colocou-a no cachorro. Antes de sair, ainda deu uma última olhada em seu irmão e notou como ele estava crescido. ‘Já está quase do meu tamanho’, pensou.
Puxou o cão e foram ambos juntos dar uma volta. Na saída de sua casa, ele voltou a sentir algumas gotas escorrendo das poucas nuvens que se amontoavam atabalhoadamente no céu. Ele suspirou, quase sem acreditar em sua (pouca) sorte, mas decidiu que daria uma volta mesmo assim.
Caminharam alguns metros e viram, dobrando a esquina em sua direção, um rapaz encapuzado para quem seu cachorro latia animadamente, balançando o rabo de um lado para o outro. Quando se aproximaram, o rapaz viu que quem vinha era ninguém menos que seu irmão mais novo.
- Mas – disse ele – eu pensei que você estivesse em casa, dormindo.
Seu irmão apenas sorriu, e disse:
- Eu estou.
E nunca mais voltaram a se encontrar.
Para início de conversa, resolvi dar uma pequena pausa na conversa japonesa, não só devido ao tamanho dos posts, como também pela complexidade do tema e do "saco" de quem acompanha. Hoje o conteúdo é mais leve (ou não... vocês vao entender). Contudo, antes de prosseguir, preciso tomar conta de algumas pendências da última sexta-feira. O nome dos programas que eu uso, que prometi postar, acabaram faltando. Então ficou para o começo deste post aqui.
O programa que eu uso para escrever no computador é o JWPce. É muito útil para quem quer aprender kanjis. Você escreve a palavra e, se quiser, pode pedir para o programa mostrar os kanjis relacionados a ela, ainda com dicionário interno, para saber seus possíveis significados. O inverso também se aplica. Tem um texto em kanji? Ele pode transformar em hiragana e usar o dicionário para esclarecer os significados.
Pode ser encontrado aqui:
http://www.physics.ucla.edu/~grosenth/jwpce.html
Basta clicar em download e ele vem com tudo pronto. Muito fácil de instalar, inclusive.
Outro programa que eu uso é o rikaichan. Neste caso, é bom para internet. Você pode entrar em várias páginas em japonês, e ele tem um dicionário interno (que deve ser baixado com o programa) que funciona assim que se marca uma palavra. Aí ele vai dando possíveis significados e tipos de leitura.
Pode ser encontrado aqui:
http://www.polarcloud.com/rikaichan/
Notem, também, que português não é uma língua contemplada dentre as opções. Infelizmente, não há uma base de estudos muito forte no Brasil (ou em Portugal) sobre a língua, o que é uma pena.
Ok, agora que já escrevi muito mais do que deveria, aqui vem um conto novo, que escrevi no final de semana, revisei rapidamente, e aqui vos trago.
Boa leitura ;-)
Na chuva
O rapaz abriu a porta de casa apressadamente para fugir da chuva que rugia sobre ele. Brigando com as chaves, ele deu uma volta na fechadura e conseguiu arredar a entrada de seu ferrolho e criar espaço para sua passagem. Assim que entrou, pareceu-lhe que a chuva, magicamente – como muito acontece, conforme Murphy nos admoesta – cessou, e o céu abriu e estrelas surgiram.
Praguejando contra a sorte com todo o tipo de impropérios que lhe vinham à mente, ele fechou a porta e adentrou a sala, vendo seu irmão mais novo – um adolescente na típica idade estudantil – deitado no sofá, enrolado numa coberta xadrez, onde um azul claro e um amarelo suave se revezavam ininterruptamente. Ao lado, no chão, seu cachorro se divertia com um osso e os restos do tênis de alguém – que ele devia ter apanhado durante o sono de seu dono. O animal sempre ficava agitado quando não saía para passear.
Praguejando ainda mais contra o cachorro do que praguejara contra a chuva, ele fez menção de acordar seu irmão para fazê-lo ir dar uma volta com seu bicho de estimação. Contudo, vendo-o dormir tão serenamente, decidiu que sairia ele mesmo.
Pegou, então, a guia e colocou-a no cachorro. Antes de sair, ainda deu uma última olhada em seu irmão e notou como ele estava crescido. ‘Já está quase do meu tamanho’, pensou.
Puxou o cão e foram ambos juntos dar uma volta. Na saída de sua casa, ele voltou a sentir algumas gotas escorrendo das poucas nuvens que se amontoavam atabalhoadamente no céu. Ele suspirou, quase sem acreditar em sua (pouca) sorte, mas decidiu que daria uma volta mesmo assim.
Caminharam alguns metros e viram, dobrando a esquina em sua direção, um rapaz encapuzado para quem seu cachorro latia animadamente, balançando o rabo de um lado para o outro. Quando se aproximaram, o rapaz viu que quem vinha era ninguém menos que seu irmão mais novo.
- Mas – disse ele – eu pensei que você estivesse em casa, dormindo.
Seu irmão apenas sorriu, e disse:
- Eu estou.
E nunca mais voltaram a se encontrar.
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Os kanas!
Como vocês devem bem lembrar, semana passada comecei a falar sobre a escrita japonesa e me comprometi a continuar a explicação nesta semana. Pois bem, como sei que nem todos podem ver os ideogramas no seu computador (por algum motivo, não vem instalado em todos os computadores; alguns necessitam instalar ou procurar plug-ins na internet), resolvi mudar um pouco o estilo visual deste post, utilizando fotos para as explicações. Ao final do post, escrevo o nome e o site do programa que uso para escrever em japonês para quem quiser. Vai que dá curiosidade...
Antes de mais nada, não pretendo fazer uma recapitulação do que foi dito. Se for necessário, ela será feita no corpo do texto com o intuito de esclarecer pontualmente aquilo que foi escrito. Quem quiser explicações mais detalhadas pode encontrá-las no meu outro post, na wikipedia, ou me perguntando mesmo, que respondo sem problemas, ok?
Agora, prosseguindo:
Apesar de ser um sistema muito didático e, de certa forma, até mesmo esclarecer do ponto de vista da cultura e do pensamento oriental, muitas vezes a escrita em kanji não é muito (para não dizer que não é nada) prática. Já ouvi como explicação o fato de que, sendo o japonês uma lingua silábica, há muitas palavras iguais e/ou repetidas (como hana, que pode significar tanto flor quanto nariz, shiritsu, que pode ser tanto público quanto privado - pretendo escrever mais sobre este exemplo mais adiante - etc). No caso, apesar da confusão previsível e da real habilidade que os kanjis têm de desambiguizar tais dúvidas, acho o argumento um tanto frágil; pelo simples fato de que ninguém fala em kanji. E se eles não precisam de ideogramas para esclarecer a própria fala (cheia dessas semelhanças e de palavras repetidas), então duvido que seja este o real motivo.
De qualquer modo, independentemente da razão pela qual são usados (seja por tradição, preguiça de mudar, cabeça-dura, valorização dos costumes, etc), eles são empregados e devemos conviver com sua existência. Contudo, como faz alguém que não sabe ler o kanji? Como pode ele olhar e "decorar" o significado? Isso sem falar que nem toda a lingua japonesa é expressa em kanjis. Como fazem, então?
Pois bem, é aí que entram os kana. Os kana são divididos em dois grandes grupos: hiragana e katakana, e é por eles que qualquer estudante de japonês começa. No caso, são duas formas fonéticas e silábicas de escrita, muito semelhantes ao alfabeto ocidental. Só que, ao invés de 27 letras e alguns acentos, são 46 letras mais algumas combinações.
Abaixo segue uma tabela com os 46 hiraganas básicos com a pronúncia em escrita romana (chamda roma-ji, em japonês - ji de escrita, e roma de Roma; a Escrita de Roma, portanto):

E, agora, a tabela com os katakanas básicos:

Como eu disse, esses são os básicos, ainda tem as combinações e as sonorizações (o ta vira da, o sa vira za, o shi vira ji, o ka vira ga, e o ha vira ba ou pa), mas já é um bom começo. Aí vocês podem perguntar: pra que isso? Pra que tanta escrita? E, realmente, o hiragana já estaria e bom tamanho, mas eles são japoneses, são 150 milhões de pessoas se apertando num arquipelagozinho do tamanho do Rio Grande do Sul, que vive a base de peixe e arroz; dá um desconto!
Agora, explicando direitinho: como foi dito anteriormente, os kanjis foram trazidos diretamente da China por volta do Século V para que os japoneses também pudessem se expressar, escrever e ler. Contudo, como é previsível, para se ter domínio dessa escrita, era necessário saber também chinês, algo que a maioria da população não tinha possibilidade (nem necessidade, diga-se de passagem) de aprender. Como fazer, então, para adaptar essa escrita à língua japonesa? No caso, após muito tempo, foram sendo criados esses dois sistemas de escrita, os hiragana e os katakana. Tanto o hiragana e o katakana foram desenvolvidos a partir dos kanjis como formas simplificadas de escrevê-los. No caso, como a forma cursiva da escrita era mais corrente entre as mulheres, o hiragana ganhou muita popularidade entre elas, ao passo que o katakana, por ser uma forma mais retilínea, foi favorecida entre os homens (basta olhar os dois quadros acima para ver a diferença na "suavidade" e "cursividade" das duas escritas). Tanto que as primeiras obras escritas por mulheres (como o Genji Monogatari - literalmente, História de Genji; também conhecido por muitos como o primeiro romance escrito da história da humanidade, o que ainda é motivo de debate, contudo, envolvendo autores gregos e latinos... mas deixemos essa discussão para os professores de literatura) eram escritas (quase) totalmente em hiragana.
Hoje, contudo, o debate cessou, e cada escrita tem limites de uso mais ou menos bem definidos. Explicando: os kanjis são para escrever a maioria das palavras, já que têm o "conceito" embutido; os hiraganas são para escrever partículas, conectores, preposições, terminações verbais ou de adjetivos; e os katakans são usados para escrever interjeições, estrangeirismos ou para destacar algum termo (como o nosso itálico).
Mas chega de diletantismo. Passemos a um exemplo mais prático.
Para ilustrar o exemplo dos três "alfabetos" de uma vez, nada melhor do que algumas frases simples:
1. Meu nome é Marcelo.
2. Vou ao Japão de Avião.
3. Hoje está quente.
4. Hoje foi quente.
(as últimas duas frases são para ilustrar o uso do hiragana nos adjetivos e a forma aglutinante da lingua japonesa; ao contrário da portuguesa, que vai "distribuindo" características ao longo da frase, a japonesa deixa tudo aglutinar no final, nos verbos e nos adjetivos). Vamos aos exemplos:

Vocês verão que o que está em azul são kanjis, e o que está em preto é ou hiragana ou katakana. No caso, na primeira frase, temos o primeiro kanji (watashi) que quer dizer eu. Entre este e o próximo kanji, há uma letra em hiragana. Para quem olhar no quadro, verá que aquilo é um "no". Neste caso, é uma partícula que indica posse. "Watahi no", portanto, quer dizer "meu". Os próximos dois kanjis se lêem "namae". Parece com a palavra "nome", em português, e é isso mesmo. Pura coincidência. Após estes kanjis, temos mais uma letra em hiragana. Para quem viu os quadros, saberá que se pronuncia "ha" (como em carro). Contudo, por ser uma partícula (muito importante), se pronuncia wa. Ela serve para indicar o tópico de que se fala. O sujeito, se assim quiserem chamar. Depois vem as letras em katakana. É o meu nome! Sim, Marcelo, em japonês, se fala Marusero. Eles não se dão muito bem com encontros consonantais, e transformam tudo o que podem em vogais. Como eu disse, é uma lingua silábica. E por último, temos o "desu". Em geral, costumam explicar que o desu é um verbo, mas ele é bem mais do que isso. No japonês, é muito comum comerem final de frase, partículas, eliminarem-se conexões, etc, de forma que as frases, muitas vezes, parecem um amontoado de palavras desconexas. No caso do japonês, o desu é um "liga tudo". Se você não souber o que fazer, coloca um desu no final da frase que periga dar certo. Bendito "verbo"!
A segunda frase eu "escolhi" para mostrar, uma vez mais, a diversidade existente de pronúncia e uso de kanjis. A primeira palavra em kanji nós já vimos da outra vez: hikouki, que quer dizer avião. A letra em hiragana, ao lado, é a partícula "de", que indica a ferramenta com que se faz alguma coisa (no caso, usa-se o avião para viajar, por exemplo). Se eu vou escrever com o lápis (enpitsu), digo: "enpitsu de kakimasu", sendo "kakimasu" o verbo : escrever. Como vocês devem ter notado, em japonês o verbo vai lá no final. Se não me engano, alemão é assim também. Aí vem a palavra Nihon. Que significa Japão. O primeiro kanji vocês já conhecem: sol (embora essa seja ainda outra pronúncia do mesmo kanji). O segundo é hon, que pode ser livro ou origem. Daí vem que o Japão é a Terra do Sol Nascente. Está no nome deles. É a Origem do Sol! Legal, né? A partícula he (mais um hiragana) se pronuncia "e", e indica direção. É para lá que vamos, afinal. E o ikimasu é o verbo, que quer dizer ir (vocês notaram que o kanji desse verbo, que se lê i, é o mesmo que se lê kou em avião?).
E enfim, as últimas duas frases, que pretendo analisar conjuntamente:
Na frase 3, a primeira palavra, kiyou, quer dizer hoje (o primeiro kanji significa agora, e o segundo, dia; viram que legal? O dia de agora é hoje! - mas essa é ainda outra forma de se ler o kanji de sol - quantas leituras nós já vimos até agora? Querem contar?). Temos então a partícula wa e o kanji de quente, atsui. Notaram como a última "letra" da palavra atsui se escreve com hiragana? É porque isso vai mudar depois. E depois temos o bom e velho "desu".
Na frase 4, temos kiyou, hoje, e a partícula wa, e a palavra atsukatta. Por que é que mudou, de atsui para astukatta? Porque, aqui, é o adjetivo que muda, não necessariamente o verbo. Katta é um sufixo que indica passado (nós tiramos o último "i" da palavra atsui e trocamos por "katta"). A frase, que antes era "hoje está quente", virou "hoje foi quente", mudando apenas o adjetivo (notem que o desu, o verbo, não mudou nada). Se quiséssemos dizer: "hoje não está quente", tiraríamos o i final de atsui e colocaríamos "kunai"; no caso, seria "atsukunai". E se eu quisesse dizer que hoje não foi quente? Fácil: tiramos o i final de atsukunai e colocamos o katta: atsukunakatta.
Aglutinou tudo, né? Antes que vocês me perguntem: sim, os verbos se modificam sim, muito semelhante a como os adjetivos se modificam. Só achei que seria ais interessante falar dos adjetivos por ser uma coisa tão diferente do usual para nós.
Foi uma lição longa, e acho que por hoje chega. Já cobrimos um básico dos kanjis, um básico de gramática, e um básico de kana. O que mais falta? Algumas pequenas - e divertidas - curiosidades de ideogramas.
Próxima quinta? Quem sabe. Talvez, se já não enchi o saco do pessoal com esse texto enorme...
ps: só não postei ontem por motivos de saúde. Estava indisposto, sofrendo em casa, mas fui no médico e já iniciei tratamento. Quem me conhece sabe que minha saúde não é lá um brastemp...
Antes de mais nada, não pretendo fazer uma recapitulação do que foi dito. Se for necessário, ela será feita no corpo do texto com o intuito de esclarecer pontualmente aquilo que foi escrito. Quem quiser explicações mais detalhadas pode encontrá-las no meu outro post, na wikipedia, ou me perguntando mesmo, que respondo sem problemas, ok?
Agora, prosseguindo:
Apesar de ser um sistema muito didático e, de certa forma, até mesmo esclarecer do ponto de vista da cultura e do pensamento oriental, muitas vezes a escrita em kanji não é muito (para não dizer que não é nada) prática. Já ouvi como explicação o fato de que, sendo o japonês uma lingua silábica, há muitas palavras iguais e/ou repetidas (como hana, que pode significar tanto flor quanto nariz, shiritsu, que pode ser tanto público quanto privado - pretendo escrever mais sobre este exemplo mais adiante - etc). No caso, apesar da confusão previsível e da real habilidade que os kanjis têm de desambiguizar tais dúvidas, acho o argumento um tanto frágil; pelo simples fato de que ninguém fala em kanji. E se eles não precisam de ideogramas para esclarecer a própria fala (cheia dessas semelhanças e de palavras repetidas), então duvido que seja este o real motivo.
De qualquer modo, independentemente da razão pela qual são usados (seja por tradição, preguiça de mudar, cabeça-dura, valorização dos costumes, etc), eles são empregados e devemos conviver com sua existência. Contudo, como faz alguém que não sabe ler o kanji? Como pode ele olhar e "decorar" o significado? Isso sem falar que nem toda a lingua japonesa é expressa em kanjis. Como fazem, então?
Pois bem, é aí que entram os kana. Os kana são divididos em dois grandes grupos: hiragana e katakana, e é por eles que qualquer estudante de japonês começa. No caso, são duas formas fonéticas e silábicas de escrita, muito semelhantes ao alfabeto ocidental. Só que, ao invés de 27 letras e alguns acentos, são 46 letras mais algumas combinações.
Abaixo segue uma tabela com os 46 hiraganas básicos com a pronúncia em escrita romana (chamda roma-ji, em japonês - ji de escrita, e roma de Roma; a Escrita de Roma, portanto):
E, agora, a tabela com os katakanas básicos:
Como eu disse, esses são os básicos, ainda tem as combinações e as sonorizações (o ta vira da, o sa vira za, o shi vira ji, o ka vira ga, e o ha vira ba ou pa), mas já é um bom começo. Aí vocês podem perguntar: pra que isso? Pra que tanta escrita? E, realmente, o hiragana já estaria e bom tamanho, mas eles são japoneses, são 150 milhões de pessoas se apertando num arquipelagozinho do tamanho do Rio Grande do Sul, que vive a base de peixe e arroz; dá um desconto!
Agora, explicando direitinho: como foi dito anteriormente, os kanjis foram trazidos diretamente da China por volta do Século V para que os japoneses também pudessem se expressar, escrever e ler. Contudo, como é previsível, para se ter domínio dessa escrita, era necessário saber também chinês, algo que a maioria da população não tinha possibilidade (nem necessidade, diga-se de passagem) de aprender. Como fazer, então, para adaptar essa escrita à língua japonesa? No caso, após muito tempo, foram sendo criados esses dois sistemas de escrita, os hiragana e os katakana. Tanto o hiragana e o katakana foram desenvolvidos a partir dos kanjis como formas simplificadas de escrevê-los. No caso, como a forma cursiva da escrita era mais corrente entre as mulheres, o hiragana ganhou muita popularidade entre elas, ao passo que o katakana, por ser uma forma mais retilínea, foi favorecida entre os homens (basta olhar os dois quadros acima para ver a diferença na "suavidade" e "cursividade" das duas escritas). Tanto que as primeiras obras escritas por mulheres (como o Genji Monogatari - literalmente, História de Genji; também conhecido por muitos como o primeiro romance escrito da história da humanidade, o que ainda é motivo de debate, contudo, envolvendo autores gregos e latinos... mas deixemos essa discussão para os professores de literatura) eram escritas (quase) totalmente em hiragana.
Hoje, contudo, o debate cessou, e cada escrita tem limites de uso mais ou menos bem definidos. Explicando: os kanjis são para escrever a maioria das palavras, já que têm o "conceito" embutido; os hiraganas são para escrever partículas, conectores, preposições, terminações verbais ou de adjetivos; e os katakans são usados para escrever interjeições, estrangeirismos ou para destacar algum termo (como o nosso itálico).
Mas chega de diletantismo. Passemos a um exemplo mais prático.
Para ilustrar o exemplo dos três "alfabetos" de uma vez, nada melhor do que algumas frases simples:
1. Meu nome é Marcelo.
2. Vou ao Japão de Avião.
3. Hoje está quente.
4. Hoje foi quente.
(as últimas duas frases são para ilustrar o uso do hiragana nos adjetivos e a forma aglutinante da lingua japonesa; ao contrário da portuguesa, que vai "distribuindo" características ao longo da frase, a japonesa deixa tudo aglutinar no final, nos verbos e nos adjetivos). Vamos aos exemplos:
Vocês verão que o que está em azul são kanjis, e o que está em preto é ou hiragana ou katakana. No caso, na primeira frase, temos o primeiro kanji (watashi) que quer dizer eu. Entre este e o próximo kanji, há uma letra em hiragana. Para quem olhar no quadro, verá que aquilo é um "no". Neste caso, é uma partícula que indica posse. "Watahi no", portanto, quer dizer "meu". Os próximos dois kanjis se lêem "namae". Parece com a palavra "nome", em português, e é isso mesmo. Pura coincidência. Após estes kanjis, temos mais uma letra em hiragana. Para quem viu os quadros, saberá que se pronuncia "ha" (como em carro). Contudo, por ser uma partícula (muito importante), se pronuncia wa. Ela serve para indicar o tópico de que se fala. O sujeito, se assim quiserem chamar. Depois vem as letras em katakana. É o meu nome! Sim, Marcelo, em japonês, se fala Marusero. Eles não se dão muito bem com encontros consonantais, e transformam tudo o que podem em vogais. Como eu disse, é uma lingua silábica. E por último, temos o "desu". Em geral, costumam explicar que o desu é um verbo, mas ele é bem mais do que isso. No japonês, é muito comum comerem final de frase, partículas, eliminarem-se conexões, etc, de forma que as frases, muitas vezes, parecem um amontoado de palavras desconexas. No caso do japonês, o desu é um "liga tudo". Se você não souber o que fazer, coloca um desu no final da frase que periga dar certo. Bendito "verbo"!
A segunda frase eu "escolhi" para mostrar, uma vez mais, a diversidade existente de pronúncia e uso de kanjis. A primeira palavra em kanji nós já vimos da outra vez: hikouki, que quer dizer avião. A letra em hiragana, ao lado, é a partícula "de", que indica a ferramenta com que se faz alguma coisa (no caso, usa-se o avião para viajar, por exemplo). Se eu vou escrever com o lápis (enpitsu), digo: "enpitsu de kakimasu", sendo "kakimasu" o verbo : escrever. Como vocês devem ter notado, em japonês o verbo vai lá no final. Se não me engano, alemão é assim também. Aí vem a palavra Nihon. Que significa Japão. O primeiro kanji vocês já conhecem: sol (embora essa seja ainda outra pronúncia do mesmo kanji). O segundo é hon, que pode ser livro ou origem. Daí vem que o Japão é a Terra do Sol Nascente. Está no nome deles. É a Origem do Sol! Legal, né? A partícula he (mais um hiragana) se pronuncia "e", e indica direção. É para lá que vamos, afinal. E o ikimasu é o verbo, que quer dizer ir (vocês notaram que o kanji desse verbo, que se lê i, é o mesmo que se lê kou em avião?).
E enfim, as últimas duas frases, que pretendo analisar conjuntamente:
Na frase 3, a primeira palavra, kiyou, quer dizer hoje (o primeiro kanji significa agora, e o segundo, dia; viram que legal? O dia de agora é hoje! - mas essa é ainda outra forma de se ler o kanji de sol - quantas leituras nós já vimos até agora? Querem contar?). Temos então a partícula wa e o kanji de quente, atsui. Notaram como a última "letra" da palavra atsui se escreve com hiragana? É porque isso vai mudar depois. E depois temos o bom e velho "desu".
Na frase 4, temos kiyou, hoje, e a partícula wa, e a palavra atsukatta. Por que é que mudou, de atsui para astukatta? Porque, aqui, é o adjetivo que muda, não necessariamente o verbo. Katta é um sufixo que indica passado (nós tiramos o último "i" da palavra atsui e trocamos por "katta"). A frase, que antes era "hoje está quente", virou "hoje foi quente", mudando apenas o adjetivo (notem que o desu, o verbo, não mudou nada). Se quiséssemos dizer: "hoje não está quente", tiraríamos o i final de atsui e colocaríamos "kunai"; no caso, seria "atsukunai". E se eu quisesse dizer que hoje não foi quente? Fácil: tiramos o i final de atsukunai e colocamos o katta: atsukunakatta.
Aglutinou tudo, né? Antes que vocês me perguntem: sim, os verbos se modificam sim, muito semelhante a como os adjetivos se modificam. Só achei que seria ais interessante falar dos adjetivos por ser uma coisa tão diferente do usual para nós.
Foi uma lição longa, e acho que por hoje chega. Já cobrimos um básico dos kanjis, um básico de gramática, e um básico de kana. O que mais falta? Algumas pequenas - e divertidas - curiosidades de ideogramas.
Próxima quinta? Quem sabe. Talvez, se já não enchi o saco do pessoal com esse texto enorme...
ps: só não postei ontem por motivos de saúde. Estava indisposto, sofrendo em casa, mas fui no médico e já iniciei tratamento. Quem me conhece sabe que minha saúde não é lá um brastemp...
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
De kanjis
Pois bem, devido ao ritmo dos meus estudos recentemente, decidi enfim sentar e escrever, mesmo que brevemente, sobre a escrita japonesa (perdão pela repetição indevida de palavras). Sei que pode não ser o tópico favorito de muitas pessoas, mas achei que seria interessante ao menos apresentar esse conteúdo tão desconhecido e, até mesmo, vítima de certas mistificações por quem o desconhece. Confesso que, no início, eu também fiquei um pouco assustado com o volume de material e de exigência que o estudo do japonês exige; contudo, com a prática e o ritmo, tudo vai se assentando. Claro, eventualmente eu também me encontro à beira do desespero e da vontade de largar tudo e fazer algo mais fácil, como inglês ou francês, mas não teria metade da graça.
Comecemos do começo:
A escrita japonesa é originária da China com os ideogramas. Ao contrário de nossos amigos comunistas, contudo, o volume de caracteres no Japão é muito menor. Ao passo que, na China, o número de Kanjis usados chega a ser incalculável (e isso é verdade, não se tem ideia de quantas existam, apenas estimativas), o número de kanjis (o nome dos ideogramas) exigidos no Japão beira os 2.000. Pode parecer muito, mas, na realidade, é mais. Mesmo. O número de ideogramas oficiais é esse, mas, para se ler um jornal ou até alguns livros, seria necessário conhecer em torno de quatro a cinco mil caracteres.
O que poderia fazer alguém se sentir atraído por esse volume intenso de estudo? Loucura, provavelmente. Ou muitos episódio de Cavaleiros do Zodíaco quando criança. No meu caso, é a segunda alternativa :P
Prosseguindo: historicamente, não se tem noção clara de quando os caracteres chineses foram levados ao Japão, apesar de haver documentos datando do século V D.C. (provavelmente escritos pelos próprios chineses). Apenas no século VI D.C. é que se vê documentos escritos em caracteres chineses com interferência do japonês (um chinês misturado com japonês), indicando uso corrente da escrita.
Explicando brevemente, os ideogramas que compõem a palavra kanji (漢字) significam "escrita de Han"; esse Han seria o imperador chinês em cujo governo teria sido desenvolvida esta escrita. O porquê dos japoneses chamarem Han de Kan (daí "KANJI") não está claro, mas a teoria corrente é de que, na época, o japonês não tinha o som "han" (pronuncia-se ran) incorporado ao seu sistema fonético.
No caso da escrita na China, a cada ideograma corresponde um som com seu(s) respectivo(s) significado(s). No caso do Japão, como foi uma escrita adaptada, o furo é um pouco mais embaixo. No caso, a cada ideograma costuma corresponder um conceito, variando o som.
Podemos dar como exemplo inicial os números. Qualquer um que já tenha feito aula de judô ou karatê ou outra arte marcial japonesa deve ter aprendido a contar até, pelo menos, dez. Contemos, então:
ichi, ni, san, shi, go, roku, shichi, hachi, kyu, ju
A cada um destes números corresponde um kanji, certo? Aqui estão eles, em ordem:
一, 二, 三, 四, 五, 六, 七, 八, 九, 十
Pronto, agora vocês já podem escrever os números. São alguns dos kanis mais fáceis (do 1 ao 3, pelo menos).
Agora, para não ficar apenas na parte fácil, vamos complicar um pouco. O próximo kanji que vou mostrar se chama tsuki, que quer dizer lua. É um kanji bastante fácil, aprendido nos níveis iniciais, e é com ele que se escrevem os meses do ano. Podem adivinhar como se escreve? Fácil, fácil:
一月, 二月, 三月, 四月, 五月, 六月, 七月, 八月, 九月, 十月, 十一月, 十二月
Como se vê, o primeiro mês se escreve exatamente assim: como o kanji do número 1 junto do kanji do mês, e assim sucessivamente. Até os meses onze e doze são fáceis. Pega-se o kanji de 10 mais o kanji de 1 e voilá, 11. Como se pronuncia, então? Seguindo a lógica apresentada, o certo seria dizer ichi, que é um, e tsuki, que é lua, formando ichitsuki, correto?
Errado. Tsuki é apenas uma das leituras daquele kanji. Quando ele quer dizer lua, fala-se tsuki. Quando ele quer dizer mês, fala-se gatsu. Assim, janeiro é ichigatsu, fevereiro é nigatsu e assim por diante.
Passemos, agora, a outro kanji que pode causar ainda mais dores de cabeça: o de dia, ou sol. Um kanji tão simples, mas tão complexo. Sol e dia se escrevem da mesma forma em kanji (日), mas se pronunciam diferentemente. Sol é hi, e dia é nichi
Agora, passemos à verdadeira loucura.
O lógico, pelo que estou dizendo, seria fazermos o seguinte: quero dizer um dia. Portanto, pego o kanji de um e o kanji de dia, junto os dois e tenho ichinichi (一日). E está correto. Contudo, se quero dizer dia primeiro, eu uso os mesmos kanjis (一日), só que a pronúncia é levemente diferente. Fala-se tsuitachi (quando eu disse "levemente", estava sendo sarcástico), que é uma leitura especial. O mesmo acontece com dois dias. Pego o kanji de dois, junto com o de dia e obtenho ninichi (二日). Contudo, se me refiro ao segundo dia do mês, escrevo da mesa forma (二日), mas a leitura é futsuka.
Isso que estou dizendo pode parecer confuso, complicado e sem sentido (e no começo é mesmo), mas segue uma lógica de contagem em japonês. Em japonês, temos os contadores. Se quero duas maçãs (ringo), não posso dizer ni ringo, pois estaria errado. Devo usar o contador, que é futatsu. No caso, o contador de dias também começa com fu (futsuka), e esse padrão se repete. Por exemplo, o contador de três é mittsu (dia três se fala mikka); o contado de quatro é yottsu (dia quatro se fala yokka).
No caso, apenas para não deixar o exemplo pendente, para dizer: "quero duas maçãs", em japonês é: ringo o futatsu kudasai.
Aí vocês podem perguntar: e para que aprender um sistema tão complicado? No caso, até concordo que o sistem ocidental de escrita é muito mais simples. Contudo, o sistema de kanjis tem um poder de síntese e de ideias dentro da própria escrita que o sistem ocidental jamais vai ter. Por exemplo: avião (hikouki) se escreve 飛行機. Vocês podem não saber ler, mas alguém que não conheça a palavra, mas conheça os kanjis, poderá inferir o significado, pois se lê "máquina que vai voando".
Podem não gostar e torcer o nariz, mas temos que admitir que isso é, no mínimo, interessante.
Eu gostaria de escrever mais a respeito, mas não agora. O texto já está bem grande, e me permite escrever mais numa próxiam ocasião (quando eu falar da construção, dos componenetes e dos tipos de kanji). Além, é claro, dos kanas.
Ficou curioso? Então não perca! Na próxima quinta, nessa mesma bat-hora, nesse mesmo bat-blog!
Comecemos do começo:
A escrita japonesa é originária da China com os ideogramas. Ao contrário de nossos amigos comunistas, contudo, o volume de caracteres no Japão é muito menor. Ao passo que, na China, o número de Kanjis usados chega a ser incalculável (e isso é verdade, não se tem ideia de quantas existam, apenas estimativas), o número de kanjis (o nome dos ideogramas) exigidos no Japão beira os 2.000. Pode parecer muito, mas, na realidade, é mais. Mesmo. O número de ideogramas oficiais é esse, mas, para se ler um jornal ou até alguns livros, seria necessário conhecer em torno de quatro a cinco mil caracteres.
O que poderia fazer alguém se sentir atraído por esse volume intenso de estudo? Loucura, provavelmente. Ou muitos episódio de Cavaleiros do Zodíaco quando criança. No meu caso, é a segunda alternativa :P
Prosseguindo: historicamente, não se tem noção clara de quando os caracteres chineses foram levados ao Japão, apesar de haver documentos datando do século V D.C. (provavelmente escritos pelos próprios chineses). Apenas no século VI D.C. é que se vê documentos escritos em caracteres chineses com interferência do japonês (um chinês misturado com japonês), indicando uso corrente da escrita.
Explicando brevemente, os ideogramas que compõem a palavra kanji (漢字) significam "escrita de Han"; esse Han seria o imperador chinês em cujo governo teria sido desenvolvida esta escrita. O porquê dos japoneses chamarem Han de Kan (daí "KANJI") não está claro, mas a teoria corrente é de que, na época, o japonês não tinha o som "han" (pronuncia-se ran) incorporado ao seu sistema fonético.
No caso da escrita na China, a cada ideograma corresponde um som com seu(s) respectivo(s) significado(s). No caso do Japão, como foi uma escrita adaptada, o furo é um pouco mais embaixo. No caso, a cada ideograma costuma corresponder um conceito, variando o som.
Podemos dar como exemplo inicial os números. Qualquer um que já tenha feito aula de judô ou karatê ou outra arte marcial japonesa deve ter aprendido a contar até, pelo menos, dez. Contemos, então:
ichi, ni, san, shi, go, roku, shichi, hachi, kyu, ju
A cada um destes números corresponde um kanji, certo? Aqui estão eles, em ordem:
一, 二, 三, 四, 五, 六, 七, 八, 九, 十
Pronto, agora vocês já podem escrever os números. São alguns dos kanis mais fáceis (do 1 ao 3, pelo menos).
Agora, para não ficar apenas na parte fácil, vamos complicar um pouco. O próximo kanji que vou mostrar se chama tsuki, que quer dizer lua. É um kanji bastante fácil, aprendido nos níveis iniciais, e é com ele que se escrevem os meses do ano. Podem adivinhar como se escreve? Fácil, fácil:
一月, 二月, 三月, 四月, 五月, 六月, 七月, 八月, 九月, 十月, 十一月, 十二月
Como se vê, o primeiro mês se escreve exatamente assim: como o kanji do número 1 junto do kanji do mês, e assim sucessivamente. Até os meses onze e doze são fáceis. Pega-se o kanji de 10 mais o kanji de 1 e voilá, 11. Como se pronuncia, então? Seguindo a lógica apresentada, o certo seria dizer ichi, que é um, e tsuki, que é lua, formando ichitsuki, correto?
Errado. Tsuki é apenas uma das leituras daquele kanji. Quando ele quer dizer lua, fala-se tsuki. Quando ele quer dizer mês, fala-se gatsu. Assim, janeiro é ichigatsu, fevereiro é nigatsu e assim por diante.
Passemos, agora, a outro kanji que pode causar ainda mais dores de cabeça: o de dia, ou sol. Um kanji tão simples, mas tão complexo. Sol e dia se escrevem da mesma forma em kanji (日), mas se pronunciam diferentemente. Sol é hi, e dia é nichi
Agora, passemos à verdadeira loucura.
O lógico, pelo que estou dizendo, seria fazermos o seguinte: quero dizer um dia. Portanto, pego o kanji de um e o kanji de dia, junto os dois e tenho ichinichi (一日). E está correto. Contudo, se quero dizer dia primeiro, eu uso os mesmos kanjis (一日), só que a pronúncia é levemente diferente. Fala-se tsuitachi (quando eu disse "levemente", estava sendo sarcástico), que é uma leitura especial. O mesmo acontece com dois dias. Pego o kanji de dois, junto com o de dia e obtenho ninichi (二日). Contudo, se me refiro ao segundo dia do mês, escrevo da mesa forma (二日), mas a leitura é futsuka.
Isso que estou dizendo pode parecer confuso, complicado e sem sentido (e no começo é mesmo), mas segue uma lógica de contagem em japonês. Em japonês, temos os contadores. Se quero duas maçãs (ringo), não posso dizer ni ringo, pois estaria errado. Devo usar o contador, que é futatsu. No caso, o contador de dias também começa com fu (futsuka), e esse padrão se repete. Por exemplo, o contador de três é mittsu (dia três se fala mikka); o contado de quatro é yottsu (dia quatro se fala yokka).
No caso, apenas para não deixar o exemplo pendente, para dizer: "quero duas maçãs", em japonês é: ringo o futatsu kudasai.
Aí vocês podem perguntar: e para que aprender um sistema tão complicado? No caso, até concordo que o sistem ocidental de escrita é muito mais simples. Contudo, o sistema de kanjis tem um poder de síntese e de ideias dentro da própria escrita que o sistem ocidental jamais vai ter. Por exemplo: avião (hikouki) se escreve 飛行機. Vocês podem não saber ler, mas alguém que não conheça a palavra, mas conheça os kanjis, poderá inferir o significado, pois se lê "máquina que vai voando".
Podem não gostar e torcer o nariz, mas temos que admitir que isso é, no mínimo, interessante.
Eu gostaria de escrever mais a respeito, mas não agora. O texto já está bem grande, e me permite escrever mais numa próxiam ocasião (quando eu falar da construção, dos componenetes e dos tipos de kanji). Além, é claro, dos kanas.
Ficou curioso? Então não perca! Na próxima quinta, nessa mesma bat-hora, nesse mesmo bat-blog!
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Fumaça e espelhos (redux)
Pois é, eu não tenho tido tanto tempo quanto gostaria para me dedicar a produções novas; no caso, eu tenho tido relativo sucesso reescrevendo ou reformulando algumas histórias mais antigas. Um destes casos é essa, que apareceu aqui algum tempo atrás, chamada Fumaça e Espelhos. Segui alguns conselhos, ouvi algumas críticas, e cheguei ao que, creio ser uma versão quase final do conto (acho que nunca chegamos ao final; nunca está perfeito, sempre tem o que melhorar).
Bom, àqueles que já leram, espero que achem melhor (e digam se melhorou ou não), e aos que não leram, espero que gostem (e digam o que acharam).
Fumaça e espelhos
Ele levantou cedo da cama, desligando o despertador que insistia em tocar ruidosamente ao seu lado. Roçou a cabeça de leve, desarrumando sua cabeleira negra. Passou a mão pelo rosto e sentiu a barba rala que se aventurava vertiginosamente até o meio do pescoço.
Tirou o lençol abarrotado de cima da cama e levantou-se, abrindo os braços finos e compridos para espreguiçar-se; sua sombra parecia esticar-se como um animal antigo e esquelético, à espreita nos cantos e paredes mal-iluminadas. Esfregando os olhos, olhou-se duramente no espelho, encarando seu reflexo esguio e sombrio. Um brilho rubro iluminava sua íris castanha, cintilando por um momento, efêmero como uma estrela cadente que mergulha silenciosamente na escuridão do universo.
Ele caminhou até a cozinha, onde pôs a água para ferver no fogão, ouvindo o assovio solitário da chaleira contra os infinitos ladrilhos que cobriam o cômodo de ponta a ponta. A água se esvaía em baforadas contínuas de fumaça e solidão.
Ele derramou o líquido numa xícara e completou a mistura com café e açúcar, bebendo sonoramente na casa vazia.
Findado o seu desjejum, ele caminhou a passos lentos e arrastados até o banheiro, onde tirou o pijama e ligou a água do chuveiro. Antes de entrar, mirou-se em um espelho que havia sobre a pia, admirando sua nudez pálida e magra. Seus olhos, ele notava, exibiam pequenas olheiras escuras e circulares, envolvendo sua visão como pequenos buracos negros que sugavam toda a luz ao redor. Cansado, ele entrou no chuveiro e lavou-se vagarosamente com a água morna, despertando de gota em gota.
Saiu do chuveiro e puxou uma toalha, que todas as noites deixava pendurada no box para não ter que passar trabalho pela manhã. Ainda pingando sobre o chão gelado de mármore, lambuzou o rosto com creme de barbear e puxou sua gilete.
Começou passando a lâmina pela face esquerda, prestando atenção em sua imagem para não errar. Cortou-se para cima e para baixo, buscando eliminar aquele redemoinho conjunto e rebelde de pelos que teimava em nascer e crescer e grudar-se ao seu rosto. Em movimentos rápidos e imprecisos, eliminou-os uma vez mais.
Quando terminou aquele lado, lavou a gilete na pia para tirar o excesso de espuma.
Nem teve tempo de perceber sua imagem refletida estendendo a mão para fora do espelho e, num movimento rápido, rasgar-lhe a garganta. Com um brilho escarlate vibrando venenosamente em sua íris enegrecida, seu reflexo brandiu a lâmina torta e gasta da esquerda para a direita, abrindo um talho em seu pescoço tal qual um sorriso fora do lugar, desesperadoramente satisfeito com seu resultado terminal e irrecorrível.
Sem emitir um ruído sequer, encostou-se à parede branca e gélida e deixou que seu corpo deslizasse suavemente até o chão, sentindo um arrepio frio em seu pescoço.
Sua imagem permaneceu imóvel, observando-o com um sorriso malicioso. Apenas mais tarde, apercebendo-se de sua própria natureza, é que enfim sentiu um corte profundo na garganta e caiu, sangrando até a morte.
Post-scriptum:
Àqueles que se interessam, eis o link para o post antigo
http://visoesnaareia.blogspot.com/2008/10/fumaa-e-espelhos.html
Bom, àqueles que já leram, espero que achem melhor (e digam se melhorou ou não), e aos que não leram, espero que gostem (e digam o que acharam).
Fumaça e espelhos
Ele levantou cedo da cama, desligando o despertador que insistia em tocar ruidosamente ao seu lado. Roçou a cabeça de leve, desarrumando sua cabeleira negra. Passou a mão pelo rosto e sentiu a barba rala que se aventurava vertiginosamente até o meio do pescoço.
Tirou o lençol abarrotado de cima da cama e levantou-se, abrindo os braços finos e compridos para espreguiçar-se; sua sombra parecia esticar-se como um animal antigo e esquelético, à espreita nos cantos e paredes mal-iluminadas. Esfregando os olhos, olhou-se duramente no espelho, encarando seu reflexo esguio e sombrio. Um brilho rubro iluminava sua íris castanha, cintilando por um momento, efêmero como uma estrela cadente que mergulha silenciosamente na escuridão do universo.
Ele caminhou até a cozinha, onde pôs a água para ferver no fogão, ouvindo o assovio solitário da chaleira contra os infinitos ladrilhos que cobriam o cômodo de ponta a ponta. A água se esvaía em baforadas contínuas de fumaça e solidão.
Ele derramou o líquido numa xícara e completou a mistura com café e açúcar, bebendo sonoramente na casa vazia.
Findado o seu desjejum, ele caminhou a passos lentos e arrastados até o banheiro, onde tirou o pijama e ligou a água do chuveiro. Antes de entrar, mirou-se em um espelho que havia sobre a pia, admirando sua nudez pálida e magra. Seus olhos, ele notava, exibiam pequenas olheiras escuras e circulares, envolvendo sua visão como pequenos buracos negros que sugavam toda a luz ao redor. Cansado, ele entrou no chuveiro e lavou-se vagarosamente com a água morna, despertando de gota em gota.
Saiu do chuveiro e puxou uma toalha, que todas as noites deixava pendurada no box para não ter que passar trabalho pela manhã. Ainda pingando sobre o chão gelado de mármore, lambuzou o rosto com creme de barbear e puxou sua gilete.
Começou passando a lâmina pela face esquerda, prestando atenção em sua imagem para não errar. Cortou-se para cima e para baixo, buscando eliminar aquele redemoinho conjunto e rebelde de pelos que teimava em nascer e crescer e grudar-se ao seu rosto. Em movimentos rápidos e imprecisos, eliminou-os uma vez mais.
Quando terminou aquele lado, lavou a gilete na pia para tirar o excesso de espuma.
Nem teve tempo de perceber sua imagem refletida estendendo a mão para fora do espelho e, num movimento rápido, rasgar-lhe a garganta. Com um brilho escarlate vibrando venenosamente em sua íris enegrecida, seu reflexo brandiu a lâmina torta e gasta da esquerda para a direita, abrindo um talho em seu pescoço tal qual um sorriso fora do lugar, desesperadoramente satisfeito com seu resultado terminal e irrecorrível.
Sem emitir um ruído sequer, encostou-se à parede branca e gélida e deixou que seu corpo deslizasse suavemente até o chão, sentindo um arrepio frio em seu pescoço.
Sua imagem permaneceu imóvel, observando-o com um sorriso malicioso. Apenas mais tarde, apercebendo-se de sua própria natureza, é que enfim sentiu um corte profundo na garganta e caiu, sangrando até a morte.
Post-scriptum:
Àqueles que se interessam, eis o link para o post antigo
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